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‘Dogville’ trata de um tema atual em montagem com recursos de cinema

  • Por Estadão Conteúdo

Quando o diretor Zé Henrique de Paula começou a trabalhar na encenação de Dogville, há dois anos, foi constantemente questionado se teria um palco vazio, com os espaços que indicam os cômodos de uma casa apenas delimitados com desenhos no chão, tal qual acontece no filme dirigido por Lars Von Trier em 2003 e que serve de inspiração para a peça. “Percebi que a cenografia teria uma importância vital; por isso, optei pelo caminho inverso: na peça, flertamos com a linguagem cinematográfica, utilizando não somente projeções de vídeo em objetos irregulares, mas também projetando cenas filmadas ao vivo durante o espetáculo”, conta o encenador.

Com produção de Felipe Lima, que há anos batalhava para viabilizar o audacioso projeto, Dogville está em cartaz no Teatro Porto Seguro, onde o público tem o privilégio de assistir a uma montagem original: as demais versões montadas em outros países preferiram não correr o risco e têm seus palcos praticamente sem cenografia e com riscos indicando os cômodos das casas, exatamente como no filme de Von Trier. “Decidi não seguir o mesmo caminho, pois seria melhor assistir ao longa, que é tão icônico”, observa Zé Henrique.

De fato, a opção do cineasta dinamarquês de levar recursos típicos do teatro (como a sugestão de espaços) ao cinema, meio que quase sempre prima pelo realismo, ainda hoje é original. Assim, além de fazer o caminho inverso, Zé Henrique criou ainda uma montagem que flerta com estéticas importantes do teatro e do teatro físico, como de Tadeusz Kantor, Pina Bausch e Dimitris Papaioannou. “A ideia é explorar a secura do texto, a aridez da cidade e a precariedade dos personagens de forma a trazer isso também para o corpo dos atores e os elementos de encenação”, explica. “Espero que, com isso, as pessoas se esqueçam lentamente do filme, à medida que acompanham a peça.”

Mas, além da opção estética, a montagem brasileira reforça a terrível mensagem transmitida pelo texto, cuja narrativa caminha “rumo à nossa sombra, ao nosso lado escuro, aos nossos sentimentos mais negativos e mesquinhos”, no entender do diretor. A trama se passa na fictícia cidade de Dogville, onde residem poucas famílias formadas por pessoas aparentemente bondosas e acolhedoras. A rotina é abalada pela chegada inesperada de Grace (Mel Lisboa), uma forasteira misteriosa que procura abrigo para se esconder de um bando de gângsteres.

Acolhida pela população, Grace decide oferecer em troca seus serviços, mas, um jogo perverso se instaura entre os moradores da cidade e a bela forasteira: quanto mais ela se doa e expõe a sua fragilidade e a sua bondade, mais os cidadãos de bem exigem e abusam dela, levando a situação a extremos inimagináveis.

“É um reflexo do capitalismo”, acredita Fábio Assunção, um dos 16 atores em cena. “Quanto mais frágil a pessoa aparenta ser, mais ela vai ser escravizada. Dogville é uma comunidade hipócrita, pois os habitantes fingem estar ajudando quando estão, na verdade, abusando.” A mensagem, portanto, é de alerta. “Em tempos de intolerância, de exploração é necessário mostrar que, embora o ser humano tenha uma tendência a agir de modo abusivo em determinadas situações, é preciso impor limites. Nem tudo é aceitável, muito menos tolerável”, diz o produtor Felipe Lima.

DOGVILLE

Teatro Porto Seguro

Al. Barão de Piracicaba, 740. Tel.: 3226-7300. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 50 / R$ 90. Até 31/3

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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