A Rede Sustentabilidade confirmou a escolha de Eloy Casagrande como candidato do partido na disputa à prefeitura de Curitiba nas eleições deste ano. O professor universitário de 61 anos, nascido no Cristo Rei, é casado, tem um filho e uma longa trajetória na área acadêmica, sendo PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente pela Universidade de Nottingham, da Inglaterra. Casagrande já conquistou diversos prêmios por suas pesquisas na área de sustentabilidade, dentre elas pelo projeto do Escritório Verde, reconhecido inclusive pela ONU. Depois de se formar pela PUC-PR, ele passou 10 anos atuando em atividades acadêmicas fora do Brasil, vivendo em diferentes países da Europa, quando retornou em 1997. Atualmente é docente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). “Sempre tive um compromisso com o país, nunca consegui me desligar”, diz.

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Segundo Casagrande, suas dezenas de pesquisas e orientações de projetos na área de sustentabilidade, grande parte voltados para a solução de problemas enfrentados pela população da capital paranaense, o gabaritam para disputar a prefeitura. “Nunca fiquei preso dentro da universidade. Isso me deu uma série de visões possíveis para a gente poder implantar um modelo de cidade que talvez seja diferenciado de tudo que vimos até agora”, afirma.

O senhor é reconhecido pela sua carreira bastante representativa na área acadêmica. De que maneira acha que essa experiência poderia ser utilizada em um cargo eletivo no poder executivo?

Não se faz nada na academia sem usar a ciência, a estatística e as bases que fundamentam qualquer projeto. Eu não vejo muita diferenciação (nas funções). Para realizar qualquer coisa eu tenho que ter a ciência, os dados e a estatística do meu lado. Aí eu fundamento os meus projetos. Colocar isso em ação vai do perfil de cada um. Eu sempre sugeri que as propostas e orientações de pesquisas que eu aceitava trouxessem uma solução que pudesse ser implantada. Algumas delas foram inclusive. Sempre trabalhei nessa linha da ação. De colocar a pesquisa em ação. Você não consegue resolver todas as coisas dentro de um laboratório. É preciso estar em contato com a vida real da sociedade. Faço muito trabalho de campo com os alunos. Vou em comunidades, levo eles para ver o problema da poluição do rio, para as áreas de preservação e é isso que dá vivência para poder resolver esses problemas.

O senhor já concorreu a uma eleição anteriormente, em 2016, como candidato a vereador de Curitiba, mas não se elegeu. Por qual razão optou por disputar o cargo para prefeito dessa vez?

Nesses quatro anos a Rede Sustentabilidade foi amadurecendo como partido também e eu continuei acompanhando essas modificações. Nesse período eu consegui ver uma evolução do partido. Isso me deixou talvez mais confiante para agora poder concorrer à prefeitura. Nós temos uma plataforma para justamente poder apresentar um discurso em um nível um pouco mais alto do que vimos até agora nos debates para prefeito. Eu quero colocar as soluções e propostas técnicas, baseadas nas inovações, na sustentabilidade, na inclusão. Quero poder elevar o nível da discussão para ver até o que os meus oponentes têm a dizer sobre isso. Temos propostas que incluem uma série de projetos que eu já vi serem implantados, por exemplo, no tempo em que eu vivi na Europa. E o Brasil está defasado em muitas áreas da administração pública. É possível fazer muita coisa. E algumas vezes não é necessário muito dinheiro. O que se precisa é criatividade para poder implantar os programas. Algumas vezes a falta de dinheiro é uma desculpa. Quando você não tem dinheiro você usa a criatividade. Como tenho um background de design eu sempre tive que achar soluções para os problemas. Então usamos principalmente a ferramenta da criação. E aí com isso vamos tentar trazer pra cidade algumas soluções que normalmente não aparecem na administração que a gente vê. A administração está muito presa a dogmas. Você vê algumas secretarias, até o próprio Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). O órgão teve um grande papel em tudo que foi desenvolvido para a cidade, mas você vê que depois de algum tempo aquilo vai estagnando. Nós precisamos mudar os paradigmas. A questão da Urbs e das soluções da mobilidade para a cidade. Talvez as mesmas pessoas que estejam ali trabalhando há anos no mesmo modelo, devam ser estimuladas a pensar numa outra direção. Talvez alguém vindo de fora e com novas ideias possa fazer isso pela cidade. Essa é a nossa proposta.

Tanto a sua carreira quanto as pautas do partido no qual é filiado são bastante focadas na questão do meio ambiente. Acha que essa imagem pode prejudicar sua candidatura, dando a impressão de que uma eventual gestão seria direcionada de forma exagerada para uma determinada área? Como pretende se desvincular dessa aparente bandeira única?

Não exatamente. A palavra sustentabilidade é mal compreendida. Porque ela sempre foi vinculada a questão ambiental. Mas nós temos que entender que ela é um tripé. Aliás, tem um quarto elemento aí importantíssimo que é a questão social, econômica, a questão da proteção ambiental e a questão cultural, que é importantíssima. Se entendermos a cultura de uma cidade, entendermos qual é o seu DNA, podemos implantar modelos, programas e projetos que possam incluir essas quatro vertentes. E principalmente agora, no período pós-pandemia, se é que a gente vai passar essa pandemia, o foco é apresentar um projeto de recuperação econômica da capital. Temos um grande número de pessoas desempregadas, um grande número de negócios que fecharam. Várias pessoas recebendo a ajuda do governo. A proposta principal agora é desenvolver trabalhos e empregos que possam alavancar essa economia com um novo modelo. Por exemplo, podemos muito investir em uma iniciativa, que eu já estudei no meu pós-doutorado em Portugal, em 2007, um projeto de economia circular aplicado numa região daquele país. Esse era o meu estudo. Como a gente pode estudar esses modelos de economia solidária, economia circular e juntar com essa visão de inovações tecnológicas mais sustentáveis? Por exemplo, se fizermos um programa em Curitiba que comece a trabalhar com o IPTU Verde, que é uma pauta que eu defendo há muito tempo. O IPTU Verde vai reduzindo impostos das pessoas que investem em suas casas em tecnologias mais sustentáveis. Uma energia solar fotovoltaica, uma coleta de água de chuva, um telhado verde. Isso vai reduzindo o impacto ambiental da cidade. Por exemplo, nos dias atuais seria fundamental que tivéssemos incentivo para implantar coleta de água de chuva nas residências, pois estamos numa estiagem grande. Quando você começa a incentivar esse tipo de tecnologia, esse tipo de ação, voltada para uma economia verde, você está gerando empregos e postos de trabalho. São mais de 50 cidades no Brasil atualmente que têm o IPTU Verde. Então ao mesmo tempo em que estamos fomentando um mercado novo e fazendo com que as pessoas possam melhorar a sua qualidade de vida na própria residência, estamos gerando mais postos de trabalho. Isso é só um exemplo. Então há várias possibilidades mais criativas para podermos resolver essa situação no período pós-pandemia. E esse é o foco que nós temos trabalhado muito. Justamente para as pessoas não acharem que estamos preocupados apenas com a questão ambiental. Não, a questão ambiental, econômica e social são vinculadas, não se separa isso. Quando eu vou levar uma moradia, uma casa de interesse social, por exemplo, eu posso desenvolver projetos modulares, mais sustentáveis, com novos materiais, usando material reciclável. Daí eu estou, por exemplo, incentivando a indústria da reciclagem. Então essas conexões que a gente pode fazer no programa podem atender todas as necessidade das cidades, sem causar impacto ambiental e trazendo ganhos sociais e ganhos econômicos.

Se fosse prefeito atualmente, o que teria feito diferente no enfrentamento à covid-19?

Bom, primeiro que nós tivemos três meses para nos prepararmos pra isso. E podíamos ter trabalhado com a lei da precaução. Não fizemos isso. Esperamos muito tempo para reagir, não só no Brasil como em Curitiba. Se nós tivéssemos agido quando dos primeiros avisos, em janeiro, tivéssemos preparado a cidade porque a pandemia iria chegar até nós, e estarmos melhor equipados para isso, não estaríamos enfrentando as mais de mil mortes em Curitiba. E depois o que nós vimos em termos de administração pública foi uma certa confusão na tomada de medidas corretas. Nós vimos lá na Itália o que aconteceu quando não fizeram o primeiro lockdown, com o problema das mortes aceleradas, da infecção acelerada e depois pagou-se muito caro por isso. Nos primeiros meses, talvez se tivesse sido feito um isolamento social mais rígido, com o pulso firme da administração, realmente impondo uma certa forma que o comércio e as atividades da cidade fossem paralisados por um tempo e dando também condições financeiras para que essas pessoas se sustentassem, talvez não tivesse esse problema de entrar em bandeiras laranja, bandeira amarela, e voltar para a bandeira laranja novamente. E também não ceder muito fácil às pressões econômicas que foram acontecendo durante a pandemia. Soltava-se um decreto, havia uma pressão de um determinado setor, mudava-se o decreto. Isso causou muita confusão na cabeça das pessoas, não sabíamos o que abria e o que fechava. Ao mesmo tempo em que estavam fechando os shoppings centers, os ônibus estavam lotados. Os ônibus circulavam com um grande número de pessoas dentro. Não conseguimos passar a mensagem corretamente. Faltou um pouco de habilidade, em fazer um trabalho mais inteligente sobre a mensagem do que é o problema da pandemia, do coronavírus. E dar condições financeiras também, talvez com alguma isenção de impostos, algum modelo que pudesse auxiliar as pessoas a se manterem. Hoje estamos pagando caro por isso. Agora está difícil de reverter esse processo. Inclusive já se passaram cinco meses e as pessoas estão desesperadas para sair de casa. Não nos preparamos adequadamente. Eu acho que valeria ter tomado essas medidas lá no começo. Não fizemos e pagamos caro por isso.

Sobrando ainda alguma capacidade de investimento pós-pandemia, onde o senhor concentrará os recursos da cidade nos próximos anos e por quê?

Os recursos devem ser investidos em um novo modelo econômico. O maior problema que iremos enfrentar agora é justamente a recuperação econômica da cidade. Então precisamos encontrar novos programas, novas formas de fomentar a economia, mas não nessa visão consumista. Não nessa visão do normal. Costumamos dizer que o normal é que era o problema. Se voltarmos para o normal iremos continuar na mesma situação. Acredito que precisamos estudar essa metodologia de economias compartilhadas, como é a economia solidária, circular, cooperativas e trabalhar em rede. Aprendemos muito com a pandemia como foi a mobilização da sociedade em ajudar os que estavam mais necessitados. Criaram-se redes de solidariedade. Temos que aproveitar isso. E fazer que com essas redes agora funcionem em prol da economia. Então de que maneira eu posso, como administrador, dar suporte para essas redes? Como eu posso fazer com que essas redes recebam incentivos, capacitação, novos negócios e ajudar de alguma forma por meio da inovação, de mais investimentos em áreas que estão com mais problemas? Vamos encontrando algumas soluções que eu acho que vão ser levadas adiante em parcerias. Essa é a palavra. Nós temos que construir parcerias e essas parcerias podem alavancar um novo modelo econômico mais social, não tão competitivo talvez, onde as pessoas trabalhem mais em colaboração do que em competição. E isso não é só um problema da questão da pandemia. Precisamos encontrar um novo modelo econômico para a cidade em si mesmo. Eu acho que esse é um caminho que a gente precisa para reverter essa lógica da economia tradicional e realmente criar outros modelos que possam trazer a inclusão. Não podemos mais continuar com essa parcela da população aí na linha de pobreza como a gente vê. Essa seria talvez a prioridade que eu daria.