Um mordomo do Kremlin que dedicou a sua vida a servir líderes da extinta União Soviética teria conseguido documentar uma história muito interessante dos bastidores do poder. Embora a KGB ( o serviço secreto russo), diga que seria impossível que tal figura tenha existido pelo simples fato de que no regime socialista todos eram iguais e ninguém tinha o privilégio de ser servido, vou contá-la mesmo assim.

Até porque a CIA, a agência de espionagem americana, jura de pés juntos que este misterioso homem não só existiu como se tratava de um agente duplo a serviço do Tio Sam, plantado lá na cozinha dos russos para fazer desandar a maionese. Vá saber!

Pois bem, reza a lenda que este mordomo era muito chegado a um certo mandatário russo. Quando caiu em desgraça e foi destituído, o dirigente teria confiado ao mordomo uma missão secreta: entregou a ele dois envelopes lacrados e o fez jurar pela foice e o martelo que eles chegariam ao seu sucessor.

Uma das cartas deveria ser aberta por primeiro, mas o detalhe intrigante é que tais documentos só poderiam ser lidos em situações de crise.

Fiel, o mordomo mirou a Praça Vermelha e como conhecia gente importante da “Nomenklatura” do PC, logo conseguiu uma audiência como novo poderoso de plantão do Kremlin. Quando viu os envelopes e ouviu a explicação, o dirigente franziu as sobrancelhas grossas, que mais pareciam duas taturanas e, meio relutante apanhou as cartas e guardou no cofre do gabinete.
Quando veio a primeira crise por falta de alimentos, devido ao esforço quase de guerra para equiparar o arsenal russo ao dos americanos, o homem quase teve um treco.

E agora? Matuta daqui e dali, até que lembrou das ditas cartas. Trancou-se no gabinete, pegou a primeira delas e abriu cuidadosamente. O conteúdo é uma folha branca, contendo uma única frase, com os seguintes dizeres: – Coloque toda a culpa em mim!

Por que não, pensou! Convocou a imprensa oficial e largou verbo, culpou o antecessor, citou que a herança maldita impedia o desenvolvimento, sem esquecer-se de valorizar as “vitórias” na política externa. Foi um “cala-boca” nos críticos.
O tempo passou e novos problemas surgiram no horizonte. Junto com a carestia, as repúblicas bálticas se assanhavam com a ideia de independência e a invasão do Afeganistão ameaçava ir para as cucuias.

Entre um gole e outro de vodca, veio a decisão elementar: abrir a segunda e última carta. De novo, havia uma folha branca com apenas uma frase escrita: – Sente-se e escreva duas cartas!

Cego de raiva por ter caído na armadilha do rival, o dirigente não percebeu as lições que poderia tirar deste incrível tapa de luvas. Ungido no posto, estava ocupado demais reescrevendo a história com o seu nome em letras garrafais e se apropriando de projetos do antecessor.

Não percebeu que ao culpar o antigo mandatário fez uma declaração pública da própria incompetência. Quem se candidata a assumir um posto público ou é “coroado” no poder, como foi o caso, deve pelo menos ter uma ideia do quadro e no mínimo um rascunho do que fazer para sanar os problemas.

Mas a realidade quando contemplada das janelas do poder misteriosamente assume outros contornos. É como se o ar que emana dos corredores dos palácios fosse alucinógeno, provocando distorção da realidade e criando um reino da fantasia.
No caso desta lenda soviética, tudo indica que a vodca teve lá a sua cota de participação