Nunca houve um começo de temporada tão conturbado em nosso futebol quanto o de 1968, quando o presidente da Federação Paranaense de Futebol, José Milani, pressionado pelo novo presidente do Atlético, Jofre Cabral, descobriu um problema no estádio do Paranavaí, que ia subir para a divisão especial. Milani o excluiu do campeonato que ia começar no dia 17 de fevereiro e achou que tudo estava certo. Ele brandiu um laudo da Comissão de Vistoria da FPF, que no dia 4 de janeiro constatou que o estádio Natal Francisco não tinha capacidade para abrigar mais que 3.900 torcedores. Além disso, Renato Requião, diretor do Atlético e advogado, descobriu irregularidade num jogador do Paranavaí, Orlando Augusto, o Orlandinho, que era do Cambé e teria jogado a temporada anterior de forma irregular.

Candidamente Milani argumentou: “Como não tem acesso, também não tem descenso. Por isso o Atlético não pode ser rebaixado”. Ele pensou que ia ser fácil. Mas arrumou uma baita de uma encrenca. Os clubes do Norte se juntaram e anunciaram que não iam disputar a competição. Reunidos em Maringá, representantes de Grêmio, Jandaia, São Paulo de Londrina, Apucarana, União Bandeirante e Paranavaí disseram que não aceitavam a exclusão do Paranavaí e também não aceitavam a inclusão do Atlético. Causou estranheza a ausência na reunião de Carlos Antônio Franchello, presidente do Londrina. Não se sabe por que ele não foi. Mas no dia seguinte ele afinou o coro com os demais clubes nortistas. “Tomamos a decisão de lutar em defesa do Paranavaí e não vamos arredar pé, aconteça o que acontecer”, disse ele.

Franchello ainda botou mais lenha na fogueira ao provocar: “Há tempos que o Sul procura a separação do Norte. Nós já lutamos sozinhos e tivemos êxito. Os clubes da capital querem ficar com toda a arrecadação dos jogos realizados em Curitiba. Se verificam boas rendas na capital graças ao poderio dos clubes do Norte, que arrastam multidões para os estádios. Os clubes do Sul não são atração aqui no Norte”. O incidente abria velhas feridas e José Milani não sabia o que fazer. A guerra estava declarada e repercutiu na Assembleia Legislativa, que repudiou a solução encontrada pela FPF para não deixar o Atlético na segunda divisão. Em Paranavaí o clima era belicoso com passeatas e enterros simbólicos do presidente da federação e faixas que em que sobravam para todo mundo: “Milani gato”, “Zaidan ladrão”, “Abaixo os cartolas e coveiros do futebol paranaense”. Sobrou até para dois jogadores: “Orlandinho e Viraci, maconheiros e traidores”.

Milani foi ao Norte tentar apagar o incêndio e quase voltou queimado. Os dirigentes nortistas não respeitavam mais o presidente da entidade estadual. Eles foram direto ao Rio de Janeiro falar com o presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange. Quando viu o bicho ficar mais feio que estava, Milani começou a procurar soluções. E naquela altura a única fórmula era agradar gregos e troianos. Ou seja, nortistas e sulistas. A primeira solução apresentada foi elevar o número de participantes para 13 clubes. Era um número ímpar. Hipólito Arzua sugeriu aumentar o número para 14 participantes. Mas não havia clube e nem motivo para completar o número par. Nada disso sossegava os dirigentes do Norte.

Teve um dia em que o racha foi definido quando todos os clubes do Norte se retiraram de uma reunião do arbitral na sede da FPF, no edifício Garcez. No dia seguinte, Milani jogou mais um balde de água fria. E a paz voltou a reinar até a próxima escaramuça. Se tinha alguém tranquilo enquanto o circo pegava fogo, era justamente o presidente do Atlético, Jofre Cabral, que num incidente acintoso rasgou diante do presidente da FPF e das câmeras de televisão o estatuto da entidade para deixar claro que os interesses de seu clube estavam acima de qualquer coisa.

Antes que a guerra tomasse rumo,s ainda mais danosos, a FPF conseguiu agradar Atlético e Paranavaí, elevando o número de participantes. E o resumo da guerra da secessão foi que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.