“Mãe e Filha”, filme de beleza intensa, e muito pungente, comoveu o público do Cine Ceará. Dirigido pelo cearense Petrus Cariry (filho do cineasta Rosemberg Cariry), “Mãe e Filha” coloca o universo sertanejo em diálogo com a escola russa de Tarkovski, Paradjanov e Sokurov, influências reconhecidas pelo cineasta.

A história é simples e densa ao mesmo tempo. Uma mulher (Juliana Carvalho), moradora em Fortaleza, regressa ao sertão para levar à sua mãe um triste presente – um bebê morto, que seria seu primeiro neto. A senhora (Zezita Matos) vive em meio às ruínas do que um dia deve ter sido seu palacete senhorial. A própria cidade está abandonada e corroída pelo tempo. Lembra um pouco o ambiente de Comala, de Juan Rulfo, em seu “Pedro Páramo”. Vive-se entre fantasmas, e com um morto por enterrar.

A filmagem foi feita na cidade fantasma de Cococi, no sertão do Inhamuns, onde Petrus já havia realizado o curta “Dos Restos e das Solidões” (2006), primeira etapa do que será uma “trilogia involuntária” em torno dessa cidade, abandonada por questões políticas e vinganças entre famílias rivais. Há um drama familiar também em curso no tema proposto por Petrus. A mulher jovem é a figura racional, que deseja romper com uma ancestralidade já morta. A avó, que não deseja enterrar o neto, é a preservação da tradição, com elementos míticos, representados, por exemplo, por quatro vaqueiros, que podem ser “lidos” como cavaleiros do apocalipse, num universo imerso na religiosidade.

É um filme de múltiplas leituras, profundo e rigoroso, como deseja seu diretor, um jovem cuja carreira deve ser acompanhada com atenção. O mais incrível é que “Mãe e Filha” foi feito com meros R$ 150 mil, filmado com uma câmera 7D, fotográfica, e montado em um notebook. “Queria fazer com orçamento mais folgado e em 35 mm. Não deu, eu não ia ficar esperando, e filmamos com os recursos que tínhamos; esse filme é filho da tecnologia.” São caminhos novos que se abrem para o cinema.

O outro concorrente da noite foi o muito mais convencional “Pássaros de Papel”, do espanhol Emilio Aragón. Com uma história ambientada durante a Guerra Civil, pouco apresenta além do que já foi exaustivamente tratado pelo cinema. Mas é muito benfeito e agradou ao público. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.