Um evento pra ficar com a boca aberta. Quem foi à Arena da Baixada na noite de sábado e lá ficou até a madrugada de domingo viu um espetáculo que supera o esporte e vira realmente um show, uma festa que prende o público por mais de dez horas. O UFC 198, o maior da história no Brasil, o terceiro maior do mundo em todos os tempos (atrás apenas de dois eventos em estádios de futebol da Austrália), foi uma “pós-graduação” para quem cuida do futebol entender o que é entretenimento.

Hoje existe muita discussão sobre a “elitização” do futebol. Há inclusive aqueles grupos que bradam “não ao futebol moderno”, que acham que arenas não têm alma, que o jogador tem que jogar de chuteira preta, que não tem que ter essa história de espetáculo, porque o futebol tá dentro da nossa cultura e tem que ser como era há trinta ou quarenta anos. Só que muitos destes ficam babando ao ver a estrutura da Champions League, que é a referência para o que se faz no esporte pelo mundo – é só ver como a própria Copa do Mundo se adaptou a situações implantadas primeiro na liga europeia.

O UFC deu um passo à frente. O que vemos apenas em megaeventos do futebol (ou na Olimpíada, ou na Fórmula 1) é repetido constantemente em uma parte do mundo – nos próximos dois meses serão sete eventos, entre eles o esperado UFC 200 com a volta de Jon Jones. E seja onde for, na Austrália, em Londres, em Las Vegas ou na Arena, a estrutura está toda lá. Quando o acerto com o Atlético foi fechado, o projeto de adaptação de um estádio em uma arena de MMA foi enviado com uma recomendação expressa: “executem”.

Aí a Baixada se transformou no palco maior da “capital mundial das artes marciais”, como disse o curitibano Maurício Shogun após a vitória sobre Corey Anderson. Um telão gigante, como dos ginásios da NBA, permitia visão ampla até para quem estava nas cadeiras superiores. E havia ainda mais quatro telões, posicionados como o placar eletrônico do estádio – ninguém perdeu um golpe sequer.

A estrutura de entretenimento era tanta que fez com que muitos torcedores deixassem de ver algumas lutas do card preliminar.Havia sessão de autógrafos com outros lutadores (como José Aldo), fotos com os cinturões, possibilidade de colocar uma bandagem nos punhos igual à dos atletas, painéis com os campeões disponíveis para mais fotos, lanchonetes, carrinhos de comida (tinha até açaí), lojas oficiais… Era um sem-número de atrações.

Sem contar o fato de que foram quatro dias de agitação em Curitiba. Na quarta os treinos abertos, na quinta o chamado “media day”, com entrevistas com doze lutadores, na sexta a pesagem (com 15 mil torcedores, o maior público da história do UFC) e sábado as lutas, que tiveram público superior a 45 mil pessoas, encantando a organização do evento e também os lutadores. “A energia de vocês é espetacular”, falou o grande vencedor da noite, Stipe Miocic, que foi muito vaiado antes de nocautear o brasileiro Fabrício Werdum – e aí sim ser aplaudido.

E um dos segredos do UFC é justamente tratar quem acompanha os eventos com um termo que é abominado no futebol – fã. Atletas, promotores e assessores definem quem vai às lutas ou quem acompanha pela televisão como fã do MMA. E qual é a diferença? Na visão de quem vive o marketing esportivo, o torcedor ama o clube, e torce; o fã acompanha os ídolos, e compra.

Movimenta muito dinheiro. O resultado é um espetáculo gigante – que quem viveu de perto garante que o UFC é mais estruturado,mais bem feito e até mais lucrativo que a Copa do Mundo.