Resultado das urnas mostra que voto distrital misto pode ser boa opção no Paraná

Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo (Arquivo)

O voto distrital misto ainda está em discussão em Brasília, mas as urnas paranaenses já deram uma prévia de como alguns candidatos conseguem estabelecer territórios eleitorais próprios. Entre as sete cidades com mais de 200 mil eleitores, Paranhos conquistou 30,13% dos votos válidos para deputado federal em Cascavel e Paulo Mac Donald, 28,56% para estadual em Foz do Iguaçu. Em Londrina, Jessicão alcançou 27,74% para estadual e Marcelo Belinati, 25,05% para federal. Mabel Canto obteve 25,96% em Ponta Grossa e Thiago Buhrer, 25,36% em São José dos Pinhais. Curitiba e Maringá não registraram concentração semelhante.

Evidentemente, o distrital misto tem regras próprias, mas esses resultados mostram que, mesmo no sistema proporcional, o voto em deputado já tem endereço bastante definido.

O VOTO E O COMPROMISSO COM A REGIÃO

A concentração de votos nesses municípios reforça uma discussão que o Congresso pretende retomar ainda este ano: a adoção do voto distrital misto, combinando representantes eleitos diretamente pelas regiões com a representação proporcional dos partidos. O modelo não resolve sozinho os problemas da política, mas pode aproximar o eleitor de quem recebe seu voto. Hoje, candidatos conquistam mandatos com votações espalhadas por centenas de cidades, frequentemente impulsionados pela notoriedade nas redes sociais, enquanto municípios inteiros acabam sem uma voz identificada com suas necessidades.

É curioso que tantos deputados procurem os municípios durante a campanha, mas alguns tenham dificuldade de reencontrá-los depois da posse. A representação política deveria funcionar nos dois sentidos.

A CONTA DO VENTO

Maringá acordou na segunda-feira com árvores no chão, ruas bloqueadas, escolas atingidas e milhares de moradores sem energia. Silvio Barros decretou calamidade pública e mobilizou equipes municipais, voluntários e apoio estadual para enfrentar os prejuízos. Até o quartel dos bombeiros sofreu danos. O governador Ratinho Junior destacou o trabalho de atendimento, enquanto Sergio Moro defendeu mais investimentos em prevenção. Os dois têm razão em suas preocupações, mas o temporal também deixa uma cobrança para além da emergência. Cidades que cresceram, ampliaram suas redes elétricas e ocuparam novos espaços precisam acompanhar essas transformações com planejamento.

O vento não escolhe partido, mas a responsabilidade de preparar as cidades pertence a quem governa.

PEQUENA DEMAIS PARA O ESTRAGO

Marquinho, no Centro-Sul, tem uma estrutura administrativa muito diferente da de Maringá, mas recebeu uma tempestade igualmente preocupante. Mais de mil moradores foram afetados e pelo menos 270 residências sofreram danos. Para uma cidade desse porte, o prejuízo ultrapassa a capacidade habitual de resposta da prefeitura. É nessas ocasiões que se mede a importância de uma Defesa Civil estadual capaz de agir rapidamente e de políticas que considerem as diferenças entre os municípios. Uma solução possível para uma cidade grande pode ser completamente insuficiente para outra com poucos servidores, equipamentos e recursos.

O tamanho da população não diminui a gravidade de uma emergência.

CPI COM PASSAPORTE

A passagem de Flávio Bolsonaro pela região de Foz do Iguaçu, antes de seguir para os Estados Unidos, pode ganhar um capítulo na Assembleia Legislativa. Arilson Chiorato apresentou pedido de CPI para investigar se houve participação ou omissão de autoridades estaduais e municipais no deslocamento do senador e de seus familiares. É uma iniciativa com evidente repercussão política, mas que também exige uma distinção importante: solicitar investigação não significa comprovar irregularidade, assim como atravessar uma fronteira não demonstra, por si só, participação de agentes públicos em qualquer delito. O requerimento ainda precisa cumprir as exigências regimentais.

A fronteira costuma aparecer nas discussões sobre segurança e comércio. Desta vez, entrou no debate político nacional pelo caminho dos passaportes.

HOSPEDAGEM SEM AUDIÊNCIA

Donald Trump afirmou que Flávio Bolsonaro pode permanecer nos Estados Unidos pelo tempo que quiser, mas também deixou claro que não tem planos de encontrá-lo. A combinação é curiosa. O presidente americano oferece acolhida política, enquanto evita transformar a chegada do senador brasileiro numa audiência presidencial. Flávio, por sua vez, recorreu ao Supremo contra a decisão de Alexandre de Moraes que determinou a retenção de seus passaportes. A defesa contesta os fundamentos da medida e também questiona a imparcialidade do ministro.

O episódio envolve questões jurídicas que precisam ser examinadas com rigor, mas já produz uma situação política incomum: o candidato derrotado na eleição brasileira procura apoio internacional enquanto discute, à distância, decisões da Justiça de seu próprio país.

O ESPUMANTE E A CONTA

Carol Dartora reconheceu que despesas com bebidas alcoólicas foram incluídas indevidamente entre os reembolsos solicitados à Câmara dos Deputados durante viagem aos Estados Unidos. A parlamentar anunciou a devolução de R$ 695,83 e classificou o episódio como um erro na prestação de contas. Também considerou exagerada a repercussão diante de irregularidades de valores muito superiores. A comparação, entretanto, não resolve o problema. A regra que impede o reembolso dessas despesas não estabelece que pequenas quantias estejam liberadas. Reconhecer o equívoco e devolver o dinheiro é o procedimento correto.

O que não dá é transformar o valor reduzido numa espécie de licença para ignorar a norma. Na política, até o espumante acaba produzindo ressaca.

PASSOU DE ANO, MUDOU DE REDE

Curitiba começará em 2027 a transferir gradualmente para o Estado a oferta das turmas do sexto ao nono ano do ensino fundamental que ainda mantém na rede municipal. A mudança alcança 11 escolas e deverá ocorrer ao longo de quatro anos. A prefeitura pretende concentrar esforços na educação infantil, nos anos iniciais e no ensino integral. A reorganização pode melhorar a distribuição das responsabilidades, mas o sucesso dependerá de algo bem menos burocrático que a troca de rede. As famílias precisam saber onde os filhos estudarão, como chegarão às novas escolas e se terão as mesmas condições de atendimento.

Para a administração, muda a responsabilidade. Para o estudante, não pode mudar o direito à educação.

O PREFEITO QUE VEIO DEPOIS

Enquanto o Brasil escolhia o presidente da República, Santana do Itararé também precisava escolher um novo prefeito. A eleição suplementar, convocada depois da cassação dos mandatos eleitos em 2024, terminou com a vitória de Zé Izac, do PT, que recebeu 54,32% dos votos válidos. O resultado tem uma particularidade interessante num Paraná que deu ampla vantagem a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial. A política municipal continua obedecendo a relações próprias, construídas em torno de pessoas, famílias, serviços e compromissos locais.

É um lembrete oportuno para quem já começa a fazer as contas de 2028. Nem sempre a preferência nacional do eleitor determina sua escolha para a prefeitura.

A URNA MUDOU O MAPA

Os moradores de Chopinzinho e São João, no Sudoeste, fizeram uma escolha diferente no segundo turno. Além de votar para presidente, participaram de um plebiscito que aprovou a transferência da Comunidade do Alto Mirim de Chopinzinho para São João. O resultado foi expressivo, com 86,93% dos votos válidos favoráveis à mudança. A razão é bastante prática: a comunidade está mais próxima de São João, onde seus moradores já utilizam diversos serviços. É uma demonstração interessante de como a organização territorial deve considerar a vida cotidiana da população.

Muitas vezes, a divisão administrativa estabelece uma distância que a rotina das pessoas já resolveu. Desta vez, o eleitor teve a oportunidade de corrigir essa diferença na urna.

A OSTRA SAIU DO CARDÁPIO

A suspensão temporária da retirada de ostras em áreas de cultivo de Guaratuba começou como uma medida de proteção sanitária, mas já produz consequências econômicas para famílias que vivem da maricultura. Análises identificaram toxinas acima do limite permitido para consumo humano, obrigando a interrupção da atividade nas áreas afetadas até que novos exames autorizem a retomada. O cuidado com a saúde pública é indispensável, mas também exige atenção à sobrevivência dos pequenos produtores. É um problema que mostra como decisões técnicas podem atingir diretamente a economia de comunidades inteiras.

Para quem depende da produção diária, esperar os resultados laboratoriais significa também esperar pela possibilidade de voltar a trabalhar.

A FEIRA NÃO LEU OS INDICADORES

O agronegócio paranaense trabalha com a perspectiva de uma safra de soja superior a 22 milhões de toneladas, mas o consumidor de Londrina continua enfrentando outra realidade quando chega ao supermercado. A cesta básica alcançou R$ 734,81 em outubro, aumento de 2,53% no mês e de 15,52% desde janeiro. A produção agrícola é fundamental para a economia, mas seus bons resultados não chegam automaticamente ao orçamento doméstico. Entre a lavoura e a mesa existe uma cadeia de custos que continua pressionando os preços.

É uma contradição conhecida dos paranaenses: o Estado produz muito alimento, mas uma parcela considerável da população precisa fazer contas cada vez mais apertadas para comprá-lo.

A RÃ, O TOURO E A UNIVERSIDADE

O vestibular da Universidade Federal do Paraná estreou seu novo modelo de fase única com 34.773 candidatos presentes e abstenção de 19,76%. A prova trouxe uma curiosidade nas questões discursivas: os estudantes precisaram interpretar uma fábula de Esopo, envolvendo uma rã e um touro, e construir uma narrativa a partir de uma ilustração sobre consumo. A mudança procura avaliar competências que não dependem apenas da memorização de conteúdos. Mas o dado mais importante talvez esteja fora da sala de prova. Dos inscritos, 48% cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas.

A universidade terá pela frente o desafio permanente de ampliar oportunidades de ingresso e assegurar condições para que os aprovados consigam concluir seus cursos.

A HISTÓRIA PEGOU A ESTRADA

O Museu Paranaense abre nesta terça-feira, em Guarapuava, uma exposição dedicada ao trabalho do pesquisador e documentarista Vladimir Kozák, com destaque para registros da história e da cultura dos povos indígenas. A iniciativa faz parte do projeto Museus Satélites, que pretende levar acervos estaduais a diferentes regiões. É uma boa notícia para uma política cultural frequentemente concentrada em Curitiba. O patrimônio histórico do Paraná não pertence apenas à capital, assim como a produção cultural não se limita aos grandes centros.

Levar exposições ao interior é uma maneira de ampliar o acesso ao conhecimento e reconhecer a diversidade regional. Afinal, a história paranaense não começou nem termina dentro dos limites da capital.

VORCARO BATE À PORTA DA OEA

A defesa de Daniel Vorcaro acionou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos para questionar sua prisão preventiva e a demora na análise de um pedido de liberdade apresentado ao Supremo em setembro. Os advogados também alegam irregularidades envolvendo informações extraídas do celular apreendido pela Polícia Federal, incluindo o acesso a comunicações privadas. Essas alegações ainda dependem de avaliação pelas autoridades competentes e não demonstram, por si só, adulteração das provas. A Comissão pode examinar denúncias de violações de direitos humanos, mas não funciona como instância recursal automática das decisões brasileiras.

O caso Master, que já provocou repercussões financeiras e políticas, agora ganha uma dimensão internacional. O direito de defesa precisa ser respeitado, assim como a apuração das responsabilidades pelos fatos investigados.

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