Quem vai ao supermercado percebeu: o arroz ficou mais caro. A alta do cereal no mês de agosto chegou a 55% no Paraná, na comparação com janeiro e fevereiro, o segundo maior reajuste no Brasil. O aumento doeu no bolso e também no estômago das famílias, já que o arroz é alimento base do almoço e do jantar. Nos supermercados de Curitiba, ele pode ser encontrado a um preço médio de R$ 4,22 o quilo.

De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o aumento acelerou por causa uma série de fatores, que vão desde a elevação do câmbio, a diminuição das importações e o crescimento da demanda do alimento entre as famílias brasileiras. Como a alta abalou a todos, o presidente da Abras, João Sanzovo Neto, chegou a afirmar quarta-feira (9) que faria uma campanha para que a população trocasse o arroz pelo macarrão. “Vamos estar promovendo o consumo de massa”, revelou Sanzovo Neto.

Arroz e macarrão podem ser a base de refeições porque são carboidratos. Se financeiramente o macarrão está valendo mais a pena, a pergunta que fica é: e em termos nutricionais, vale a troca? Para a coordenadora do curso de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a nutricionista Flávia Auler, os dois alimentos são muito similares. A diferença está em dois pontos: na combinação nutricional perfeita entre arroz e feijão e na maneira como o brasileiro costuma preparar o macarrão.

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“O hábito alimentar do brasileiro que combina arroz e feijão é perfeita, é como se fosse uma carne. Os dois criam uma complementaridade proteica. E quando se come macarrão, ele é combinado com um molho. É esse molho o vilão da história”, esclarece a nutricionista.

O molho do macarrão é normalmente preparado com combinação do molho de tomate, carne moída ou ultraprocessados, como bacon, calabresa, salsicha. Há também opções com bastante gordura, perigosas para a saúde e nada nutritivas. “A pessoa que prepara a massa acha que o macarrão puro não tem graça, então coloca molho branco, creme de leite, requeijão, queijo”, explica Flávia, e aí está o perigo. Se for sem molho, aposte na massa ao alho e óleo.

Arroz e feijão é a combinação perfeita, de acordo com a nutricionista. Então macarrão e feijão também poderia ser? A união que muitos acreditam ser um verdadeiro ‘crime’, mas que é até um prato italiano, o minestrone, uma sopa que mistura macarrão, feijão e legumes, a combinação pode até ser nutritiva, embora não tenha o mesmo potencial do tradicional do arroz com feijão.

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“A mistura de macarrão e feijão não chega a ter um alto valor biológico proteico como o arroz e o feijão. Isso porque o trigo e a leguminosa possuem aminoácidos repetitivos e não se complementam”, explica a nutricionista. Nesse caso, quando se trata de se alimentar bem, o melhor mesmo é combinar macarrão com vegetais e proteína.

Dá para comer todo o dia

Embora seja visto como vilão das dietas, é possível sim apostar em macarrão como base das refeições diárias. Os italianos, que se alimentam de massa todos os dias, que o digam!

“Uma boa combinação é fazer a massa com verduras refogadas ou com um molho caseiro bem simples de tomate e cebola, com bastante ervas. São opções que facilitam na cozinha e não adicionam muitas calorias”, sugere a nutricionista. Vegetais refogados ou até mesmo milho e ervilha também são boas sugestões.

Quando for comer macarrão, aposte em proteínas, que vão ajudar a deixar você mais saciado. O arroz, por outro lado, tem o poder de saciar muito mais fácil. “A gente consegue comer mais fácil um prato cheio de macarrão que um prato cheio de arroz”, lembra a provessora da PUC. Se for comer a massa pura, preste atenção para não extrapolar na porção.

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De acordo com a nutricionista, comer carboidrato todos os dias sem proteína pode causar a perda de massa muscular. “As pessoas estão sedentárias na quarentena. Por isso, é importante comer muita proteína, principalmente os idosos. Tem que complementar com proteína animal, essa é a nossa preocupação maior”, alerta.

Vá de macarrão, mas não o instantâneo

Foto: Jonathan Campos / arquivo Gazeta do Povo.

Embora seja bem mais em conta e mais fácil de ser preparado, o macarrão instantâneo – o popular Miojo – não deve ser levado como opção de almoço ou jantar. E não adianta preparar sem o pacotinho de tempero, achando que vai deixar o macarrão mais saudável. “A massa cozinha fácil porque é pré-frita e passa por uma secadora. É rico em gordura trans”, revela a nutricionista. 

Entre tantas opções no mercado, de macarrão seco, instantâneo, com ovos, sem ovos, farinha integral, sem glúten, massa fresca, aposte nos menos processados e também avalie o que cabe no seu bolso. “Os de massa fresca são mais saudáveis, mas costumam ser mais caros. Um simples macarrão seco também pode uma excelente opção, tudo depende de como será preparado”, conta.

Há também a possibilidade que vai além da massa e do cereal. Como o propósito é colocar carboidrato no prato, a família pode substituir o arroz pela batata inglesa, mandioca, batata doce, mandioquinha (batata salsa). São propostas saudáveis, se preparadas cozidas.e que também cabem no bolso.