Em um Natal do fim dos anos 1940, o garoto Dirceu Krüger ganhou uma bola do senhor Acácio – seu pai. “Naquele tempo era assim: presente de menino era bola, presente de menina era boneca”, recorda. E como ninguém joga bola sozinho, ele convidou os amigos e foram para um campo que tinha na Barreirinha, perto da igreja e da casa da família. “Era o campo do Escandelário, que tinha este nome por causa do dono do campo. Dos sete aos dez anos, cresci jogando bola naquele campo”, diz.

Assim começou a relação de um dos maiores ídolos do Coritiba com a bola, e com o próprio clube. O seu pai era Coxa e palmeirense. “Eu era Coxa por causa de meu pai e porque na Barrerinha, naquela época, quase 80 por cento das pessoas torciam para o Coritiba”, recorda. Torcer naquele tempo era uma coisa tranquila. “Eu me lembro que meu pai ia ver os jogos com amigos que eram do Atlético e todo mundo ia junto. Via o jogo junto e voltava junto. Era uma rivalidade saudável, sem violência”, afirma.

Dirceu estudava na escola da Barreirinha e depois foi para o Colégio São José, no Abranches. Com 10 anos, foi para o seminário São José, onde ficou até perto de fazer 15 anos. Quando saiu, passou a jogar no Combate Barreirinha. “O Combate naquele tempo era um time amador, mas não disputava competições. Tinha jogos todas as semanas, nas cidades vizinhas ou no bairro, mas tudo amistoso. Sempre ia o quadro principal, acompanhado do segundo quadro, que fazia a preliminar. Eu comecei a jogar no segundo quadro”, lembra.

No Combate, seu nome era Dirceu. Mudou para Krüger quando foi para o União Ahú, com 15 para 16 anos. Como tinha um veterano no time que já se chamava Dirceu, o técnico mudou o nome do novato para Krüger. Em 1962, o presidente do clube, Olavo Barvick, promoveu uma partida amistosa do quadro principal contra um time profissional. O convidado foi o Palestra Itália. Este tipo de confronto não era comum e o jogo num domingo no campo do União, atrás do Estribo Ahú, atraiu gente dos bairros vizinhos, como a Barreirinha e o Bacacheri.

Obra do acaso

Krüger, então com 16 anos, estava no meio da multidão para ver a partida. O jogo estava para começar, quando o serviço de alto-falante do estádio anunciou: “Krüger, apareça no vestiário do União. É urgente.” Quem ouviu o chamado foram os amigos do jogador. “Kruger, estão chamando você no vestiário”. Ele ficou em dúvida, mas o chamado se repetiu. Foi conferir e soube que o ponta esquerda titular ficou doente e ele devia entrar no jogo. Entrou, jogou, “deu o seu melhor” e despertou o interesse do técnico Juvenal Roppel, encarregado de montar o elenco do Britânia para a temporada de 1963.

Como Krüger tinha apenas 16 anos, o treinador conversou com o senhor Acácio, para que ele autorizasse o jovem a fazer teste no Britânia. Fez, passou e foi contratado. “O contrato foi assinado em abril, quando eu fiz 17 anos”, recorda Krüger. “A minha estreia como jogador profissional aconteceu no dia 19 de maio de 1961, contra o Seleto, em Paranaguá. Nós jogamos bem, mas perdemos por 1 x 0. O primeiro gol como profissional eu marquei num jogo contra o Água Verde”, recorda. A edição número 1.961 da Tribuna do Paraná, do dia 20 de maio de 1963, traz a matéria: “Seleto penou para superar o Britânia”. Foi a primeira vez que o nome de Krüger saiu nos jornais como jogador profissional. O time entrou em campo com Batista; Laxixa, Albino e Antero; Cizico e Natalin; Juquinha, Muca, Benê Tarzan e Krüger.

No jogo seguinte, diante do Água Verde, no estádio Orestes Thá, Krüger marcou o primeiro gol como profissional, aos 38 minutos do primeiro tempo, quando o Britânia já perdia por 2 x 0. A partida termi,nou 3 x 1 para o Água Verde, que liderava a competição. A partida aconteceu no dia 25 de maio. A Tribuna diz em sua edição de 27 de maio: “No Britânia, Batista fez boas defesas, mas pecando no tento final. Os demais, com destaques apenas para Muca e Krüger, os que mais realizaram no ataque”. Hoje, Krüger recorda, ainda impressionado, da sucessão de acontecimentos inesperados em tão pouco tempo: “Foi tudo extraordinário. A partida no campo do Ahú, a minha presença no jogo que não estava programada e depois ser chamado pelo técnico do Britânia. Daí veio a a estreia no profissional. Tudo passou muito depressa.”

Krüger jogou três anos com a jaqueta alvirrubra do Britânia. “Eu me destaquei, por que sempre marquei gols nos jogos do Britânia contra o Trio de Ferro – Atlético, Coritiba e Ferroviário. Em 1964, fiz seis gols contra os três”, lembra. Foi assim que ele chamou a atenção do time do Alto da Glória e recebeu o convite para deixar o Britânia. O Coritiba pagou 20 milhões de cruzeiros pelos passes de Krüger e do lateral Antero. Foi um dos melhores investimentos da história do clube.