São Paulo – Até alguns anos atrás, sabia-se muito pouco sobre quem seria M. Agueiev, autor de Romance com Cocaína (Musa, 200 págs., R$ 30), publicado pela primeira vez em 1934 em várias revistas de emigrados russos e que ganhou notoriedade nos anos 80, quando foi publicado na França.

Nessa época, a poetisa Lídia Tchervínskaia repetiu o que já dissera nos anos 30 -que por trás de Agueiev se escondia um escritor de nome Mark (ou Marco) Levi, que fugira da União Soviética e retornara para o país comunista. A versão não foi levada muito a sério, mas depois de muitas tentativas de atribuição, inclusive ao Vladimir Nabokov, chegou-se à conclusão de que, de fato, ela sabia o que falava.

O que conta, mesmo, é que Romance com Cocaína, parcialmente biográfico, ou não, dá tantos “socos” no leitor quanto o faria um lutador de boxe.

Desde o começo, durante a 1.ª Guerra (o romance vai até 1919, atravessando, portanto, o período da revolução), época em que ele tem vergonha da mãe, passando pela doença que ele, numa relação sexual, transmite a uma mulher que nunca mais verá, até o uso da cocaína propriamente dita, o leitor é incomodado literariamente pelo autor.

O narrador-protagonista, no entanto, apesar de suas atitudes vis, é capaz de provocar empatia, porque comete o que ele próprio considera erros mais pela insegurança juvenil – acompanhada de um sentimento de culpa vigoroso – do que por qualquer outro motivo. A sucessão dos acontecimentos prende o leitor (apesar de alguns problemas de revisão) e faz desse livro uma preciosidade, agora também em português.