Pais devem estar dispostos a
fazer também a sua parte no
tratamento do filho.

Em Portugal, ao abastecer o automóvel numa bomba de gasolina, o consumidor é surpreendido por uma mensagem de alerta contra a obesidade em outdoor, folhetos ou no circuito interno de televisão. É uma campanha patrocinada por iniciativas público-privada que alerta para a obesidade infantil e de apelo aos pais para que incentivem seus filhos a fazer exercícios físicos. Na Inglaterra, fabricantes de doces e chocolates não estão fazendo mais comerciais dirigidos a crianças com menos de 12 anos de idade, revendo suas estratégias de marketing diante da crescente preocupação com a obesidade infantil.

Nos Estados Unidos, um dos países com o pior índice de obesidade infantil, a preocupação é tanta que, em alguns estados, até o videogame Dance Dance Revolution vem se tornando um importante aliado, já que o jogo ajuda a evitar ganho de peso. No Brasil, a obesidade infantil é um tema preocupante também, que mobiliza diversos segmentos da sociedade, como pais, professores, médicos, representantes do governo, publicitários, indústrias alimentícias, entidades de defesa do consumidor, entre outros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 30 anos, a proporção de crianças e adolescentes do sexo masculino acima do peso subiu de 3,9% para 18%. Entre as meninas, o salto foi de 7,5% para 15,4%.

Características genéticas

Além de envolver vários agentes sociais, a discussão sobre as causas da obesidade sugere muitas possibilidades. Nem sempre a causa da obesidade infantil é a falta de prática de esportes ou o consumo exagerado de alimentos muito calóricos. A razão do descontrole na balança das crianças está muito além da gula. Para a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional, Citen, a principal causa do problema são os próprios pais, embora dificilmente eles se dêem conta disso. ?Características genéticas e hereditárias, como padrões de metabolismos e gasto de energia passam de geração para geração e interferem no acúmulo de gordura no corpo?, diz a médica.

De acordo com a especialista, a herança genética tem papel menos importante quando comparada com o estilo de vida dos pais, o que é fortemente assimilado pelos filhos. No caso da obesidade, como em outras diversas situações que envolvem a criação dos filhos, o exemplo conta muito. Assim, se os pais são sedentários, dificilmente conseguirão exigir que as crianças façam exercício. Se os pais se alimentam mal, é pouquíssimo provável que consigam disseminar bons hábitos alimentares nos pequenos.

Aliando fatores genéticos e comportamentais, a medicina chega, hoje, a duas probabilidades preocupantes: ter o pai ou a mãe acima do peso significa até 50% de risco de o filho ficar gordo; e, se o pai e a mãe forem obesos, a chance é de até 90%. A endocrinologista explica que as doenças do metabolismo ou doenças hormonais são causas raras de obesidade na infância. ?O que vemos na maior parte dos casos é uma associação da redução do gasto calórico causada pelo sedentarismo com erros alimentares, propiciando uma maior ingestão de calorias?, constata Ellen Paiva.

Alimentação prazerosa

A melhor época para se adquirir bons hábitos alimentares é logo após a retirada do leite materno. Nessa fase da vida, a criança tem os primeiros contatos com a alimenção corriqueira. Ela aprende e cultiva o vínculo com o alimento saudável, passando a consumi-lo de maneira prazerosa. Passada essa fase, quando a criança começar a fazer suas opções alimentares, ainda caberá aos pais a organização das refeições diárias, evitando forçar a criança a consumir o que ela não gosta e oferecendo a ela opções de preparo e versatilidade que facilitem a aceitação do cardápio. ?Nada melhor do que ter fome na hora das refeições, para que o alimento seja consumido de maneira fácil e divertida, evitando-se os beliscos entre os intervalos?, recomenda a endocrinologista.

Por entrar muito profundamente no seio da família, o tratamento da criança e do adolescente obeso requer o suporte de uma equipe multiprofissional. São muitos aspectos físicos, psicológicos e comportamentais que precisam ser alterados, em todos os membros da família, para que a criança consiga emagrecer, preservando a saúde e mantendo o ritmo de crescimento.

Inimigo em casa

Além de transferir gens aos filhos, os pais transferem também o seu próprio estilo de vida. As crianças observam atentamente e repetem as ações dos pais. Muitas se negam a absorver um comportamento diferente do que o que foi ensinado pela família. Não há como fazê-los mais ativos, se os pais são sedentários. Não há como obrigá-los a tomar café da manhã, se os familiares saem em jejum para trabalhar. “Não há como fazer com que eles comam menos guloseimas, se os próprios pais abusam do chocolate”, diz Ellen Paiva.

Assim como não é da criança a obrigação de fazer as compras do supermercado. Ela come o que os pais compram. São os pais os responsáveis pelo cardápio da família e é tarefa deles oferecer opções saborosas e saudáveis de alimentos às crianças. Quando não há organização por parte dos pais, as crianças ficam à mercê da propaganda de alimentos, comem guloseimas e beliscam fora de hora. “Dessa forma, é claro que não vão comer direito nos horários das refeições”, observa a nutricionista Amanda Epifânio.
A especialista comenta que, quando se investiga o preparo dos alimentos nas residências das crianças obesas, as causas da obesidade infantil tornam-se mais claras. Em muitos casos, os erros não estão na forma de preparo dos alimentos, mas na escolha deles. Na maioria das vezes, segundo a nutricionista, a família consome alimentos industrializados em excesso. São “sopões”, macarrão instantâneo, lanches monótonos e pouco nutritivos.

A principal alegação dos pais é de que não têm tempo para cozinhar ou não sabem preparar uma refeição. Dizem ainda que a criança não gosta de verduras e legumes e que prefere o hambúrguer. “Certamente, esta criança não foi habituada, ainda bebê, a apreciar o sabor suave dos alimentos saudáveis e os acha muito sem graça, sem sabor”, reconhece Ellen Paiva.