O ritmo da discoteca invadia o Brasil naquele final dos anos 1970, turbinado pela novela Dancin’ Days e pelo filme Os Embalos de Sábado à Noite. A moda disco fez com que as gravadoras nacionais buscassem uma Donna Summer tropical para chamar de sua. A Phonogram, por exemplo, escolheu Lady Zu. A RCA cogitou Eliana Pittman.

Com carreira estabelecida, ela era uma estrela internacional desde os tempos em que cantava ao lado do padrasto, o saxofonista americano Booker Pittman (1909 – 1969) e já tinha feito quatro discos na companhia. A cantora ouviu a proposta e recusou. “Passei o tempo todo com as pessoas dizendo que eu não vendia disco porque cantava música americana. Agora estou vendendo e vocês querem que eu vire Donna Summer?”, disse à cúpula da gravadora. A negativa lhe custou a saída da RCA.

Eliana nunca deixou de fazer shows, mas desde o embate com a RCA foi colocada à margem do grande mercado fonográfico. “Eu não parei de cantar. Pararam comigo”, afirma. Desde 2018, no entanto, ela vem reconquistando espaço.
No ano passado, a cantora lançou em LP e CD um inédito show de 1966 com Booker. Agora, ela mistura passado e presente no álbum Hoje, Ontem e Sempre, o primeiro de estúdio em 17 anos. O trabalho que sai pela gravadora Kuarup traz 10 gravações inéditas, além de oito faixas captadas em uma apresentação que Eliana fez em 1970, na boate parisiense Dom Camillo.

A ideia do álbum surgiu quando a produção do balé Cebola, Cascas de Um Todo, concebido por Kelson Barros, convidou Eliana para cantar clássicos da música brasileira durante o espetáculo. O produtor Thiago Marques Luiz, que já havia dirigido a cantora em discos de tributo com vários artistas, teve a ideia de registrar o que ela interpretava em cena.

O disco comemora, com atraso de 8 anos, meio século de carreira de Eliana. “Não comemorei porque não tinha o que comemorar”, escreveu no encarte. É um álbum que mostra a versatilidade da cantora. Entre as músicas, estão Drão (Gilberto Gil), Ex-Amor, (Martinho da Vila), Onde Estará o Meu Amor ( Chico César) e até o pagode Gamei, sucesso do Exaltasamba. A cantora gravou as dez faixas de Hoje, Ontem e Sempre em apenas um dia, acompanhada pelo violão de Joan Barros. Algumas também contam com a percussão de Michel Machado.

Hoje, Ontem e Sempre é um disco diferente de tudo o que Eliana fez. “Não sou mulher de voz e violão, gosto de piano e bateria. E gravar tudo de uma vez só é loucura, nunca mais faço isso”, conta a cantora, que acabou se adaptando aos arranjos minimalistas. Para completar o repertório, ela escolheu um antigo samba-enredo da Portela, Tributo à Vaidade, e Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazón, de Fito Páez.

Nosso Estranho Amor, de Caetano Veloso, fazia parte do balé e foi gravada para o disco, mas teve de sair da seleção final por conta do alto custo dos direitos autorais.

Já a fita de rolo com o show em Paris estava esquecida em um canto do apartamento de Eliana. Ao visitá-la, Marques Luiz não resistiu à curiosidade e digitalizou o material. Para surpresa da cantora e do produtor, o som estava com ótima qualidade. “Nem me lembrava de onde tinha sido esse show”, diz Eliana.

Na boate, ela interpretou músicas ligadas à Bossa Nova, caso de Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Garota de Ipanema (Jobim e Vinicius de Moraes), as recentes Aquele Abraço (Gilberto Gil) e Ponteio (Edu Lobo e Capinan), e até Big Spender (Cy Coleman e Dorothy Fields), do musical Sweet Charity.

A edição física do disco sai com capricho raro nos dias atuais. Um luxuoso encarte traz fotos de diversas fases da cantora, incluindo uma capa da revista Ebony, dedicada a celebridades e políticos afro-americanos, com Eliana.
Hoje, Ontem e Sempre sacramenta uma revalorização do trabalho de Eliana por DJs especializados em música brasileira e colecionadores de vinil que disputam os discos da cantora em sebos. Em festas, é possível ouvir músicas como Vou Pular Neste Carnaval (1972), Quem Vai Querer (1977), e os carimbós que ela gravou ao longo dos anos 1970.

Ela foi uma das primeiras divulgadoras do ritmo no sul do Brasil. Durante uma turnê, a cantora se viu obrigada a dormir em São Luís depois de uma pane mecânica no avião que a transportava. De manhã, foi à Praia Do Olho Dágua e ouviu um disco de Pinduca, o “rei do carimbó”. Ela gostou e foi perguntar para a atendente do quiosque que tocava o LP se ela poderia vendê-lo. “Não vendo, não dou e não empresto”, foi a resposta.

O namorado de Eliana, que morava em São Paulo, descobriu uma loja na Avenida São João que vendia discos de artistas do norte e do nordeste e comprou tudo o que havia de Pinduca.

A cantora ouviu os discos do paraense e quis gravar Sinhá Pureza e Carimbó do Mato. Como as letras eram curtas, teve a ideia de uni-las na mesma faixa. “No que juntei não achei justo, para uma coisa tão brasileira, chamar de pot-pourri de carimbó”. Incluída em Tô Chegando, Já Cheguei (1974), único disco de ouro da cantora, Mistura de Carimbó fez enorme sucesso nas rádios.

Outras misturas do ritmo vieram nos trabalhos seguintes. A RCA sugeriu que ela gravasse carimbós feitos por compositores das escolas de samba do Rio. Eliana não quis. “Falei para eles me mandarem para Belém, que eu faria uma pesquisa musical com Pinduca e gravaria um disco só com carimbós. Teria sido a melhor coisa para todo mundo. Ou fazia certo ou não fazia. Sou pela autenticidade. Não vou enganar o povo com o carimbó da esquina”. Daí surgiu a ideia de transformá-la na Donna Summer brasileira.

Aos 74 anos, a cantora colabora para uma biografia que contará sua trajetória. O historiador Daniel Saraiva já entrevistou pessoas ligadas a Eliana e pretende lançar o livro em 2020.

Um dos casos que com certeza estará na publicação envolve os bastidores do espetáculo Momento 68. Com texto de Millôr Fernandes, o misto de musical e desfile de moda apresentava a nova coleção da fábrica têxtil Rhodia e contava com Eliana, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Walmor Chagas, Raul Cortez e o dançarino Lennie Dale. Ofélia, mãe e empresária de Eliana, foi uma pessoa lendária no show business nacional e conseguiu que o cachê da filha fosse maior que o de Caetano e Gil.

Administrador da carreira dos baianos, Guilherme Araújo queria as mesmas condições para seus artistas e ameaçou retirá-los do espetáculo. Eles permaneceram e, Poucos meses depois, foram presos em São Paulo pela ditadura militar.

A cantora também se mostra insatisfeita com os rumos atuais da música. “Depois de Michael Jackson, a música passou a ter cenário, virou algo secundário. Mas nesse momento o importante é que tenho um trabalho lindo.”

ELIANA PITTMAN

Hoje, Ontem e Sempre

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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.