No fim de 2018, os críticos do The New York Times propuseram o “Pop 2.0”: a música popular atual não responde mais aos sons de Michael Jackson e Madonna, mas sim aos de outra pessoa: Aubrey Drake Graham. “Quase toda estrela ou inovação importante do gênero na última década pode ser ligada a ele – direta ou indiretamente, em homenagem ou em oposição. Ele de fato reformulou o hip-hop à sua imagem”, escreveu Jon Caramanica no Times.

É injusto não reconhecer quem veio antes, abrindo caminhos e propondo mudanças (como a “suavizada melódica” do hip hop, liderada por Kanye West e Pharrell Williams), mas também é injusto não ver em Drake a cristalização da metamorfose: transformar a melodia na preocupação principal do rap.

No início do século, ele era uma estrela da TV no Canadá, onde nasceu, filho de um músico afro-americano parceiro de Jerry Lee Lewis e de uma professora judia, na classe média de Toronto. Entre 2007 e 2009, lançou suas primeiras mixtapes, ainda fortemente influenciado pelo rap rosnado e agudo de Lil Wayne (que depois virou seu grande patrocinador de início de carreira), mas foi com Thank Me Later (a maior estreia de 2010) e Take Care (2012) que seu nome começou a virar um colosso – Drake também é protagonista do movimento global de “retorno” aos singles, território que domina como poucos (as melhores músicas de seus álbuns são quase sempre lançadas antes, com pompa).

“Nothing Was The Same (2013) é o seu álbum perfeito”, explica o rapper brasileiro Don L, da mesma geração no hip hop que Drake. “Nesse disco ele definiu um estilo, que tem a ver com ser bom de rap e ser bom cantor, com muito R&B. Nas canções desse disco já é possível reconhecer que quando rima, é o Drake, e quando canta, é o Drake. Em termos de lírica, o lance dele foi colocar as coisas juntas, love songs com bagulho de rap, hits populares com conceitos, um boombap (tipo de produção) chill out. Ele deu uma unidade para vários estilos.”

Outro nome brasileiro do mesmo período, Projota também faz uma análise parecida. “Ele encabeça uma geração que passa a colocar mais melodia na voz, começa a cantar os próprios refrões”, explica. “Isso é essencial no trabalho dele.” Somam-se a isso sua “caneta de diamante” e o estilo muito natural de navegar entre abordagens temáticas do hip hop. “Ele sempre fez música romântica e música de mensagem ao mesmo tempo. Ele mostra como se pode falar sobre outras coisas e não deixar de falar sobre o que o rap deve falar.”

Os dois concordam que ver o trabalho de Drake “dar certo” serviu, pelo menos, para gerar empatia e inspiração também no cenário do rap nacional, que bebe das mesmas fontes que o artista canadense.

Em escala global, tudo segue volátil na contagem de streamings: as plataformas ainda estão crescendo, portanto nenhum número soa tão definitivo. Mesmo assim, Scorpion, o álbum mais recente de Drake, quebrou praticamente todos os recordes do setor, passando a ser o álbum com mais streamings no dia do lançamento e no ano. A consultoria americana Nielsen estimava 4 bilhões de streamings só até novembro. Com os singles God’s Plan e Nice for What lançados anteriormente, ele já havia se tornado o primeiro artista na história a substituir seu próprio #1 na parada da Billboard.

Drake não é perfeito. Entre suas controvérsias ao longo dos anos, o fato de usar ghostwriters em algumas canções já lhe causou dores de cabeça – cantar os versos de outro compositor, no hip hop, é motivo de chacota. Em 2018, um “beef” (situação em que dois rappers discutem publicamente) com o americano Pusha T revelou que Drake escondia um filho do mundo. Ninguém – nem Drake – é perfeito, afinal.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.