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Curitiba

Funcionários da FAS são agredidos na Rodoviária por moradores de rua

Foto: Gerson Klaina/Arquivo/Tribuna do Paraná
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Escrito por Lucas Sarzi

“Nosso trabalho é um dos mais demonizados, porque além de sermos vistos com olhares negativos pela população, entre quem buscamos ajudar também acabamos hostilizados”, assim definiu uma servidora da Fundação de Ação Social (FAS), da prefeitura de Curitiba, que foi agredida fisicamente por um morador de rua enquanto buscava oferecer ajuda a ele. O episódio, que aconteceu no último dia de março, às 23h, afastou a mulher, mas colocou em alerta o quão importante é a missão desempenhada pela FAS e o quanto todos nós deveríamos valorizar o que é feito.

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A mulher, que tem 40 anos e há 10 atua como servidora da FAS, deve voltar a trabalhar nessa semana. À Tribuna, ela contou que agressões verbais são sempre recorrentes. “Mas dessa vez foi mais grave. Alguns deles provocam muito a gente, falam muito desaforo, mas somos obrigados a atender essas situações, temos que fazer de conta que não ouvimos. Contamos com a sorte, porque não temos outra opção”, detalhou a servidora, que pediu para não ser identificada.

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No dia 31 de março, a mulher e seu colega de trabalho, um homem já idoso, com 62 anos e que trabalha trabalha há mais de 20 anos na FAS, foram acionados para oferecer ajuda a moradores que estavam na rodoferroviária de Curitiba. “Seria mais uma abordagem de rotina, mas sabíamos que se tratavam de usuários de drogas que precisavam ir para um abrigo”, contou o homem, que também preferiu não ter o nome divulgado.

Segundo o homem, enquanto ele e a colega ofereciam ajuda para que essas pessoas recebessem atendimento correto e passassem até mesmo por uma triagem do serviço social, um rapaz chegou e, alterado, começou a xinga-los. “Começou a chamá-la de bruxa, de velha, de feia, disse que o atendimento dela não era bom. Como tinha muita gente para atendermos, talvez a gente não tivesse respondendo como ele queria, com mais agilidade”.

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Depois de insultar, o homem partiu para agressão. “Eu tentei impedir entrando no meio e infelizmente ele começou a dar chutes, socos, agrediu a gente, nos derrubou. Numa dessas tentativas de me acertar, desviei o soco e pegou na testa da minha colega, que ficou bem machucada”, detalhou o servidor. A mulher, que chegou a ser atendida, teve que sair da rodoferroviária junto com a equipe como se fossem foragidos.

“Acionamos a Guarda Municipal, porque ali na rodoviária havia um modulo da Polícia Militar (PM), então sempre tinham policiais por perto, mas foi retirado. Hoje não tem guarda e nem PM, só a vigilância privada”, completou o homem, explicando que o agressor foi preso. “Depois de todo o procedimento na delegacia, eu fui para a casa e a colega para o hospital. Ela continuou afastada do serviço, principalmente pela questão psicológica”.

Medo constante

Foto: Arquivo
Foto: Arquivo

A servidora agredida ficou, de imediato, apenas um dia afastada. Depois, ao perceber que não conseguiria trabalhar mesmo, procurou ajuda psiquiátrica e o médico a afastou por mais tempo, inclusive do contato com colegas de trabalho. À Tribuna, a mulher disse que a situação só alarmou para um problema muito maior, que é o da segurança dos servidores em si. “Se tornou uma profissão muito complicada. São seres humanos que precisam sim de atenção, de ajuda, mas tem aumentado muito a quantidade de gente que está ali para causar algazarra”.

Por ser um trabalho social, tanto a mulher quanto seu colega de trabalho defendem que a presença efetiva de uma equipe da GM, por exemplo, tiraria a leveza da ação. “Normalmente não temos um guarda com a gente, mas também não acho que teria que ter alguém junto sempre, por não haver necessidade disso. Mas num caso grande, em que existam mais pessoas no local, que sabemos que não são simplesmente moradores de rua, precisamos de proteção. Ainda não acredito que colocaram a gente nessa situação”, desabafou.

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Ao longo dos seus dez anos de experiência, a mulher percebeu a sutil diferença entre uma pessoa em situação de rua de uma pessoa que foi para a rua por causa das drogas. “Nós não podemos tratar com indiferença essas duas pessoas, mas sabemos que o morador de rua que tem necessidade, que precisa e quer ajuda, está caído na sarjeta, fica isolado. Quem sai de casa porque se envolveu com droga fica reunido em grupos, que não querem ser ajudados e costumam ser agressivos”.

A questão da agressão física é rara, conforme os funcionários entrevistados pela reportagem, poucos casos foram registrados. “Mas o alerta precisa ser feito, principalmente para que alguém faça alguma coisa por nós, porque esse mesmo rapaz que me agrediu, por exemplo, já tinha se envolvido numa situação anterior, com colegas, e tentou atear fogo no ônibus de acolhimento da FAS”.

Amor ao trabalho

Existe aquele ditado de Confúcio, que diz: “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”. Assim talvez possamos definir os dois servidores que conversaram com a Tribuna. Isso porque, mesmo tendo passado pela situação que os levou ao medo predominante, não querem desistir. “Eu voltei a trabalhar, mas fui colocado num serviço mais tranquilo até para me poupar um pouco das situações. Pensei em largar, pedir um tempo, mas preferi enfrentar”, disse o homem que estava junto com a colega no momento das agressões.

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Segundo ele, o trabalho não tem mais sido o mesmo, mas o amor pela função, sim. “Não estou conseguindo trabalhar mais como era antes, mas estamos seguindo. Palavrões, gente recusando e nos xingando, sempre aconteceu. Mas palavras não machucam, agressão física sim. A gente segue trabalhando, porque embora tudo isso, amamos o que fazemos, mas não esquecemos”.
Na avalição do servidor que já tem mais de 20 anos de FAS, mesmo sendo demonizados pela população, que muitas vezes acha que quem está na rua não precisa de atenção, essas pessoas precisam sim de um olhar. “A maioria das pessoas que está na rua precisa da gente. Na grande maioria das abordagens, a gente acaba tendo sucesso no contato. Ele aceitar ou não o atendimento é uma prorrogativa dele, mas o respeito e o contato sempre existiram. O problema são os infiltrados, que são bandidos mesmo”.

Depois do ocorrido, a mulher foi imediatamente recebida pela diretoria da FAS, disse que não tem do que reclamar sobre o atendimento que recebeu. “Me ofereram até mudar de função, sair da FAS, mas não é o que eu quero. Simplesmente porque eu amo o que eu faço. O que eu quero é que melhore não só a minha situação para trabalhar, mas também a dos meus colegas. Precisamos de segurança para trabalhar, só isso”, desabafou.

Ainda afastada, a servidora deve voltar a atuar ainda nesta semana. “Cheguei a ter crises de pânico, passava mal ao lembrar do que aconteceu e tinha a impressão de que o rapaz que me agrediu estava na sala de casa. Na próxima quarta-feira (amanhã) vence minha licença e eu acho que estou recuperada, não vai ser como antes, mas o amor pelo trabalho continua e nós precisamos seguir em frente”.

O que fazer?

Foto: Gerson Klaina/Arquivo/Tribuna do Paraná
Foto: Gerson Klaina/Arquivo/Tribuna do Paraná

À reportagem, Anderson Walter, coordenador de gestão e acompanhamento intersetorial da diretoria de população de rua, reconheceu a exposição que sofrem os servidores. “Com o passar dos anos, constatamos que a maioria das abordagens cada vez mais tem oferecido risco. Estes riscos aumentam por conta do uso e abuso de substâncias psicoativas, mas aí é que está o problema, pois se torna uma questão de segurança pública também”, explicou.

Segundo Anderson, além de usuários de drogas (líticas, como álcool, ou ilícitas), existem também pessoas que estão na rua simplesmente para se esconder de algo. “Por terem cometido pequenos delitos, por exemplo. Às vezes não querem se identificar e também não querem esse tipo de atendimento. Dentro do universo de rua existem vários perfis para atendimento, mas também existem pessoas que estão realmente fragilizadas, que precisam muito da atenção e merecem atendimento”.

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A orientação aos servidores é sempre a de que não se exponham ao risco. “Nosso trabalho tem foco na abordagem social, identificamos as pessoas que estejam em vulnerabilidade social, seja criança, adolescente, adulto ou idoso. Mas quando existe risco, esse relatório chega aos órgãos competentes como a segurança pública, por exemplo, porque aí sim faremos uma ação integrada nestes locais necessários”, explicou Anderson, detalhando que tudo tem sido registrado nos relatórios dos servidores.

O coordenador de gestão da FAS explicou ainda que é importante que, cada vez mais, a população entenda a importância do serviço social. “É um trabalho de formiguinha que precisa sim da ajuda de todos, porque não podemos promover a perpetuação dessas pessoas na rua. Temos que fazer com que essas pessoas busquem o resgate dos valores, da saúde, da reabilitação muitas vezes. Temos vários casos de sucesso de pessoas que realmente mudaram de vida a partir de uma ajuda, de um apoio, de funcionários da FAS. Se conseguirmos um a cada 10, não importa, o que importa é que tenhamos resultados positivos, porque é isso que buscamos”.

Sem deixar de fazer o que deve ser feito, a FAS vem cada vez mais buscando reformular seus métodos e busca, também, a ajuda da população. “Mas precisamos que entidades, grupos de voluntários, nos ajudem a tirar a pessoa da miséria, da rua. A população tem que estar ciente de que o ato de caridade, de doação, é importante, mas o de conscientizar e fazer um trabalho em conjunto com os setores responsáveis é mais consciente e dá muito mais resultado”.

Quem quiser ajudar com doações pode entrar em contato através do disque-solidariedade da FAS, que atende pelo 156. Já quem quiser passar ideias e até mesmo ser um voluntário pode entrar em contato pelo telefone (41) 3250-3500, falando com a assessoria comunitária, ou até mesmo pelo site da FAS, clicando no botão “quero ser voluntário”.

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Sobre o autor

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Lucas Sarzi

Jornalista formado pelo UniBrasil.

(41) 9683-9504