O lateral-direito Ary Marques nunca vai esquecer o dia de sua estreia no Colorado: foi numa quarta-feira à noite, de garoa lascada, no dia 17 de agosto de 1975. Era última partida do Campeonato Paranaense daquele ano. Ele entrou para segurar o ponta direita Wilton, do Coritiba, que veio do Fluminense e tinha fama de ser infernal. ‘Foi uma partida especial, por que era a decisão do campeo-nato. Nós precisavámos ganhar e o Coritiba jogava por um empate. O goleiro Jairo pegou tudo naquela noite. O nosso time foi bem, mas não conseguiu o objetivo que era a vitória. O Coritiba foi campeão’, diz Ary Marques, hoje um senhor de cabelos brancos, mas ainda na ativa dentro do futebol, atuando como técnico.

Começava naquela noite do inverno curitibano a mais longeva carreira de um jogador vestindo a camisa do Colorado. Ary Marques jogou praticamente toda a sua vida no time de Vila Capanema, com duas exceções: quando foi emprestado ao CSA, de Alagoas, e o Marcílio Dias, de Santa Catarina. ‘Fiquei no Colorado por quase 15 anos. O senhor Barcímio Sicupira – o pai do Sicupira – era quem cuidava das súmulas do time de Vila Capanema, e era uma pessoa de quem eu gostava muito. Um dia ele me disse: Ary, você é o jogador que mais vestiu a camisa do Colorado. Foram mais de 500 jogos’, diz Ary. O número exato, no entanto, ele não sabe.

Ary Marques se despediu do Colorado no último jogo oficial do clube, antes da fusão com o Pinheiros, e que resultou no Paraná Clube. Foi em 8 de julho de 1989. Era um sábado de muito frio em Curitiba e o Boca-Negra empatou por 3 x 3 contra o Coritiba, diante de 2.184 torcedores, na Vila Capanema. A situação do clube era tão precária naqueles dias, que jogadores tinham dificuldades extremas para receber o salário e o lateral direito Ary Marques alternava as funções de jogador e técnico. Quando o Colorado foi extinto, o lateral-direito também encerrou sua carreira de jogador de futebol.

Coração da Vila

Arquivo pessoal
Ary Marques, em ação pelo Colorado: clube viveu seu auge entre 1978 e 1980.

Quando começou a jogar no time profissional do Colorado, o técnico era o argentino Armando Renganeschi, que Ary Marques considera o melhor técnico que teve e o que mais influenciou em sua carreira. ‘O Renganeschi chegou para mim e disse que seria melhor eu jogar de lateral, porque eu não tinha estatura adequada para ser um zagueiro. Eu tinha 1,70m. Na direita, minha carreira deslanchou’, recorda, definindo seu estilo: ‘Eu sempre fui mais marcador. Não subia muito para apoiar, mas talvez pelo fato de ter morado cinco anos na Vila Capanema, e ter me identificado com o clube, a torcida passou a me chamar de Coração da Vila. Em quase todos os jogos tinha aquela faixa que era colocada pela torcida na arquibancada – ‘Ari, o Coração da Vila’ -, por que eu praticamente nasci na Vila. Para o futebol, nasci lá’, diz.

Ary Marques considera que os seus melhores anos na Vila Capanema foram entre 1978 a 1980. ‘Eu decidi três títulos contra o Coritiba. Nos três, fomos vice. O curioso é que quase sempre empatávamos, só uma vez que o Coxa ganhou: em 1979. Isto mostra como estas decisões eram muito equilibradas e muito disputadas’, avalia. Em 1980, finalmente o Colorado chegou na ponta de um campeonato estadual. Mas foi um título dividido com o Cascavel. Naquele ano de 1980, o auge do Colorado aconteceu no Campeonato Brasileiro. ‘O Colorado fez partidas e campanhas memoráveis. Isso, até 1982. Mas daí em diante, o time começou a oscilar e tudo terminou em 1989”, afirma, sem esconder a tristeza.

Lenda Viva 1

Em 1984, o Colorado montou o Sele-Boca e tirou Ary Marques dos planos. Foi quando o jogador foi emprestado pela 1.ª vez.

Lenda Viva 2

Ary Marques garante que o primeiro gol do Fantástico, marcado no futebol paranaense, é dele. Foi em 1983, num 3 x 0 contra o Botafogo.