A premissa é digna de uma grande saga de cinema. Logo após a guerra, soldados que foram capturados pelo exército inimigo encontram asilo em um país distante e nunca mais têm contato com sua terra natal. Nesta nova pátria, podem viver em paz, mas perdem contato com suas famílias, sua cultura e sua honra, manchada pela derrota e pela vergonha. Cerca de 60 anos após o exílio começar, viram tema de filme, têm sua história contada e podem, finalmente, voltar para casa e ter recepção festiva.

O final desta história não foi escrito ainda, mas, se depender do diretor sul-coreano Cho Kyeong-duk, é assim que vai ser o desfecho de seu mais novo filme: Retorno para Casa.

O documentário, que ele vem realizando nos últimos três anos, tem curiosamente o Brasil como cenário e conta a história dos remanescentes de um grupo de 50 soldados da Coreia do Norte, comunista, que, logo após o fim da Guerra da Coreia (1950-1953), migraram para o País. “Após o acordo de armistício, os prisioneiros foram trocados. O problema é que alguns, acho que uns 80, não quiseram voltar para o norte. Não por não serem comunistas necessariamente, mas porque, pela regra, teriam de se matar caso fossem capturados. Como não o fizeram, temiam represálias”, explica Cho, que no final desta semana inicia a terceira fase do projeto e viaja com os ex-soldados pelo Brasil. “E no sul também não se sentiam confortáveis, pois temiam não serem aceitos ou serem vistos como comunistas. E, pior, o governo do norte poderia pensar que eram desertores e suas famílias poderiam sofrer com isso.”

Emigrar para um país neutro foi a opção. Passaram dois anos na Índia esperando serem aceitos por outras nações.

O Brasil, ao lado do Canadá, dos EUA e da Argentina, foi um deles. E em 1956, em pleno fevereiro, aportaram no cenário paradisíaco do Rio. Aqui, encontraram paz, mas vivem até hoje com um sentimento de não pertencimento. “Eles se tornaram um pouco brasileiros, mas não deixaram de ser coreanos. Ao mesmo tempo, não são bem aceitos nem na Coreia (tanto a do norte quanto a do sul), nem pela comunidade coreana no Brasil, que chegou aqui dez anos depois, com a primeira onda migratória oficial. Todos os veem com desconfiança. Pense no sofrimento que isso representa para eles”, comentou o diretor em conversa com a reportagem na manhã de ontem, 21.

Cho, que levou o Prêmio do Júri Internacional da 33.ª Mostra com o longa Voluntária Sexual em 2009, também pouco sabia destes conterrâneos até aportar aqui para participar do festival. “Durante a Mostra, conheci alguns deles, que me contaram que queriam que sua história fosse contada. Então decidi fazer este filme”, relembra o diretor, que voltou a São Paulo em 2010 para realizar as primeiras entrevistas com os ex-soldados. “Eles vieram para São Paulo, Mato Grosso, Florianópolis, Campinas, Salvador. É este desterro que quero também retratar.”

Graças ao esforço de produção de Cho, não só este capítulo da história da Coreia e do Brasil vai ser contada, mas um novo se abre.

Nesta terça, 22, será assinado um protocolo de intenção entre Brasil e Coreia, além de ser realizado um encontro para debater modelos e um acordo de coprodução entre o cinema dos dois países. Com a participação de autoridades como Hong Sungkee, vice-presidente do Kofic (Korea Film Council), Kim Mee-jyun, diretor global de marketing do Kofic, Renata de Almeida, diretora da Mostra, e Manoel Rangel, diretor da Ancine. “A ideia da cooperação nasceu do projeto de Cho. Ele nos procurou, falou de seu projeto. E isso despertou para a possibilidade de se colaborar. Mais que contar histórias, equipes das duas nações poderão filmar tanto lá quanto no Brasil”, comentou Sungkee.

37ª MOSTRA – FOCO COREIA – Lounge da Mostra. R. Augusta, 1.470. Hoje, das 15 h às 18 h; amanhã, das 9h30 às 12 h. Grátis.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.