Condenado por latrocínio, foragido da Justiça até março deste ano e investigado por participação em ao menos nove homicídios em apenas cinco meses, Bruno Felipe Rodrigues dos Santos, 26 anos, é apontado como possível executor de uma série de crimes em Ponta Grossa, nos Campos Gerais.
A sequência de mortes, com características de execução e ligação direta com o tráfico de drogas, levanta uma questão: trata-se de um assassino em série ou de um operador típico do crime organizado? Para investigadores e especialistas, o caso aponta mais para a segunda hipótese.
Bruno foi condenado por um latrocínio cometido em 2018 e deveria cumprir pena de 21 anos de prisão. No entanto, segundo o delegado da Polícia Civil do Paraná (PCPR) Wesley Vinicius, estava foragido após não retornar ao sistema prisional.
A prisão mais recente ocorreu em março de 2026, após um acidente de moto na BR-277, em Balsa Nova. Sem portar documentos, ele tentou se identificar com nome falso, mas acabou reconhecido pelos agentes. Com ele, foi encontrada uma pistola calibre 9 milímetros municiada, além de outras munições. Também foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo, falsidade ideológica e por dirigir sem habilitação.
Suspeito filmava mortes para confirmar a ação
As investigações que ligam Bruno a uma série de homicídios começaram ainda em 2023, em meio à disputa entre facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, por território e pontos de tráfico de drogas em Ponta Grossa. Ao longo de 2025, mesmo após operações policiais que resultaram na prisão de integrantes desses grupos, novos crimes passaram a ocorrer com padrão semelhante, o que levou os investigadores a identificar um possível novo executor.
Segundo o delegado, Bruno teria assumido esse papel dentro da organização criminosa. “As investigações apontam que ele atuava como executor, responsável por realizar homicídios a mando do chefe do Comando Vermelho, de dentro da cadeia”, afirma. Em alguns casos, de acordo com a polícia, ele chegava diretamente ao local e efetuava os disparos contra as vítimas.
Ainda conforme o delegado, os crimes seguiam um modo de agir semelhante. Em alguns casos, ele filmava a ação para confirmar a execução.
Testemunhas eliminadas
Entre os crimes sob investigação estão o assassinato de Luiz Natan de Paula Lepeke, em outubro de 2025, e a morte de Silmara Aparecida Carneiro Galvão, em 4 de novembro do mesmo ano, em um contexto de disputa por pontos de tráfico.
Também estão na lista o homicídio de Natali de Souza Figueiredo e a tentativa de homicídio de Rafael Dias da Silveira, ocorridos em 14 de dezembro de 2025, além da morte de Saint Clair de Lima Junior, em 21 de janeiro de 2026.
Um dos episódios mais emblemáticos é o duplo homicídio de Elisangela Gonçalves de Oliveira e de sua filha, Natalha Gonçalves Ribeiro, ocorrido em novembro de 2025. Segundo a investigação, a jovem não tinha qualquer envolvimento com o crime e teria sido morta para eliminar testemunhas, o que evidencia o grau de violência associado à dinâmica dessas execuções.
As apurações também revelaram o uso de adolescentes nas ações criminosas. Um menor apreendido no fim de 2025 confessou participação em diversos homicídios e teria ligação direta com o grupo. Esse tipo de prática, segundo a polícia, é comum em organizações criminosas, que se aproveitam da menor idade e da maior vulnerabilidade desses jovens.
Fim de ano em Balneário Camboriú
“No fim de 2025, junto com o setor de Inteligência da Polícia Militar, rastreamos todos os paradeiros possíveis do suspeito. Levantamos a informação de que ele teria passado o final de ano em Balneário Camboriú. Realizamos novas buscas, mas sem êxito”, afirma o delegado.
Além da pena já imposta pelo latrocínio, Bruno poderá responder por uma série de novos crimes, incluindo homicídios qualificados, organização criminosa, tráfico de drogas e corrupção de menores.
“Ele não está sendo investigado em um único inquérito, será julgado em cada um deles. A somatória dessas penas pode ser altíssima”, comenta o delegado.
A lógica do crime organizado
Apesar da quantidade de mortes atribuídas ao suspeito, especialistas apontam que o caso não se encaixa no conceito clássico de serial killer (assassino em série).
“Não se pode tratar como algo ‘normal’, mas também não é um fenômeno isolado. A juventude segue no centro da violência letal brasileira”, afirma o advogado criminalista Gabriel Rubich, pós-graduando em Direito e Processo Penal pela Escola Paranaense de Direito (Epadi) e membro da Comissão da Advocacia Criminal da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná.
Segundo ele, diferentemente de assassinos em série tradicionais, que costumam agir motivados por impulsos individuais e padrões psicológicos específicos, casos como este estão inseridos em uma lógica funcional do crime organizado.
“Em muitos contextos, jovens acabam sendo utilizados como mão de obra para organizações criminosas”, explica.
Dados do Atlas da Violência 2025 ajudam a contextualizar o fenômeno. Quase metade das vítimas de homicídio no Brasil está na faixa entre 15 e 29 anos, o que revela como a juventude aparece tanto como principal vítima quanto, em muitos casos, como parte ativa da engrenagem da violência.
O ingresso precoce nesse tipo de dinâmica, segundo o especialista, costuma estar ligado a fatores como evasão escolar, falta de oportunidades, desestruturação familiar e presença de facções em determinados territórios.
“Para a organização criminosa, jovens são mão de obra disponível, mais propensa ao risco e facilmente substituível”, diz.
Outro elemento recorrente é a rapidez com que esses jovens podem ascender dentro da estrutura criminosa.
“Quem demonstra lealdade e disposição para assumir riscos pode subir rapidamente de função”, afirma Rubich, ressaltando que essa aparente ascensão quase sempre vem acompanhada de alto risco de morte ou prisão.
Para além da trajetória individual, o caso é visto como reflexo de um problema mais amplo.
“Quando o mesmo padrão se repete em determinadas localidades e faixas etárias, estamos diante de um problema estrutural”, conclui.



