Foto: Valquir Aureliano

René Simões está de malas prontas para a Jamaica e não gostou nem um pouco de Vialle ter antecipado a decisão aos jogadores.

A uma vitória de se sagrar campeão da Segundona o Coritiba explode em crise, de novo, um dia depois da divulgação da lista com defuntos votantes nas eleições de dezembro. O que era apenas rumores de bastidores virou briga aberta entre o técnico René Simões e o coordenador de futebol João Carlos Vialle. O dirigente avisou aos jogadores que o treinador não permaneceria no clube e que já estaria certo com a seleção da Jamaica. René classificou a atiude de ?inábil?. Já o presidente Giovani Gionédis acabou dando um puxão de orelhas nos dois nas vésperas da ?decisão? contra o Santa Cruz.

Que o clima não estava bom no Alto da Glória e no CT da Graciosa já estava ficando mais do que claro, e os protagonistas eram os dois principais homens envolvidos com o futebol do clube: René e Vialle. O que se sabia era que os dois não estavam mais se falando, apesar da convivência pacífica. Na terça-feira, a crise começou a explodir de vez. Antes do treinamento, o dirigente reuniu os jogadores no gramado sem a presença da comissão técnica. Durante o treino, René foi até a sede administrativa do CT sem dar maiores explicações para a imprensa que o entrevistou.

Ontem, no entanto, ao invés da conversa girar em torno do futebol e do confronto de sábado, a bomba. O treinador não continuaria no comando do Alviverde após a partida contra os pernambucanos. ?Em determinados momentos eu sonhei em ser o Mano Menezes do Coritiba, mas como as coisas estavam se desenhando a mim não tinha interesse e disse ao presidente e esperava fazer essa comunicação (a todos) somente depois do título. Mas, isso foi informado aos jogadores ontem, que eu não ficaria e eu estaria certo com a Jamaica, o que é quase uma verdade?, disse o treinador.

De acordo com René, há dez dias os jamaicanos o procuraram e agora o acerto está muito próximo de ser concretizado. ?Tive a honestidade de comunicar ao presidente, após a classificação, que não continuaria no clube, mas não queria que isso passasse aos jogadores porque poderia atrapalhar. Não entendo porque essa inabilidade de dois dias antes de um jogo importante reunir os jogadores e dizer que o treinador não vai ficar. Não consigo entender o porquê, mas tive de reunir os jogadores e dizer que não estava enganando-os, nem escondendo nada deles?, apontou.

E para tentar manter o foco na competição e na busca pelo título, o treinador propôs um pacto com os jogadores. ?Temos absoluta certeza que vamos conseguir o título, isso é um pacto nosso e só não entendi ainda essa comunicação aos jogadores. Eu cansei de dar parabéns tanto a situação quanto a oposição para não misturar política?, disse. De qualquer forma, o destino de René é a Jamaica. ?Não estou indo para o mundo árabe, estou indo para a Jamaica, que não é um país rico e mais uma vez eu vou e não é por dinheiro. Se for, está tudo muito próximo de fechar,  vou pela necessidade que eles têm da minha presença?, revelou.

Ao saber das rusgas, Gionédis deu um pito no treinador e no coordenador de futebol. ?Espero que o René e o Vialle tenham uma postura de dignidade e não percam o título por uma bobagem?, disparou o presidente em entrevista à CBN.

?Inábil foi o René?

De acordo com o coordenador de futebol João Carlos Vialle, as divergências chegaram a um ponto máximo após a derrota em sequência para Fortaleza e CRB. ?Fizemos uma reunião com a diretoria e cobrei do treinador os equívocos que estavam acontecendo e disse que se perdêssemos para Criciúma e Santo André, nós teríamos quatro derrotas na sequência, teríamos que mandar ele embora e eu não queria que isso acontecesse. A partir daquele momento ele não conversou mais comigo e passamos a ter um relacionamento meramente profissional?, apontou o dirigente.

De acordo com Vialle, dos últimos cinco jogos, o Coxa ganhou apenas cinco pontos e houve um claro declínio técnico. ?Em 15 pontos, ganhou cinco e com um aproveitamento desse tipo nós estaríamos na terceira divisão. Existe uma coordenação de futebol, estou sendo cobrado publicamente e chamei os jogadores não para falar que o treinador iria para a Jamaica, mas que a partir do dia 25 nós entramos em férias e iríamos iniciar o processo de renovação?, destacou.

Nessa conversa, Vialle teria citado a saída de René para os jogadores. ?Eu disse que se existisse alguma divergência com a diretoria do clube, com o coordenador de futebol ou eventualmente com o treinador, que estava saindo do clube, que essas divergências fossem deixadas de lado e que uníssemos as forças em prol de um objetivo maior. Eu não vejo nada demais em dizer isso aos jogadores. O que eu acho que houve é que ele não gostou de eu não deixar ele participar da conversa?, analisou.

Segundo Vialle, foi ele quem segurou René no clube. ?Conversei com ele três horas, segurei o treinador naquela época e todos sabem o que aconteceu. Na sequência, somamos esforços e administramos para que isso não viesse ao conhecimento público. Só falei com os jogadores e lamentavelmente quem trouxe isso ao conhecimento público foi o treinador?, atacou. Para o dirigente, o inábil de toda a celeuma criada foi René, que revelou tudo na entrevista coletiva de ontem no CT da Graciosa.

Eleições também agitam bastidores

Em meio a bombástica saída de René Simões, os bastidores se agitam para as eleições de dezembro. A tendência maior parece ser a de uma união das oposições. Existe até um critério de composição estabelecido, mas tudo ainda segue sendo discutido. Ontem, por exemplo, a chapa da situação encabeçada por Vialle e encampada por Gionédis se reuniu com o grupo de Evangelino e que tem como candidato Domingos Moro.

?A conversação sobre o processo eleitoral é fundamental. Assim como o nosso grupo esteve com o Cirino (Jair, líder do grupo que tem nomes como Marcos Hauer e Tico Fontoura), o mesmo Cirino esteve com o Giovani, mas há uma tendência que o movimento contrário à atual administração seja único?, projetou Moro. Para ele, tudo isso poderá ser definido nas próximas 24 horas. ?O que há é um grande processo de conversação?, apontou.

Processo esse que pode ser adiado, porque os prazos estabelecidos pelo regulamento da eleição não foram cumpridos pela diretoria. Cabia à atual administração divulgar, para todos os interessados o nome, endereço e telefone dos aptos a votar nas eleições. ?A isonomia do pleito foi quebrada?, disse Moro.

Lopes convenceu treinador

Com a crise entre João Carlos Vialle e René Simões veio à tona quem seria o dirigente que entrou embriagado no vestiário e discutou com o treinador após o empate com o Ceará no Couto Pereira. René também revelou que não foi o coordenador de futebol que o convenceu a ficar e sim um colega do Rio de Janeiro. ?Quem me convenceu se chama Antônio Lopes. Quando eu estava almoçando com o Vialle tocou o telefone, era o Lopes, contei o que tinha acontecido e o que estava fazendo. Ele disse que conhecia bem o presidente e que o presidente era um cara impulsivo?, revelou René.

Segundo o treinador, Lopes avisou que o que Gionédis fala ?machuca um pouco?, mas que ele no fundo é uma boa pessoa. ?Ele me disse ?continua o teu trabalho, vai dar tudo certo, você vai classificar o clube, o Coritiba é um clube grande demais, você vai classificar o clube e ele é uma pessoa boa, eu posso garantir para você, e no final você vai acabar ficando amigo dele? e foi isso que aconteceu mesmo?, continuou. Segundo René, apenas após esse telefonema ele resolveu permanecer no clube e voltar atrás no pedido de demissão.