A cada nova campanha de vacinação, o cenário se repete: enquanto unidades de saúde organizam a distribuição de doses para proteger a população, as redes sociais são tomadas por conteúdos enganosos sobre supostos perigos das vacinas. No Paraná, a adesão à campanha contra a gripe permanece aquém da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde.

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Desde 28 de março, quando começou a mobilização, o estado aplicou mais de 1,2 milhão de doses. Porém, a cobertura vacinal nos grupos prioritários ainda está longe dos 90% esperados, principalmente entre crianças, idosos e gestantes.

Com a chegada do inverno e o aumento na circulação de vírus respiratórios, a Secretaria de Estado da Saúde reforça a necessidade da imunização para prevenir casos graves e diminuir internações. A vacina contra a gripe permanece disponível gratuitamente nas unidades de saúde dos 399 municípios paranaenses.

Importância da vacinação contra a gripe

Segundo o médico do Laboratório Frischmann Aisengart, Jaime Kulak, a vacinação representa uma das principais estratégias de proteção coletiva nesta época do ano. A gripe pode evoluir para quadros graves, principalmente em idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas. A vacina reduz o risco de complicações, internações e também ajuda a diminuir a circulação do vírus na comunidade.

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Os conteúdos mudam de formato, mas seguem a mesma lógica: misturam termos científicos reais, interpretações erradas e frases alarmistas. O resultado é dúvida justamente quando a prevenção mais importa. Conteúdos falsos costumam ser curtos, emocionais e fáceis de compartilhar. Já a ciência exige contexto, nuance e tempo de explicação. Por isso, em saúde pública, combater desinformação virou parte da estratégia de prevenção, explica dra. Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista do Delboni, em São Paulo, e coordenadora em vacinas da Dasa.

Especialistas esclarecem cinco boatos frequentes sobre vacinas e explicam por que não têm fundamento científico.

Foto: Rodrigo Nunes / Ministério da Saúde

Mito 1: Vacina da gripe causa gripe

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Este é provavelmente o boato mais repetido a cada temporada de vacinação. A explicação científica, porém, é clara: as vacinas contra gripe aplicadas no Brasil utilizam vírus inativados ou apenas fragmentos virais, incapazes de provocar a doença. O que algumas pessoas experimentam após a dose são reações esperadas da resposta imunológica, como dor no braço, cansaço leve ou febre baixa por período curto.

No Brasil, a campanha pública utiliza principalmente a vacina trivalente, que protege contra três cepas do vírus e é destinada aos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como idosos, crianças, gestantes, puérperas, profissionais de saúde e pessoas com comorbidades. Na rede privada, também há a vacina influenza de dose elevada (influenza high-dose), indicada para pessoas 60+, que eleva a resposta vacinal nesse grupo etário.

A vacina não provoca gripe porque não contém vírus capaz de se replicar. Muitas vezes, a pessoa já estava incubando outro vírus respiratório ou interpreta uma reação leve como doença, o que gera confusão frequente nesta época do ano, afirma a coordenadora de vacinas.

Mito 2: Vacina contém substâncias tóxicas

Outro boato recorrente envolve nomes químicos utilizados fora de contexto. Um dos mais mencionados é o timerosal, conservante presente em algumas apresentações multidoses para impedir contaminação por fungos e bactérias após a abertura do frasco. Conforme a Anvisa, o componente é empregado dentro de limites considerados seguros e avaliados por órgãos regulatórios.

É comum usar nomes complexos para causar alarme, mas toda substância presente nas vacinas tem função específica, quantidade controlada e avaliação rigorosa. Segurança se mede por evidência científica, não por mensagens virais em redes sociais, diz Guenael Freire, infectologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, em Minas Gerais.

Mito 3: Vacinas chegam rápido demais ao mercado

A ideia de que vacinas são liberadas sem testes comprobatórios relacionados à eficácia e segurança também aparece com frequência. Na prática, o caminho é extenso: pesquisa inicial, estudos clínicos, análise regulatória, inspeção industrial, controle de qualidade e monitoramento contínuo após o início do uso.

Mesmo depois de aprovadas, as vacinas seguem acompanhadas por sistemas de farmacovigilância que investigam eventos adversos reportados. Poucos produtos de saúde passam por tantas etapas de validação quanto as vacinas. Além dos estudos clínicos, existe controle de fabricação e monitoramento permanente após o uso em larga escala, explica Rosana Richtmann, infectologista do Exame, no Distrito Federal.

Mito 4: Quem tomou no ano passado não precisa tomar novamente

No caso da gripe, essa lógica não se aplica. O vírus sofre mudanças frequentes e, por isso, a composição da vacina é revisada todos os anos para acompanhar as variantes com maior probabilidade de circular em cada temporada.

Para a campanha de 2026, a vacina foi atualizada para ampliar a proteção contra as versões mais recentes em circulação, entre elas, o H3N2. Essa revisão anual funciona como um ajuste para manter a imunização mais alinhada ao cenário epidemiológico. O H3N2 é uma variante que costuma preocupar mais por estar associada a quadros respiratórios mais intensos, principalmente em idosos e pessoas com a saúde mais fragilizada.

Neste ano, o avanço desse vírus já acendeu alerta no país. Dados do boletim InfoGripe indicaram 187 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave entre 4 de janeiro e 28 de março relacionadas a casos confirmados desse grupo viral, além de crescimento recente nos registros.

Os sintomas costumam incluir febre alta, dor no corpo, cansaço intenso, tosse e dor de garganta. Em pacientes vulneráveis, porém, a evolução pode ser mais rápida, com risco de pneumonia, falta de ar e internação.

A dose anual não é repetição desnecessária. Ela acompanha a mudança do vírus e atualiza a proteção da população diante das cepas que realmente estão circulando naquele momento, afirma Alberto Chebabo, infectologista do Alta Diagnósticos no Rio de Janeiro.

Mito 5: Gripe é doença simples e dispensa vacina

Tratar a gripe como algo banal representa um erro comum. Embora muitos casos sejam leves, a doença pode provocar febre alta, dores no corpo, tosse intensa, exaustão e complicações como pneumonia, piora de doenças cardíacas e respiratórias, além de internações. Os grupos de maior risco incluem idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e imunossuprimidos.

Quando se banaliza a gripe, ignora-se seu potencial de gravidade. Todos os anos vemos internações e descompensação de doenças pré-existentes que poderiam ser reduzidas com vacinação adequada, ressalta Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista do Delboni e coordenadora em vacinas da Dasa.

Além da prevenção, o diagnóstico laboratorial tem papel fundamental na condução adequada dos casos. A confirmação da influenza por meio de testes laboratoriais permite diferenciar a gripe de outras infecções respiratórias com sintomas semelhantes e possibilita a indicação mais assertiva de antivirais, especialmente nos pacientes de maior risco. Esse direcionamento reduz complicações, evita uso desnecessário de antibióticos e contribui para melhores desfechos clínicos, destaca Annelise Correa Wengerkievicz Lopes, patologista clínica e diretora médica do Laboratório Santa Luzia de Florianópolis.

A recomendação é consultar fontes oficiais, como Anvisa, Ministério da Saúde e sociedades médicas reconhecidas. Em tempos de excesso de conteúdo, checar a procedência da informação pode ser tão importante quanto lembrar da próxima dose. Vacinar-se é uma escolha que protege o indivíduo e reduz a circulação do vírus na comunidade. “Quanto maior a cobertura, menor o impacto da doença nos serviços de saúde e nos grupos vulneráveis”, conclui Rosana Richtmann, infectologista do Exame.