Um dia antes de a Mostra oficial começar, acontece uma sessão comemorativa no Campo San Polo, coração da Veneza histórica. Lá, um filme histórico é sempre projetado para o público num telão montado na praça. Este ano, o escolhido é um clássico do cinema político, Le Mani sulla Città, As Mãos sobre a Cidade, com o qual Francesco Rosi levou o Leão de Ouro em 1963, ou seja, há exatos 50 anos. Rosi, nascido em Nápoles em 1922, estará presente à projeção da cópia restaurada pela Cineteca Nazionale di Roma.

As Mãos sobre a Cidade é um clássico de denúncia da especulação imobiliária e uma reflexão madura sobre a corrupção política e seus elos com o empresariado. A cidade é Nápoles, devastada por empreendimentos imobiliários predatórios. Durante a demolição de um velho prédio, que deve ceder lugar a outro imóvel mais novo e rentável, uma parede desaba, matando dois homens e ferindo gravemente um menino.

Edoardo Nottola (Rod Steiger), o dono do canteiro de obras, deveria ser responsabilizado, mas ele possui poderosas alianças políticas.

Nottula, no entanto, não deveria se fiar tanto em sua rede de amizades, porque a política é dinâmica, como se diz. Hoje você tem apoio, amanhã, se o vento virar, pode não ter mais. Ainda mais quando há um processo eleitoral próximo e as aparências de moralidade e interesse pelo povo precisam ser mantidos a todo custo. Alguns diálogos são primorosos, como quando um político diz a outro que a moral é irrelevante e que imoral, em política, é perder o poder.

À sua maneira incisiva e jornalística, Rosi (autor de outro clássico, O Bandido Giuliano, que influenciou Glauber Rocha), sabe que o maniqueísmo ou a caricatura não levam a parte alguma. Só convencem aos convencidos de antemão. Por isso, procura conduzir a narrativa como uma investigação, fria e racional, na qual a paixão aparece episodicamente, mas sem perturbar o andamento do raciocínio. Importa-lhe, sem didatismo, desvendar um modo subterrâneo de funcionamento social da política para que todos a conheçam e possam defender-se, dentro da pequena margem de manobra concedida aos cidadãos. Por isso, à clássica advertência final de que “todos os fatos e personagens envolvidos são ficcionais”, Rosi ajunta um “mas as condições sociais que tornaram a história possível são verdadeiras”.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.