Um mal mundial. O tabagismo é a principal causa de morte evitável em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo responsável por um total de 10 mil mortes por dia. O tabaco traz problemas de saúde não só para quem traga sua fumaça, como também para os fumantes passivos e para as pessoas envolvidas com o seu plantio. A OMS vem trabalhando para enfrentar esse sério problema de saúde pública e, em 1997, criou o Dia Mundial sem Tabaco, que será celebrado amanhã. A data é o momento em que os 191 países membros da organização abordam um mesmo tema relacionado ao fumo com o objetivo de fortalecer a informação junto à população. Neste ano, o tema escolhido é “Tabagismo e Pobreza: Um Ciclo Vicioso”. O Brasil será a sede da solenidade comemorativa.

 

O País foi escolhido pela OMS como sede das atividades dessa data em reconhecimento ao seu trabalho no controle do tabagismo. Além da solenidade, que vai contar com a presença de representantes da OMS e do Ministério da Saúde, será realizado o II Fórum de Mobilização da Sociedade Civil. “Durante o fórum, organizações não-governamentais vão discutir ações para traçar novas propostas que envolvam a sociedade no controle do tabagismo no Brasil”, ressalta Valéria Cunha, técnica do Programa Nacional de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Como ocorre todo ano, após selecionar o tema do Dia Mundial sem Tabaco, a OMS orienta os países membros sobre como o assunto deve ser trabalhado e adaptado de acordo com a realidade de cada país. Uma das principais propostas relacionadas ao tema de 2004 é esclarecer a população que, ao contrário do que a indústria do tabaco diz, o tabagismo não gera tantas riquezas para um país. “A indústria do tabaco divulga que o tabagismo traz dinheiro e empregos. Na verdade, isso é uma grande ilusão; as perdas provocadas pelo consumo de cigarro são muito maiores do que os lucros gerados”, alerta Valéria.

A técnica explica que o tabagismo está relacionado com mais de 50 tipos de doenças, como câncer de boca, pulmão, faringe e infarto. “Cerca de 90% das pessoas que morrem vítimas de câncer de pulmão são fumantes e outros 3% são fumantes parciais”, observa. Existem ainda doenças em que o tabaco não é considerado a causa principal, mas influencia muito no seu desenvolvimento.

Valéria assinala que o tabagismo gera uma perda mundial de 200 bilhões de dólares por ano. A metade dela ocorre nos países em desenvolvimento. “Esse valor, calculado pelo Banco Mundial, é resultado da soma de vários fatores, como o tratamento de doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade reprodutiva, maior índice de aposentadoria precoce, menor rendimento produtivo e outros”, afirma.

Hoje, 80% dos cerca de 1,2 bilhão de fumantes em todo o mundo vivem em países em desenvolvimento e dos 100 mil jovens que começam a fumar a cada dia, 80% são de países pobres. No Brasil, um terço da população adulta fuma, sendo 11,2 milhões mulheres e 16,7 milhões homens. O alto índice de pessoas que fumam no País também está relacionado ao preço do cigarro, considerado o sexto mais barato do mundo. “O baixo custo do cigarro facilita a experimentação e o consumo entre jovens e adolescentes”, enfatiza Valéria. (Ministério da Saúde)

Indústria tem público-alvo

A maior expectativa de vida das pessoas desperta o interesse da indústria do tabaco, que busca lucrar com os longos anos de dependência química delas. Nesse sentido, as mulheres, jovens e adolescentes são hoje o público-alvo dessa indústria. A constatação encontra-se em documentos secretos da indústria do tabaco disponíveis à comunidade científica após processo judicial nos Estados Unidos. Nesses documentos, crianças e jovens são descritos como “reservas de reabastecimento”. Ou seja, um dos principais alvos estratégicos, devendo se tornar dependentes do cigarro ainda cedo.

O tabaco é a segunda droga mais consumida entre os jovens, no mundo e no Brasil, e isso se deve às facilidades e estímulos para obtenção do produto, entre eles o baixo custo. A isso se somam a promoção e publicidade, que associam o tabaco às imagens de beleza, sucesso, liberdade, poder, inteligência e outros atributos desejados especialmente pelos jovens. A divulgação dessas idéias ao longo dos anos associou o hábito de fumar a um comportamento socialmente aceitável e até positivo. Prova disso é que 90% dos fumantes dão os primeiros tragos antes dos 19 anos de idade. “É nessa fase que, por causa da curiosidade, eles começam a experimentar o cigarro”, comenta Valéria Cunha, técnica do Programa Nacional de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “O problema é que quando chegam na fase adulta já estão dependentes e sentem muita dificuldade para parar de fumar”, acrescenta.

Já em relação às mulheres, o interesse da indústria do tabaco se deve ao fato de elas viverem mais tempo do que os homens no mundo todo. “As mulheres são mais sensíveis às propagandas de cigarro”, observa a técnica. A participação cada vez maior da mulher no mercado de trabalho é considerada uma das principais razões para o aumento do número de fumantes do sexo feminino. (Ministério da Saúde)

Vício começa na juventude

Em todo mundo, segundo dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (Inca), existem cerca de 1,1 bilhão de fumantes. Anualmente 4 milhões de pessoas morrem em decorrência do cigarro.

Segundo o médico oncologista do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, Gyl Ramos, as pessoas geralmente começam a fumar na adolescência, período em que existe a necessidade de auto-afirmação. “Muitas vezes, começam por brincadeira. Passam a fumar um cigarro por dia e, quando percebem, já estão fumando muito mais. Se acostumam com a quantidade e os efeitos da nicotina e depois de um tempo já estão viciados.”

De médio a longo prazos, o tabaco pode levar à irritação pulmonar, infarto, dificuldades de locomoção e diversos tipos de câncer, como de laringe, faringe, boca, pulmão, esôfago, mama, bexiga, entre outros.

Parar de fumar não é considerada uma tarefa fácil, mas totalmente possível. A primeira medida deve partir da família, que precisa apoiar o fumante, mostrando o mal que o cigarro causa e nunca incentivando o vício. Já a pessoa que fuma deve ter vontade de parar e iniciativa de procurar um profissional médico.

Exemplo

O dentista Alcides de Almeida, que vive na cidade de Irati, sentiu na pele as conseqüências do cigarro. Atualmente com 47 anos, ele começou a fumar com 14 anos de idade. Há quatro anos e meio, descobriu que tinha câncer de corda vocal em função do fumo. Imediatamente, foi obrigado a largar o vício. “Tive que passar por uma cirurgia e perdi uma de minhas cordas vocais. Hoje estou bem, mas foi horrível receber a notícia de que estava com câncer. Penso que eu deveria ter parado de fumar muito antes de ficar doente”, diz.

Depois que largou o tabaco e se recuperou da cirurgia que enfrentou, Alcides começou a sentir uma série de benefícios. “Meu olfato melhorou de forma extraordinária. Além disso, respiro melhor, não tenho pigarro e tenho mais fôlego para enfrentar minhas atividades cotidianas”, finaliza.