O Brasil tem representante, nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em todas as modalidades coletivas que fazem parte do programa olímpico. A exceção é o hóquei sobre a grama feminino, eliminado do processo de classificação para o Pan ainda no segundo semestre de 2011, logo após os Jogos de Guadalajara. Nesta quarta-feira, 46 atletas brasileiras, dos quatro únicos clubes do País, emitiram uma carta à Confederação Brasileira de Hóquei sobre a Grama (CBHG) reclamando de sexismo e preconceito.

“A preferência pela equipe masculina é vista há muito tempo. O gênero masculino sempre foi tratado como uma equipe de verdade, e nós do feminino como um ‘bando’. Expressões sobre nossos corpos e discriminação sobre diferenças físicas entre o masculino e feminino eram sempre ouvidas, fora o julgamento de comportamento das atletas mulheres, diferente entre os gêneros, com um tom machista de uma comissão técnica onde quase toda sua totalidade são homens”, relatam as jogadoras.

“Você está no campo, está jogando, vem um cara que te trata de um jeito nojento, fazendo comentários sobre o seu corpo. ‘Sua piranha’, sabe? Sem motivo”, contou, sob a condição de anonimato, uma das líderes do time. Ela confirmou que o acusado é Cláudio Rocha, o técnico da seleção masculina, que, segundo ela, fazia comentários sexistas até mesmo nas instruções em campo, enquanto treinador da equipe feminina.

O pai dele, Sydney Rocha, comanda a CBHG desde a fundação da entidade, em 2003. Às vésperas dos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, Cláudio treinava a seleção feminina. À época, já era alvo de reclamações das jogadoras, que boicotaram a seleção por causa dele. O treinador foi substituído, mas parte das atletas manteve o boicote e não disputou o Pan. O Brasil ficou em último.

A jogadora ouvida pela reportagem reclama que “os Rochas” são responsáveis pelo preconceito e pelo sexismo contra as jogadoras. De acordo com ela, Cláudio costuma ficar à beira do campo nos campeonatos nacionais, fazendo comentários sobre o corpo das meninas. “O Claudio consegue persuadir alguns meninos mais novos, fica fazendo comentário maldoso.”

Cláudio recebe R$ 12 mil mensais, graças a um convênio entre a confederação e o Ministério do Esporte. Há dois mês, a Agência Estado mostrou que o valor recebido por Cláudio é correspondente, na tabela de referência usada pelo COB, a um técnico “classe A”, medalhista olímpico ou mundial. O treinador, porém, de acordo com seu currículo, se encaixa na “classe C”, com faixa salarial de R$ 3 mil a R$ 5 mil.

FORA DOS JOGOS DO RIO – Além de não disputar o Pan, a equipe feminina também não vai à Olimpíada do Rio. Em 2011, o Brasil precisava ficar entre os dois primeiros colocados do Pan-American Challenger. Como não conseguiu, não avançou à Pan-American Cup, em 2013, classificatória para os Jogos Pan-Americanos. A competição em Toronto, por sua vez, poderia dar vaga à seleção na Olimpíada.

A Federação Internacional de Hóquei (FIH) determinou que o Brasil só teria vaga no Rio na competição feminina se terminasse entre as sete primeiras do Pan ou se fechasse 2014 entre as 40 melhores do ranking mundial. A primeira meta não tinha como ser alcançada em razão do desempenho da equipe. A segunda também não, por falta de competições oficiais entre 2013 e 2014.

Mesmo assim, as jogadoras insistiram em participar da última divisão da Liga Mundial no ano passado. Queriam demonstrar evolução técnica para a FIH e convencer a entidade a abrir uma exceção, permitindo ao Brasil, em 41.º do ranking, disputar a Olimpíada. A CBHG, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e o Ministério do Esporte, entretanto, não disponibilizaram recursos.

“Um dia antes da CBHG enviar a notificação sobre a equipe feminina estar fora da Olimpíada no nosso País, a equipe masculina foi convocada para três meses de treinamento na Europa para a Liga Mundial, campeonato que tinha um peso determinante para a gente, e não para o masculino”, reclamam as atletas.

De fato, o Brasil não tinha mais como ficar entre os 30 primeiros do ranking masculino, um dos critérios para a vaga olímpica ser concedida. A outra é ficar entre os seis primeiros do Pan. A classificação masculina para Toronto, entretanto, só veio em novembro.

“Nosso País não nos dá recursos para evolução. Temos um (único) campo em todo o Brasil e (ele) está em obra para as Olimpíadas. Este ano não se tem uma definição sobre o Campeonato Brasileiro, fora a falta de desenvolvimento e formação de novos atletas. A quantidade de times diminui e a incerteza de uma má gestão só aumenta”, disse a carta das atletas.

No texto, as jogadoras ainda reclamam da falta de uma definição sobre o futuro da seleção, que não treina há mais de um ano. Recentemente, a CBHG lançou no Facebook anúncio procurando um novo treinador, mas não divulgou se encontrou algum profissional. As jogadoras que atuam em clubes do País foram convocadas para testes físicos, mas reclamam que as que atuam no exterior (essencialmente holandesas de dupla nacionalidade) não precisam passar pelo mesmo procedimento.

Assinam a carta 46 jogadoras dos quatro únicos clubes brasileiros: Florianópolis, Desterro (ambos de Santa Catarina), Macau (São Paulo) e Carioca (Rio). Elas garantem que não jogarão mais pelo Brasil enquanto “esse tipo de gestão continuar”.

OUTRO LADO – A CBHG emitiu nota no início da noite negando as acusações. “A Confederação rechaça com veemência a alegação de “sexismo”. Jamais houve e haverá qualquer preferência. Como é de conhecimento público, nossa torcida e nossa atenção estão voltadas para a seleção masculina de hóquei, que conquistou a classificação inédita em Jogos Pan-Americanos e está no Canadá neste momento para tentar conquistar a tão sonhada vaga olímpica”. A entidade alegou que Cláudio Rocha está em Toronto e, por isso, não poderia falar com a reportagem.