Existem lugares em Curitiba em que a trajetória se confunde com a própria memória da cidade. O Restaurante Imperial, que completa 60 anos nesta segunda-feira (28), é um desses casos raros de resistência e afeto no Centro da capital. Inaugurado em 1966 pelos imigrantes Victoriano Touron Souto (espanhol) e Manuel Rosa Henriques (português), o local nasceu como um modesto boteco de 50 metros quadrados na Rua José Loureiro e se transformou em um dos restaurantes mais antigos do Paraná.
Por ser um restaurante tradicional focado em cortes nobres de carne, a fachada muitas vezes parece discreta, mas o cotidiano do salão revela o oposto: fartura e execução técnica que caminham juntos. Hoje instalado no número 111 da mesma rua, no segundo andar do prédio que abrigou a antiga redação do Diário do Paraná, o Imperial recebe cerca de 500 clientes por dia entre almoço e jantar.
“O Imperial vive e respira o centro de Curitiba. Sentimos que ele já não é simplesmente um comércio: faz parte da memória de muitas pessoas. Procuramos cuidar do restaurante como se fosse um patrimônio da cidade, porque entendemos que nossa responsabilidade vai além de sermos seus proprietários”, afirma Sergio Chueh, que comanda a gestão e a cozinha da casa.

Modernização sem perda de essência
A história moderna do restaurante começou em 1997, quando o fundador Victoriano vendeu a casa aos irmãos Sergio e Marcos Chueh, filhos de um antigo cliente do estabelecimento. Em 2014, Marcos deixou a sociedade e Sergio, que é nutricionista, passou a responder pela gestão ao lado da esposa, Leticia.
“Quando assumimos, o Imperial já tinha mais de 30 anos de tradição. Muitos clientes antigos ficaram receosos, com medo de que aquela história se perdesse. Aos poucos, mostramos que era possível modernizar o que fosse necessário e, ao mesmo tempo, preservar a essência que havia trazido o restaurante até ali. Estamos à frente da casa há quase 30 anos, praticamente metade de sua história, e temos muito respeito por tudo o que recebemos e construímos”, conta Chueh.
A transição passou por provas de fogo. O ano de 2020 trouxe desafios com a pandemia, a perda do garçom Ramiro Gil Sobrado, o “Espanhol”, que trabalhou 45 anos na casa, e a necessidade de mudar para o endereço atual, a poucos metros do imóvel original.
“A pandemia foi, sem dúvida, a maior prova que enfrentamos. Perdemos o Ramiro, passamos por todas as dificuldades daquele período e ainda tivemos que mudar de endereço. Foi uma decisão arriscada e um momento de muita incerteza, mas conseguimos iniciar um novo capítulo sem perder aquilo que sempre procuramos preservar”, relembra o empresário.
Foi da porta da cozinha para dentro, contudo, que ocorreu uma das maiores revoluções operacionais. O chef implementou novos padrões, equipamentos de ponta e controle de estoque para suportar um volume expressivo: a cozinha processa mensalmente mais de 1,2 tonelada de filé mignon.
Mignon de comer com colher e premiações
A carne é a grande estrela da casa. O famoso Filé Mignon à Parmegiana tornou-se um fenômeno em Curitiba. O prato combina um filé levemente batido e servido no ponto desejado, empanado crocante com um toque sutil de pastinha aromática de manjericão, molho de tomate denso e queijo gratinado. A maciez do corte atingiu um patamar no qual a faca é opcional: o filé é cortado pelos garçons com apenas uma colher de servir. Em sábados de grande movimento, cerca de 300 parmegianas saem da cozinha apenas no almoço.



Essa dedicação constante rendeu consagração no Prêmio Bom Gourmet. O Imperial conquistou em 2025 e 2026 o reconhecimento de Melhor Parmegiana da Cidade, além dos prêmios de Melhor Restaurante para Levar um Turista em 2026 e Melhor Restaurante para Ir no Centro de Curitiba (2024, 2025, 2026).
Ao lado da parmegiana, o cardápio preserva pratos afetivos como a feijoada de sábado, a costela das sextas-feiras e o Mignon à Imperial — receita criada originalmente por Farid Chueh, pai de Sergio, para os almoços de domingo da família, preparada com a carne grelhada na manteiga acompanhada de aspargos peruanos frescos, cogumelos, brócolis e palmito. À noite, o restaurante resgatou a vocação boêmia de suas origens, servindo de porções de frutos do mar ao Pão com Bolinho feito com 200g de mignon moído.

Olhar atento ao futuro
Atravessar seis décadas no Centro da cidade mantendo o salão lotado por diferentes gerações é uma marca histórica. Para a direção da casa, o reconhecimento vem do cuidado diário com o trivial.
“Chegar aos 60 anos em uma cidade que viu tantos restaurantes tradicionais fecharem ou se transformarem significa muito. Traz, principalmente, gratidão. É resultado do trabalho diário, da união da equipe e do carinho dos clientes que continuam escolhendo o Imperial. O básico precisa ser cuidado todos os dias: comida bem feita, bons ingredientes, atendimento cordial e um ambiente onde as pessoas se sintam bem. E é preciso entregar aquilo que se promete”, destaca Sergio Chueh.
Projetando o futuro, Sergio busca deixar um legado para Curitiba. “Amamos o que fazemos e queremos continuar cuidando do Imperial da melhor maneira possível. E, se um dia ele estiver em outras mãos, esperamos que quem vier depois de nós tenha o mesmo carinho e respeito por essa história. O maior legado que podemos deixar é o de uma tradição que soube permanecer viva”.
Serviço
Restaurante Imperial
Rua José Loureiro, 111, sobreloja, Centro
Almoço: segunda-feira a sábado, das 11h às 16h30 (cozinha até às 15h30)
Jantar: terça a sexta-feira, das 18h às 23h (cozinha até às 22h30)
Reservas: (41) 3222-1323
Instagram: @restauranteimperial1966
