Dalton Trevisan nunca foi dado a aparições públicas. Para falar com ele, é preciso deixar recado na Livraria do Chaim, que ele frequenta em Curitiba, e, querendo, ele responde por fax. Assim, ninguém será surpreendido se ele não for receber o Prêmio Camões. O fato não chega a preocupar a organização, que em 2006 já escolheu outro escritor que não iria à cerimônia. Naquele ano, houve um agravante. Luandino Vieira, português de nascimento e angolano por opção, recusou o prêmio de 100 mil euros pago pelos governos de Portugal e do Brasil.

O curitibano é o 10.º brasileiro a ganhar o Camões – o primeiro foi João Cabral de Melo Neto, em 1990, e o último, Ferreira Gullar, em 2010. Falta apenas mais um para o Brasil se igualar a Portugal nesta que é a principal premiação a um autor de língua portuguesa pelo conjunto da obra.

O anúncio do vencedor desta 24.ª edição foi feito nesta segunda-feira, em Lisboa, pelo secretário de Estado da Cultura de lá, Francisco José Viegas. Segundo o crítico literário Silviano Santiago, presidente do júri e colunista do “Sabático”, a escolha foi unânime. “Em primeiro lugar, pela contribuição dele à arte do conto. Não há dúvida de que temos uma belíssima tradição do conto no Brasil. E ele conseguiu uma voz muito pessoal.” Os outros membros do júri foram o brasileiro Alcir Pécora, os portugueses Rosa Martelo e Abel Barros Batista, a angolana Ana Paula Tavares e o moçambicano João Paulo Borges.

Para Santiago, o mérito de Trevisan vem da forma como ele trabalha a língua. “É um trabalho em prosa muito difícil, semelhante ao que se tem quando se faz um soneto, um poema curto. Mas no caso de Dalton, ele faz da dificuldade sua própria poética. A ponto de seus últimos contos serem praticamente poemas, haicais, tal a concisão, a secura, a necessidade de buscar o essencial.”

Trevisan acumula bons e frescos prêmios. Esteve duas vezes entre os vencedores do Portugal Telecom. Em 2003, “Pico na Veia” dividiu o primeiro lugar com “Nove Noites”, de Bernardo Carvalho. Em 2007, ficou em segundo com “Macho não Ganha Flor”. Seu penúltimo título, “Desgracida”, ficou em primeiro lugar na categoria contos do Jabuti de 2011, premiação que já havia recebido em 1960 por “Novelas Nada Exemplares”. Dalton é editado pela Record, que publicou, em 2011, “O Anão e a Ninfeta”. Não há previsão de lançamento para 2012. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.