São Paulo (AE) – Elis Regina (1945-1982) começou a carreira tendo Ângela Maria como modelo, ?fazendo tudo exatamente igual ao que ela fazia??, diz ela logo no início do DVD Na batucada da vida. Só que, aos 16 anos, quando lançou o primeiro álbum, ela não tinha o menor controle sobre o que podia gravar. Foi então que surgiu preparada pela gravadora Continental para fazer frente a Celly Campello, a queridinha do Brasil na época, contratada da concorrente Odeon.

É ao som de Garoto último tipo (versão da baba Puppy Love) que fotos da Elis adolescente são encadeadas no início do DVD. Logo, porém, o foco vai para 1973, com Elis já madura e dona do próprio nariz, homenageando Ângela Maria ao regravar Vida de bailarina (A.Seixas/D.Silva).

Reunidos agora pela Som Livre, Viva a brotolândia e Poema de amor foram rejeitados pela cantora a vida toda. Tanto é que os discos só foram relançados depois de sua morte. Não era para menos. O repertório de calipsos, rock-baladas, boleros e chachachás que a obrigaram a gravar era de doer. Ou de rolar de rir, caso da versão de My favorite things (Hammerstein/Rodgers), em que a certa altura há um efeito de voz esganiçada que mataria de vergonha até o Pato Donald. Fora isso, porém, ali já estava aquela voz tamanha, perfeita, impressionante para uma garota de 16 anos.

Não falta quem tenha criticado seu repertório de anos depois também; há músicos e especialistas que a consideram muito superior ao que cantava. No entanto, entre 1973 e 1978, e até pouco antes deste período em que se concentra a maior parte dos três DVDs da caixa Elis, ela teve em sua companhia o que o filho João Marcello Bôscoli chamou de ?quarteto mágico??. Ou seja, César Camargo Mariano (piano, teclados, arranjos e direção musical), com quem foi casada, Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria, às vezes trocando baquetas com Chico Batera) e Hélio Delmiro (guitarra).

Foi com esse elenco de craques que ela realizou o grande show de sua carreira, Falso brilhante, durante 17 meses entre 1975 e 1976 no mesmo Teatro Bandeirantes. Elis lembra daquele momento feliz no DVD de mesmo nome, mas não espere muito além de flashes do show (ao que consta ninguém o tem registrado na íntegra de forma satisfatória). Como Na batucada da vida e Doce de pimenta, este DVD foi montado com imagens de shows que a cantora fez especialmente para serem exibidos pela TV Bandeirantes.

O registro mais recente é o de Me deixas louca (Armando Manzanero/versão: Paulo Coelho), sua última gravação, em dezembro de 1981. No fim, há até imagens dela morta dentro do caixão e cenas do cortejo fúnebre enquanto declama um texto em que professa sua crença numa outra vida. Um pouco demais.

Além de grandes canções de seus álbuns daquele período, ela interpreta canções que nunca chegou a gravar em seus discos, como San Vicente (Milton Nascimento/Fernando Brant), Doce de pimenta (Rita Lee/Roberto de Carvalho), Plataforma (João Bosco/Aldir Blanc), Ilusão à toa (Johnny Alf), Meninas da cidade (Fátima Guedes), Iracema (Adoniran Barbosa) e a surpreendente Humahuaca (Willy Verdaguer), entre outras. Elis divide os vocais de algumas delas com os autores (Milton, Rita, Bosco, Fátima, Adoniram, o Grupo Humahuaca) e canta outras com Tom Jobim e Chico Buarque.

Como diz Tom em certo momento, ?Elis como cantora era tudo?: reunia afinação, noção de interpretação, musicalidade, ritmo como poucas. Elis dizia que amava a música, acreditava na melhora do planeta, intuía que a loucura era fundamental, acreditava na bondade do ser humano e confiava que nem tudo estava perdido. Porém, um dia, ela conta, foi gravar um desses programas ?plásticos?? de televisão e perguntaram o que ela ia fazer. ?Cantar??, respondeu. Ao que ?o cara?? insistiu: ?Só??? ?Como só? Aí eu fui pra casa, porque a única coisa que sei fazer é essa.?