“Falam que a rebelião é por briga entre rivais, mas falam isso pra esconder o verdadeiro motivo que é o tratamento que os presos e que a gente recebe”, assim desabafou Flavia*, de 36 anos, esposa de um dos presos que está na Casa de Custódia de Curitiba (CCC), na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Os presos da galeria A da penitenciária estão rebelados desde às 18h de domingo (1º) e fazem três agentes penitenciários reféns ainda nesta segunda-feira (2).

Segundo os relatos dos familiares, que acompanham a situação do lado de fora, o estopim que levou à rebelião – que já dura mais de 22 horas – foi uma revolta dos presos. Eles se irritaram pela forma com que os parentes são tratados e também com a questão de alguns detentos que foram transferidos para outras unidades em que existem presos de facções rivais.

Flávia contou que a forma com que as famílias são tratadas é, na maioria das vezes, desumana. “Tratam as mulheres e até idosas como se fossem lixos. Isso sem contar a comida, que muitas vezes a pessoa gasta o que não pode e eles acabam não deixando entrar simplesmente porque não querem que o preso coma ovo naquele dia, por exemplo”, disse a esposa do rapaz de 20 anos que cumpre pena por disparo de arma de fogo a esmo.

Jessica*, de 41, esposa de um homem que cumpre pena por homicídio, desabafou que falta informação também por parte do sistema prisional. “Eles mandam seguirmos o que está na internet, no site do Depen, mas aí quando chega na hora da visita, mudam a regra por conta própria”.

"Meu marido fez errado, mas está pagando. A gente não pode abandonar a família da gente". Foto: Tribuna do Paraná.
“Meu marido fez errado, mas está pagando. A gente não pode abandonar a família da gente”. Foto: Tribuna do Paraná.

A mulher, que acompanha o marido já há três anos na prisão, disse que já viu muita humilhação e que se sente mal pela situação em si. “As pessoas falam que eu não deveria vir visitar meu marido, mas o que eu vou fazer, vou abandonar ele no momento difícil? Ele fez errado, mas está pagando e o que nós podemos fazer é apoiar para que cumpra certinho”, comentou.

Os familiares disseram que são perseguidos e que nunca viram nenhuma mulher discutindo com os agentes, simplesmente porque todas sentem medo de represálias. “Se a gente responde algo e eles acham que estamos os atacando, já cortam nossa carteirinha e nos proíbem das visitas. Acha mesmo que alguém vai querer afrontar eles, que são autoridades ali dentro?”.

Márcia passou três meses sem poder visitar o marido e, para recuperar a carteirinha, teve que fazer todo o procedimento novamente. “A gente sabe que tem familiar que é mais bocudo, mas também sabemos que tem muito agente que nos trata mal simplesmente por querer tratar mal, por não estar satisfeito com a função ou com o salário. Se não está satisfeito, muda de emprego”.

Filho preso

O técnico de som Moacir* está com o filho preso há quatro meses, sendo dois deles na CCC. “Quando foi preso, ele foi encontrado com armas, drogas, joias e roupas furtadas. As armas e as drogas não eram dele, mas ele assumiu para não acabar se dando mal e sendo perseguido por ser ‘cagueta’, mas teve que ser trazido pra cá porque começou a ser ameaçado pelo PCC”, contou o pai.

Segundo Moacir, o Primeiro Comando da Capital (PCC) começou a cobrar uma dívida de aproximadamente R$ 25 mil do rapaz, pelas duas armas que ele tinha ‘perdido’ e pelas drogas apreendidas. “Uma situação horrível, porque ele assumiu a bronca que não era dele pra não se dar mal e mesmo assim estão o ameaçando. Eu como pai e temente a Deus nunca orientei meu filho a seguir por esse caminho, mas aconteceu. Agora o que nós queremos é que ele pague o que fez e siga um rumo melhor quando sair”.

Moacir contou que o que viu na cadeia não deseja pra ninguém. “Como visitas de homens costumam ser mais difíceis, sou sempre o último a entrar, então eu vejo muita coisa. Já vi idosa sendo maltratada, já vi muita gente chorando e até bebê sofrendo com as revistas. Algumas coisas são rotina, mas outras nós vemos que é exagero por parte dos agentes”.

Falta estrutura

As familiares dos presos levantaram ainda a denúncia de que a estrutura da penitenciária é precária. “Os presos falam pra gente que a comida que recebem é só pra se manter em pé, porque na maioria das vezes vem estragada. Falam por aí que é gasto R$ 4 mil por preso por mês, mas eu nunca vi isso tudo acontecer. Se fosse tudo isso gasto em dinheiro, teríamos uma estrutura ótima, mas não é o que vemos lá dentro não”, disse Luciana*.

A moça, que tem 21 anos e tem o marido preso por tentativa de homicídio há um ano e meio, disse que nem o raio-x usado para o corpo humano funciona. “Aí nos fazem agachar num espelho e se cismam que estamos escondendo algo, simplesmente nos barram. Na maioria das vezes é só nervosismo da gente mesmo, nem tem nada, mas nem se dão ao trabalho de verificar”.

"De forma alguma há exageros por parte dos agentes", disse o presidente do Sindarspen. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná.
“De forma alguma há exageros por parte dos agentes”, disse o presidente do Sindarspen. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná.

O que dizem os agentes?

Em entrevista à Tribuna do Paraná, Ricardo de Carvalho Miranda, presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciarios do Paraná (Sindarspen), disse que de forma alguma há exagero por parte dos agentes. “Há o cumprimento da legislação, que é predeterminada e explica como o agente deve agir. Por isso os agentes cumprem seu dever, apenas”.

Segundo o Sindarspen, realmente o equipamento que deveria facilitar a verificação na entrada da visita não está funcionando. “O raio-x foi comprado, mas não está funcionando. Só que além disso os agentes não têm preparação para o uso. Foi comprado o equipamento, mas não forneceram o curso necessário para saberem usar”.

Transferências

A Casa de Custódia de Curitiba tem três galerias (A, B e C) e abriga 600 presos. A rebelião bloqueia por completo a primeira das galerias, que tem 172 detentos. Segundo os familiares, o ponto principal do motim é a questão do risco que correm os presos da facção denominada “Máfia Paranaense” que foram transferidos para Francisco Beltrão, Ponta Grossa e outros locais dominados por grupos rivais.  Caso eles não sejam transferidos para a CCC, a rebelião deve continuar.

“Eles (as autoridades) estão tomando atitudes que vão contra a lei de execuções penais, ‘forçando’ para que haja rebelião.  Eles estão entregando os presos para a morte”, diz um familiar de preso que pediu para ter sua identidade protegida.

Conforme o presidente do Sindarspen, os agentes reféns não estão feridos. “Um deles acabou se machucando, mas não foram os presos e sim aconteceu na hora da muvuca”, explicou Ricardo Teixeira, que destacou também que a chegada de um juiz – que vai ouvir as reivindicações dos presos e também a questão da permanência em unidades rivais – deve fazer com que as decisões para o fim do motim se aproxime. “Apesar disso, de estarmos caminhando para o fim, ainda não temos previsão”.

Perto do Fim

De acordo com o capitão Marcio da Polícia Militar, os agentes reféns estão bem fisicamente. E a situação na unidade está caminhando para o final, ainda segundo ele, com todas as ações feitas de maneira pacífica.

“Agora que as reivindicações foram aceitas, tudo está mais tranquilo. Não sabemos se houve algum dano material no local, porque é preciso fazer um levantamento”, explicou o capitão.

No entanto, apesar da promessa do possível fim da rebelião, as mulheres dos presos seguem apreensivas. Por volta das 15h40, após ouvir gritos vindos de dentro da CCC, algumas delas conseguiram furar o bloqueio da polícia e correr para a frente da Casa de Custódia.

 

*Os nomes dos entrevistados foram alterados a pedidos dos próprios. 

Três agentes são mantidos reféns em Casa de Custódia de Curitiba