Sobrepeso em 70% da população e disponibilidade de calorias elevada. Características parecidas com a dos países desenvolvidos. Em uma primeira impressão, o senso comum pode induzir a uma conclusão equivocada, de que a posição nutricional do Brasil, em comparação com outras nações, é excelente.

"Se olharmos para os países da América Latina, a posição do Brasil é apenas relativamente boa", afirma a engenheira de alimentos Maria de Fátima Archanjo Sampaio. Sob orientação do professor João Luiz Cardoso, da Faculdade de Engenheira Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pesquisadora acaba de defender uma tese sobre o assunto.

Em cinco anos de trabalho, Maria de Fátima analisou um conjunto de 16 produtos, em termos de disponibilidade de calorias e de produção em 23 países latino-americanos. Para a pesquisadora, a América Latina deve ser tratada como um sistema único e que, por isso, é inviável abordar os problemas dos integrantes dessa região de forma separada. "A classificação de relativamente boa se justifica, em primeiro lugar, porque a disponibilidade de proteínas de origem animal, por exemplo, poderia ter níveis mais equiparáveis aos do Uruguai ou de países mais avançados, como o Japão", explica. No caso brasileiro, lembra Maria de Fátima, não apenas a oferta de proteína animal, que no Brasil está acima dos 30 gramas por habitantes como recomenda os órgãos internacionais, deve ser analisada.

"Para que as proteínas possam exercer plenamente suas funções bioquímicas no organismo, é necessário haver um proporção relativa suficiente entre os vários nutrientes disponíveis. Caso contrário, a própria proteína passará a suprimir energia, em vez de oferecer", afirma. Com os dados obtidos na América Latina, a pesquisadora da Unicamp não tem dúvida em afirmar: "Essa proporção no Brasil, e na maior parte dos países latino-americanos, ainda deixa a desejar."

O estado nutricional do brasileiro que, por exemplo, não costuma comer peixe, apesar do longo litoral também não pode ser tão positivo, na visão de Maria de Fátima, por um outro motivo conhecido há tempos. "Os dados utilizados no trabalho não permitem apontar para as diferenças que sabemos existir dentro de cada um dos países estudados."

Como o roteiro do estudo também apontava para a redação de um capítulo exclusivo sobre as políticas agroalimentares de cada nação enfocada, muitas informações relevantes sobre o tema foram obtidas. "O Brasil priorizou a chamada agricultura competitiva, em detrimento de uma responsável por alimentar a população", conta.