Ricardo Barros não esperou a poeira baixar. Cumprimentou Lula pela virada eleitoral e anunciou que continuará vigilante, mas cooperativo. O deputado, que já foi vice-líder de Lula e líder de Bolsonaro, conhece Brasília por praticamente todas as entradas. Sua iniciativa ganha interesse especial no Paraná, onde Sergio Moro precisará construir relações com um presidente do qual foi adversário histórico.
Barros, que dificultou a candidatura de Moro pela federação União Progressista, reúne experiência e trânsito político para se tornar um interlocutor importante do futuro governo estadual.
Não recebeu essa missão, tampouco há entendimento anunciado. Mas, enquanto alguns ainda discutem o resultado, Barros já encontrou um bom motivo para voltar à mesa de negociações. E conhece o cardápio.
O PARANÁ EXPORTA E IMPORTA
O Paraná, que alcançou a liderança nacional no Ideb entre as redes estaduais, poderá exportar seu secretário da Educação, Roni Miranda, convidado para assumir a pasta no Rio Grande do Sul. Sergio Moro, por sua vez, foi buscar em Goiás a possível sucessora, Fátima Gavioli.
Nascida em Goioerê, ela tem experiência administrativa em Rondônia e Goiás, onde sua gestão também foi marcada por atritos com professores. Em 2024, provocou forte reação ao sugerir que profissionais insatisfeitos com os salários procurassem outro emprego e ao responder a questionamentos sobre o direito de acompanhar filhos em consultas médicas. Gavioli alegou que suas declarações foram distorcidas.
Seu currículo merece consideração, mas a escolha suscita uma pergunta: num estado que se tornou referência nacional em educação, não haveria alguém da própria rede preparado para dar continuidade ao trabalho? O Paraná poderá acabar exportando seu secretário e importando de Goiás uma paranaense de currículo respeitável, mas que também traz algumas controvérsias na bagagem.
O RH VIROU COMITÊ ELEITORAL
A deputada estadual eleita Jessicão, do PL, resolveu estender o segundo turno aos locais de trabalho. Sugeriu que empregadores demitissem funcionários petistas, trocassem prestadores de serviços e até reconsiderassem amizades por causa do voto. Requião Filho acionou o Ministério Público do Trabalho, que abriu investigação.
A parlamentar negou ter incentivado discriminação, mas a publicação está longe de ser apenas uma manifestação de contrariedade eleitoral. Jessicão recebeu 131.673 votos e assumirá uma cadeira na Assembleia com a responsabilidade de representar a população, não de distribuir certificados de compatibilidade partidária.
O empregador tem liberdade para contratar, mas não para transformar preferência política em critério discriminatório. Afinal, urna eleitoral e departamento de recursos humanos continuam sendo coisas diferentes.
O PRÓXIMO DA FILA
O PT paranaense escolheu uma comunicação de suspense para anunciar que pretende retomar a discussão judicial sobre a candidatura de Deltan Dallagnol. Publicou “Deltan, você é o próximo”, acompanhado de um aviso para que aguardassem novidades. O senador eleito interpretou a mensagem como ameaça aos quase três milhões de votos que recebeu. O partido explicou que se referia ao processo pendente no TSE.
A explicação esclarece o objeto da postagem, mas não torna sua redação menos provocativa. A elegibilidade de Deltan será decidida pelos ministros do tribunal, não pelos administradores das redes sociais partidárias.
Se a intenção era anunciar uma movimentação jurídica, o PT conseguiu antecipar a controvérsia política. O processo continua aguardando julgamento; a campanha, pelo visto, encontrou uma maneira de continuar no Instagram.
O ORÇAMENTO CHEGOU ANTES DE MORO
Sergio Moro ainda não recebeu as chaves do Palácio Iguaçu, mas o orçamento que executará em 2027 já está na Assembleia Legislativa. São R$ 84,6 bilhões previstos numa proposta elaborada pelo governo Ratinho Junior. Luiz Claudio Romanelli anunciou, em entendimento com Alexandre Curi, a abertura de um canal para receber sugestões da população durante a tramitação.
A iniciativa é bem-vinda, desde que as contribuições tenham alguma possibilidade efetiva de influenciar as prioridades. Moro assumirá com seu próprio programa, deputados defenderão suas bases e prefeitos procurarão recursos para os municípios.
O primeiro grande exercício de negociação do novo governador poderá começar antes da posse. Afinal, administrar dinheiro público exige mais do que promessas de campanha. E o orçamento não costuma esperar a cerimônia.
399 PARANÁS NUM MESMO MAPA
O Ipardes apresenta nesta terça-feira um retrato socioeconômico dos 399 municípios paranaenses. O estudo reúne indicadores de renda, emprego, produção agropecuária, saúde e educação, permitindo observar realidades que nem sempre aparecem nas estatísticas gerais. O Paraná dos grandes polos industriais, do agronegócio e da tecnologia convive com municípios que ainda enfrentam dificuldades estruturais para oferecer serviços e oportunidades.
O levantamento chega num momento oportuno para quem se prepara para governar. O desafio não será apenas celebrar as cidades bem posicionadas, mas compreender por que tantas outras continuam distantes delas. Nos discursos, o Paraná costuma caber inteiro numa mesma frase. Nos números, as diferenças ficam mais difíceis de esconder.
A CHUVA NÃO PEDE VOTO
Enquanto a política discute os resultados das urnas, a chuva continua cobrando providências no interior do Paraná. A ponte sobre o Rio Andirá, na PR-554, entre Doutor Camargo e São Jorge do Ivaí, foi interditada, e municípios do Centro-Sul contabilizam danos em estradas rurais, pontes e bueiros.
São Mateus do Sul registrou aproximadamente 195 milímetros de chuva durante o fim de semana. Para quem depende dessas ligações, cada interdição representa dificuldade para trabalhar, estudar, transportar a produção ou chegar a um atendimento de saúde.
As obras de recuperação não terão a visibilidade de uma campanha eleitoral, mas serão muito mais importantes para quem ficou sem passagem.
O FRANGO GANHOU O MAR
O Porto de Paranaguá respondeu por 47% das exportações marítimas brasileiras de carne de frango entre janeiro e setembro, movimentando 1,87 milhão de toneladas. Também concentrou 65,1% do crescimento nacional desses embarques. É um desempenho que começa muito antes da chegada dos navios, nas propriedades rurais, cooperativas, agroindústrias e transportadoras espalhadas pelo estado.
O resultado ajuda a explicar por que infraestrutura portuária, estradas, armazenagem e fornecimento de energia são tão importantes para a competitividade paranaense. O frango pode até sair do interior por caminhão, mas boa parte de sua viagem pelo mundo depende da eficiência de Paranaguá. E, nesse mercado, atraso não combina com produto congelado.
A VACINA VIROU O JOGO
Depois de anos de queda, o Paraná recuperou indicadores importantes de cobertura vacinal e alcançou seus melhores resultados da década. A imunização contra a poliomielite passou de 80% em 2021 para 95% neste ano, enquanto a BCG chegou a 100%. Mais de 1,2 milhão de carteiras de estudantes foram examinadas, numa ação que envolveu o governo estadual, as prefeituras e as equipes municipais de saúde.
Há um trabalho considerável por trás desses percentuais, desenvolvido em escolas, unidades de atendimento e campanhas de vacinação. É uma notícia especialmente relevante depois de tantos debates contaminados pela desinformação. Vacinas não precisam de palanque, mas dependem de profissionais, organização e confiança da população.
A CANETA DE VALDEMAR
Valdemar Costa Neto encerrou as eleições com um PL robustecido, a maior bancada da Câmara, presença expressiva no Senado e seis governadores eleitos. Desde a chegada de Jair Bolsonaro, conservou o comando da máquina partidária, embora a família frequentemente tivesse a palavra decisiva nas escolhas políticas, inclusive produzindo algumas dores de cabeça nas disputas estaduais.
Flávio perdeu a Presidência e insiste na contestação; Valdemar reconheceu o resultado proclamado pelo TSE. Não significa que pretenda contrariar os Bolsonaro, mas o presidente do PL conhece muito bem os caminhos do Planalto.
Já negociou com Lula e José Dirceu, participou da aliança de 2002 e sabe que governadores e parlamentares precisam conversar com quem administra o país. Com o tamanho que o partido alcançou, terá muito a negociar. E talvez menos gente a consultar antes de decidir.
PASSAPORTE RETIDO, POLÊMICA LIBERADA
Flávio Bolsonaro começou a semana anunciando uma ofensiva judicial contra a chapa Lula-Alckmin e recebeu, quase simultaneamente, uma ordem de Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes e permanecer no Brasil.
A decisão também proíbe contato com o advogado Willer Tomaz e integra uma investigação sobre suspeitas financeiras, sem relação processual demonstrada com a contestação eleitoral. Flávio afirmou que cumprirá a determinação, embora a considere uma tentativa de intimidação.
A coincidência dos acontecimentos alimenta inevitavelmente a disputa política, mas não dispensa a separação entre fatos e interpretações. O senador pretende recorrer à Justiça contra o resultado das urnas. Quanto à possibilidade de recorrer ao aeroporto, dependerá de outra decisão judicial.
TRUMP GOSTA DE LULA. DA URNA, NEM TANTO
Donald Trump precisou de poucas frases para voltar a criar dificuldades à diplomacia brasileira. Declarou que gosta de Lula, com quem diz manter boas relações, e logo em seguida afirmou que a eleição brasileira parecia fraudada. Não apresentou provas. Geraldo Alckmin respondeu que o presidente americano estava equivocado e lembrou que países não devem interferir nos assuntos internos uns dos outros.
Trump não vê incompatibilidade entre demonstrar simpatia pessoal pelo presidente brasileiro e lançar suspeitas sobre a eleição que o reconduziu ao cargo. São afirmações distintas, mas a facilidade com que as coloca lado a lado é reveladora de seu estilo político. A diplomacia tradicional costuma medir as palavras antes de pronunciá-las. Na Casa Branca, aparentemente, a medição pode ficar para depois.
XANGAI OUVIU O PARANÁ
Foram necessários 41 anos para que a Orquestra Sinfônica do Paraná realizasse sua primeira turnê internacional. A estreia aconteceu em Xangai, na China, com 82 músicos e duas apresentações acompanhadas por aproximadamente 2,1 mil pessoas. No repertório, obras de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Alberto Nepomuceno. A experiência levou ao público asiático parte da produção musical brasileira e deu projeção a uma instituição cultural mantida no Paraná.
Em tempos de tanta desafinação política, a notícia oferece um contraste agradável: há brasileiros capazes de trabalhar durante anos para que o resultado coletivo seja exatamente aquilo que se espera de uma orquestra. Harmonia.
COLOMBO NO RETRATO DO MUNDO
A exposição World Press Photo 2026 chega nesta terça-feira à CAIXA Cultural Curitiba com 42 projetos premiados internacionalmente. Entre eles está uma fotografia produzida em Colombo, na Região Metropolitana, por Priscila Ribeiro, sobre a falta de moradia digna e segura. A mostra reúne imagens de conflitos, desigualdades, mudanças climáticas e diferentes realidades sociais.
A presença de um trabalho realizado tão perto de Curitiba lembra que os grandes problemas do mundo nem sempre estão distantes. Às vezes, ficam na cidade vizinha. E uma boa fotografia consegue mostrar aquilo que discursos, relatórios e estatísticas frequentemente não alcançam.

