A presença de Joel Nascimento no projeto lançado pelo Selo Sesc é um feito. Joel, nome fundamental ao choro, vive um drama e uma vitória a cada tema gravado. Seus 80 anos pioraram o que, desde os 19, nunca foi excelente: a audição.

Mesmo esforçando-se para se firmar na carreira de músico, seu ouvido direito ficou completamente comprometido já aos 22 anos. Com o passar do tempo, o esquerdo piorou e, hoje, funciona muito pouco. Resultado: Joel, sem ouvir quase nada, toca por instinto, por acreditar no som que não vem mais do ar, mas da alma.

“Não é fácil”, conta Henrique Cazes. “Varia, conforme o dia. Às vezes ele está tranquilo, mas há dias que é desesperador. Ele fica ansioso e as coisas passam a não funcionar muito bem.” Da mesa de som, Henrique precisa ajudar o mestre a se guiar com o pouco que consegue perceber de sons. “Mais violão, mais pandeiro, mais cavaquinho. Temos de saber como podemos ajudá-lo mais no momento de colocar um instrumento como guia.”

Henrique Cazes e seu grupo conhecem bem Joel. Juntos, fizeram no ano passado uma turnê para celebrar seus 80 anos de vida. “Vivi momentos que posso dizer que são assustadores. Aqueles em que perguntamos ‘será que acabou? Ou será que ainda vamos fazer mais um disco?'”.

Ao mesmo tempo, há passagens fisicamente inexplicáveis. Como, por exemplo, entender o dia em que Joel chegou ao estúdio com um bandolim que não era o seu e depois percebeu um truque na mixagem final? Naquele dia, Henrique fez um belo trabalho e acabou aproximando o som do bandolim novo ao que Joel tanto gosta. Quando ouviu, o músico comentou: “Mas você fez meu bandolim soar como se fosse o outro”. Seu ouvido, nesse dia, resolveu funcionar muito bem.

Outro dia, Joel iria usar um paletó para tocar, mas foi advertido por Henrique. “É melhor não usar isso, Joel. Assim, você não vai sentir a vibração do instrumento em seu corpo.” Essa é uma das estratégias que um músico surdo ou com deficiência auditiva em algum grau pode usar para perceber a intensidade das notas que toca. Joel se guia pela vibração de seu instrumento no peito.

Está sendo preparada, para o próximo ano, o lançamento de uma biografia de Joel Nascimento. O jornalista Jorge Roberto Martins, filho do compositor Roberto Martins, é o autor. Henrique Cazes fez a introdução do livro.

Modernidade “Se fosse outro músico de 80 anos, esse encontro não seria possível”, diz Henrique sobre o pensamento contemporâneo de Joel. Muitas vezes ao contrário do que o próprio Jacob pregava – o purismo e a negação de linguagens modernas à época, como a bossa nova -, Joel não se limita a padrões. “Nunca foi um conservador, só gravou choro tradicional nos anos 1990. Não fez isso em seus primeiros 20 anos.” O improviso, quando comparado ao jazz, se diferencia por uma questão crucial. No choro, mesmo quem sola, serve ao outro. No jazz, a história é outra.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.