O Sigur Rós é uma banda de imagens. E não é só porque parte das letras do atualmente trio é cantado em islandês, a língua-mãe dos integrantes, e a outra seja feita com palavras inventadas de um idioma fictício chamado de Vonlenska. E embora a questão linguística seja importante para outros grupos, não há a necessidade de entendimento literal daquilo que o grupo produz nos discos e no palco.

O post-rock nascido nas terras geladas do extremo norte do globo é a melhor representação do que há de sinestésico em uma canção. É quando diferentes planos sensoriais se confundem. No caso do Sigur Rós, o som ouvido se transforma em imagem e cores. Como se cada canção fosse criada para traduzir, em música, a dança de uma aurora boreal. São fachos de luz a valsar pela imensidão escura do céu.

É essa a experiência sensorial apresentada na noite desta quarta-feira, 29, no último evento da plataforma Popload Gig de 2017, que trouxe, para um festival no início do mês, PJ Harvey e Phoenix. A banda se apresenta a partir das 21h30, no Espaço das Américas, uma jornada por climas, dos frios aos mais quentes, explorados pela banda ao longo dos 23 anos na estrada.

Há, é verdade, um gostinho de despedida nessa revisitação de carreira – e pode até ser, embora, em entrevista ao Estado, a banda não confirme nem negue a sensação. O fato é que o Sigur Rós volta a São Paulo após 16 anos com mais cancha, cinco discos a mais e um integrante a menos. Agora, um trio – formado por Jónsi Birgisson (voz e guitarras), Georg Hólm (baixo) e Orri Páll Dýrason (bateria) -, a banda apresentará o show completo, com luzes e cenários usados na Europa, um desejo antigo da banda e, segundo Georg, o real impedidor para o retorno do Sigur Rós ao Brasil nos anos anteriores. “É muita coisa para despachar. A logística fica difícil”, explica ele, por telefone, de Reykjavik, capital do país. Georg coloca a questão de se criar uma atmosfera para a performance ao vivo como algo a ser avaliado pela banda nos próximos anos. Não quer dizer o fim do Sigur Rós, contudo.

De acordo com o baixista, a banda tem músicas inéditas nas mangas – algumas delas serão executadas no palco do Espaço das Américas por se conectarem com a narrativa proposta pelo grupo no palco. “Mas é muito difícil compor na estrada”, explica Georg, em uma justificativa compreensível vinda de uma banda que nasce do silêncio profundo e cresce, se agiganta. “É um processo lento, mesmo. Nós temos ideias de canções, mas ainda não entramos em estúdio para gravar essas músicas. Mesmo que seja vagaroso, para nós é excitante. Algumas ideias são bem diferentes, outras são a cara do bom e velho Sigur Rós.”

A agenda da banda está vazia, por enquanto, para 2018. Depois da apresentação em São Paulo, o grupo vai Bogotá, na Colômbia, onde integra o Sónar Festival, evento que chegou a ter uma versão brasileira. Depois, os três voltam para a Islândia, onde fazem uma temporada de quatro shows no Harpa Concert Hall, um espaço dedicado à teatro, ópera e música da capital do país. E nada mais.

Com entendimento do que se canta no palco ou não, Georg entende a música do Sigur Rós como um exercício de quebrar as barreiras e gêneros nos quais o grupo e tantas outras bandas são encaixotados. Por isso, por exemplo, lançaram, em 2002, um disco com o título de ( ) e músicas sem nome, com a proposta de que o público poderia nomeá-los como quisesse. “Para mim, música não tem barreiras”, diz. “Mas, se me perguntarem, eu diria que fazemos rock and roll.”

Sigur Ros no Popload Gig.

Espaço das Américas.

Rua Tagipuru, 795, Barra Funda, tel. 3864-5566. Hoje (4ª),

às 21h30. R$ 220.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.