Adotar o sobrenome do marido ao se casar no civil já não é unanimidade entre as mulheres e, cada vez mais, elas optam em permanecer com os nomes completos de solteira. Ao entregar a documentação no cartório, na habilitação para o casamento civil, a mulher é questionada sobre o nome completo que passará a assinar com a oficialização da união. Este é o momento em que ela deve anunciar a sua decisão. O casal deve conversar bastante sobre o assunto, antes de ir ao cartório, para que não haja dúvidas ou fiquem ressentimentos sobre a atitude da esposa.

Segundo Ricardo Leão, diretor de Registro Civil da Associação dos Notários e Registradores do Estado do Paraná (Anoreg-PR), a maior parte das mulheres ainda opta por adotar o sobrenome do marido no casamento civil. “Mas um grande número de mulheres resolve permanecer com o mesmo nome, sem alterações. Muitas delas fazem esta escolha pela praticidade”, destaca. Isso porque cada órgão público tem um cadastro diferente e, com isto, a mulher é obrigada a refazer todos os documentos para que apareça o nome de casada.

Para realizar as alterações, ela precisa ir em cada órgão, pagar as taxas e ainda esperar tudo ficar pronto. “Hoje, pela falta de tempo, a opção é pela praticidade. A mulher teria que ir ao Instituto de Identificação (RG), Ministério do Trabalho (carteira de trabalho), Detran ( carteira de motorista), Polícia Federal (passaporte) e Tribunal Regional Eleitoral (título de eleitor), entre outros órgãos, fora os cadastros do comércio”, afirma Leão.

De acordo com o diretor da Anoreg-PR, a mulher tinha a opção de adotar ou não o sobrenome do marido desde o Código Civil de 1916, mas a sociedade “pedia” para que a esposa passasse a adotar um novo sobrenome, incluindo o do marido. Com a edição do Código Civil de 2002, as mulheres começaram a considerar de maneira mais intensa a possibilidade de não mudar o nome. O código ainda trouxe a novidade do fato de o marido poder acrescentar o sobrenome da mulher. “Isto realmente é uma exceção. Mas já estamos percebendo algumas inversões, como o fato de muitos pais estarem colocando no registro dos filhos o sobrenome da mulher por último, invertendo a ordem que é mais tradicional”, relata Leão.

Mudança cultural

A psicóloga Giovana Beatriz Kalva Medina, que atua na área de terapia de família e é professora do curso de Psicologia da FAE Centro Universitário, acredita que ainda há uma cultura com moldes tradicionais, na qual a mulher precisaria herdar o sobrenome do marido. “Se esta mulher não tiver autonomia, se ela mantiver os padrões tradicionais, aí sim ela tende a se sentir ‘mulher de alguém’. As mulheres têm participado cada vez mais e não têm muita preocupação em colocar o sobrenome do marido, até porque muitos casais estão indo morar antes da oficialização do casamento. O nome se torna apenas um detalhe”, opina.

De acordo com a psicóloga, marido e esposa precisam seguir como indivíduos diferenciados dentro do relacionamento. “Os dois precisam existir. Se a mulher for lembrada sempre em referência ao homem, ela não está existindo nesta relação”, indica. Ela cita como exemplo deste desequilíbrio dentro da relação o fato de algumas mulheres deixam os seus sonhos para cuidar apenas do marido e dos filhos. Giovana lembra que o contrário, quando o homem abre mão de tudo, também pode acontecer nas relações.

Sem perder a individualidade

A publicitária Caroline Carvalho Mazete está casada há quase um mês e decidiu permanecer com o nome completo de solteira. Ela conta que já morava há dois anos com o agora marido. Quando os dois decidiram oficializar a união, o tema sobrenome surgiu naturalme,nte. “Todo mundo ficava comentando sobre isto. Quando tocamos seriamente no assunto, disse que não gostaria de acrescentar o sobrenome dele. Meu marido não gostou muito no início, mas entendeu”, comenta.

Quando os dois chegaram ao cartório para concluir todo o trâmite do casamento civil, Caroline foi questionada sobre o que gostaria de fazer e reafirmou a sua posição. “Ele ainda me olhou um pouco diferente, mas depois passou”, revela. Caroline decidiu não adotar o sobrenome do marido para manter a individualidade e para não ter que trocar todos os documentos. “Pensei bastante na praticidade”, explica.

Por sua vez, a analista de sistemas Roberta Furlan, que mantém o blog Minha Vida de Casada (www.minha vidadecasada.com), resolveu colocar o sobrenome do marido quando os dois oficializaram a união no casamento civil, há um ano. “Inicialmente, não pensava em adotar o sobrenome dele, mas depois resolvi fazer isto. Inclusive, conversei sobre isto antes com o meu pai, que achou que era melhor acrescentar porque eu estava assumindo um casamento. Na hora de levar a documentação, achei que deveria fazer”, salienta.

Para ela, a adoção do nome ou o próprio casamento não significou uma perda de identidade, como ao ser referida como a esposa de alguém. “Não me senti desta maneira, até porque sempre me senti segura no relacionamento”, ressalta. Caroline também disse que não sentiu diferença. “Para mim, não afetou em nada. Não perdi a personalidade por causa disto”, avalia.

No caso de Roberta, o que mais fez diferença foi a mudança do papel de “apenas filha” para a de esposa, ao sair da casa dos pais. “Foi muito difícil. Sou a caçula e tinha a sensação de que estava abandonando meus pais. Também sentia muita falta. Tinha que me controlar para não ir todo dia na casa dos meus pais. Até hoje eu ligo, pelo menos uma vez ao dia, e quando chego na minha casa. Fui trabalhando isto com o tempo e colocando na cabeça de que eles estavam bem, de que eu não tinha abandonado”, relata a analista de sistemas, que saiu direto da casa dos pais para a vida de casada.