Tribuna Entrevista

“Nenhum país preserva como o Brasil”: presidente da FAEP rebate críticas ao agro e fala sobre custos de produção no Paraná

Ágide Eduardo Meneguette lidera as discussões no G7. Foto: Colaboração/William Goldbach/Sistema FAEP.

Em seis anos, o valor bruto da produção (VBP) da agropecuária paranaense mais que dobrou e ultrapassou os R$ 200 bilhões. Para o presidente do Sistema FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Ágide Eduardo Meneguette, o resultado é reflexo da combinação entre tecnologia, qualificação dos produtores, sanidade animal e ganhos de produtividade que colocam o Paraná entre as principais potências do agronegócio brasileiro.

Em entrevista à Tribuna do Paraná, Meneguette afirma que manter esse ritmo de crescimento depende de investimentos, especialmente em crédito rural, seguro agrícola e infraestrutura. “O produtor rural, não só paranaense, mas de todo o Brasil, vem enfrentando sucessivas dificuldades, seja por questões climáticas, pela guerra, pelo aumento do preço dos insumos ou pelos baixos preços recebidos na comercialização da produção”, afirma.

Segundo ele, o Paraná reúne condições para ampliar ainda mais sua competitividade, mas isso passa por decisões estratégicas do poder público. O presidente também defende melhorias na logística, na malha ferroviária, no fornecimento de energia elétrica e na abertura de novos mercados para os produtos paranaenses.

Ao longo da conversa, Meneguette ainda comenta os impactos do Plano Safra, rebate críticas ao agronegócio relacionadas à sustentabilidade, analisa os desafios da sucessão familiar no campo e apresenta as principais propostas que o Sistema FAEP pretende levar aos candidatos nas eleições. 

Confira, a seguir, a entrevista completa com o presidente do Sistema FAEP:

Tribuna do Paraná: A relação entre agricultura familiar e grandes empresas é frequentemente debatida. Há uma diferenciação no tratamento entre aquela que põe o alimento na mesa do brasileiro e aquela que exporta. Qual é o equilíbrio e a coexistência desses dois modelos de produção no Paraná? 

Ágide Eduardo Meneguette: “O agronegócio e a agropecuária se juntam em um determinado momento, mas andam separados. A agropecuária paranaense é composta por toda a parte da agricultura, seja soja, milho, trigo e outras culturas, e por toda a parte da produção de proteínas animais, como frango, porco, peixe e afins.

Em determinado momento dessa cadeia, que é a hora em que ela vai para a parte da industrialização, é onde nós temos os nossos produtores e as cooperativas do agronegócio, que são as grandes cooperativas do estado. Dentro desse processo das cooperativas, é ali que se juntam a agropecuária e o agronegócio, transformando toda a nossa proteína, seja vegetal ou animal, em produtos industrializados que vão para o mercado e atendem tanto as gôndolas quanto os mercados internacionais.”

Tribuna do Paraná: Ainda existe a percepção de que a agricultura familiar e os pequenos produtores trabalham de forma menos profissionalizada. Essa visão ainda corresponde à realidade ou a qualificação técnica mudou esse cenário?

Ágide Eduardo Meneguette: “Quando a gente fala de agropecuária em si, quem cuida da agropecuária no Paraná, especificamente, são os pequenos e médios produtores rurais. Dentro dessa cadeia, as pessoas têm por prerrogativa e utilizam isso como se a agropecuária, ou a agricultura, fosse dividida em duas agriculturas. No nosso sistema de federação, a agricultura é uma soma, porque nós capacitamos desde o pequeno produtor rural até o médio produtor rural. Os grandes não usam a estrutura que nós temos de capacitação por meio do Senar. Eles têm outras tecnologias, outras ferramentas que fazem isso. 

Todas essas pessoas que trabalham no campo, seja no leite, no queijo, no tomate ou em outras atividades, e que são pequenos e médios produtores, têm um portfólio do Sistema FAEP, por meio do celular, com mais de 250 cursos de profissionalização, capacitação e tecnificação. Eles estão cada vez mais aptos a procurar tecnologias, a buscar capacitação, porque não existe outro caminho.

Se nós não nos capacitarmos, num futuro muito breve, eles podem acabar saindo da atividade, porque o mercado mundial está muito rápido, inclusive, uma coisa muito importante que está acontecendo neste momento no nosso país: a escassez de mão de obra para trabalhar. E não é porque existe escassez de mão de obra que as pessoas não querem trabalhar. É porque realmente já não existe mais a mão de obra disponível como existia antigamente no campo.”

Tribuna do Paraná: Em relação ao Plano Safra 2026/27, a FAEP manifestou que o valor anunciado ficou abaixo do esperado e que as condições de acesso ao crédito ainda são um desafio. Quais seriam as propostas para tornar o crédito rural mais acessível e adequado à realidade dos produtores?

Ágide Eduardo Meneguette: “Esse lançamento, mais uma vez, gerou uma frustração muito grande. Novamente, o próprio Plano Safra dividiu a agricultura do nosso país, falando que R$ 516,2 bilhões eram para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar.

Mais uma vez, o próprio governo quer dividir, mas, para nós, a agricultura é uma só. Nós temos a prerrogativa de elaborar uma proposta de Plano Safra, apresentá-la aos representantes do governo federal no estado e levar essas demandas para Brasília.

Na nossa estimativa, solicitamos R$ 670 bilhões. O Plano Safra foi anunciado com R$ 622 bilhões. Também pedimos que as taxas de juros fossem, no máximo, de 10% para as operações gerais e de 7% para o Pronamp. As taxas anunciadas foram de 12,5% e 9%, respectivamente. Então, a gente vê que o governo não nos ouviu.”

Tribuna do Paraná: O que esse novo Plano Safra gera de preocupação ao produtor?

Ágide Eduardo Meneguette: “O que mais nos preocupa é que, em momento algum, pensaram no programa de subvenção ao Seguro Rural, que é o seguro para proteger os produtores das intempéries climáticas. O Paraná é o estado que mais contrata seguro rural no Brasil. A maior parte das apólices é contratada aqui justamente porque mostramos aos produtores a importância dessa proteção e a segurança que ela oferece diante de uma grande dificuldade ou de uma catástrofe climática. Em um ano como este, com influência do El Niño, preocupa muito tanto o excesso quanto a falta de chuva. O produtor rural pode ser penalizado por isso, e não houve nenhum avanço nessa área.

Outro ponto muito preocupante é a renegociação das dívidas rurais. O produtor rural, não só paranaense, mas de todo o Brasil, vem enfrentando sucessivas dificuldades, seja por questões climáticas, pela guerra, pelo aumento do preço dos insumos ou pelos baixos preços recebidos na comercialização da produção. Além disso, ele convive com taxas de juros acima de 15%, chegando, em alguns casos, a 21% ou 22%. Isso aumenta drasticamente o endividamento e obriga muitos produtores a renegociar dívidas para conseguirem continuar na atividade. Nossas demandas não foram atendidas na sua totalidade. Cabe a nós, como entidades representativas, fazer uma força-tarefa para conscientizar o governo federal sobre a importância dessas medidas.”

Tribuna do Paraná: Uma notícia positiva para o setor foi a prorrogação da isenção de ICMS para produtos e insumos agropecuários até o final de 2026. Considerando que já estamos caminhando para mais um fim de ano. A FAEP considera essa medida prorrogável ou é mais uma medida “eleitoreira”? 

Ágide Eduardo Meneguette: “Temos o sentimento de que não está havendo um grande diálogo para que essa medida seja prorrogada. Mas estamos trabalhando nisso. Já estamos conversando com os nossos parlamentares federais, com a Frente Parlamentar da Agropecuária e também com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, para ver se encontramos algum mecanismo que permita prorrogar. Sem dúvida nenhuma, isso ajudaria muitos produtores a continuarem produzindo, mantendo esse benefício. Porém, algumas isenções já estão sendo retiradas, como é o caso dos fertilizantes.

Nós estamos trabalhando para que essas medidas sejam prorrogadas por mais algum tempo e, caso precisem ser retiradas, que isso aconteça em um momento mais oportuno, quando o mercado estiver em uma situação melhor e as condições dos nossos produtores também.”

Tribuna do Paraná: Mesmo diante do cenário nacional, o Paraná tem uma cadeia forte na produção de leite. Como o senhor avalia o momento no estado e quais fatores mais preocupam os produtores atualmente? 

Ágide Eduardo Meneguette: No Paraná, todos os municípios têm produtores de leite e de queijo. É mais uma atividade dentro da propriedade rural. Hoje, o pequeno produtor não pode depender de uma única cultura, e nós incentivamos cada vez mais a diversificação. Então, além de produzir leite e queijo, ele pode criar galinhas, suínos e cultivar outras culturas. Mesclando essas atividades, ele aumenta o potencial de renda e reduz os riscos. O leite vem sofrendo com oscilações de preço. Houve uma melhora, mas agora os valores voltaram a cair. É um mercado que sempre apresenta uma volatilidade maior. 

O grande problema que vemos hoje é a importação de leite. Nós trabalhamos fortemente, junto à Confederação da Agricultura, na questão do dumping do leite. O próprio governo federal reconheceu que existe dumping na importação de produtos lácteos, ou de produtos com características semelhantes aos lácteos, que entram no país com preços menores e acabam prejudicando o mercado nacional.

A nossa surpresa foi que o governo, mas não adotou nenhuma medida para defender o mercado interno. Então, ficamos nos perguntando: recorremos a quem agora? Nós mostramos o problema, comprovamos que ele existe, e o governo disse que não vai atuar.”

Tribuna do Paraná: Recentemente, a União Europeia informou um veto à importação de carnes e outros produtos de origem animal do Brasil. O governo federal também deixou de agir nesse caso?

Ágide Eduardo Meneguette: “Quando falamos da bovinocultura e dos embargos impostos pela União Europeia, vemos, mais uma vez, que o governo federal não encaminhou toda a documentação necessária para comprovar como o Brasil trata a pecuária de corte. No Paraná, especificamente, somos um estado livre de febre aftosa desde 2021. Isso demonstra o nível de sanidade animal que temos.

O que estamos tentando levar a Brasília é que, se for necessário, o Brasil precisa passar a ser tratado por estados em algumas negociações internacionais. Hoje, se surge um foco de febre aftosa em outro estado, como o Amazonas, por exemplo, todo o mercado brasileiro de carne bovina acaba sendo afetado. Mas o Paraná tem uma realidade diferente.

O estado conta com a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), criada com participação das entidades do setor produtivo justamente para controlar a sanidade animal e vegetal. Todo o trabalho é acompanhado pela Adapar, o que permitiu ao Paraná alcançar esse status sanitário. Tanto que países como China e Rússia já reconhecem esse trabalho.

O que percebemos é que, em alguns momentos, falta interesse do governo federal em mostrar ao mundo aquilo que temos de melhor. A sanidade da carne produzida no Paraná é diferenciada, e nossos produtos contam com certificações que comprovam isso.”

Tribuna do Paraná: Isso são indícios de que é hora de procurar novos mercados?

Ágide Eduardo Meneguette: “Apesar desses entraves, vemos com bons olhos a possibilidade de acessar novos mercados. Isso vai exigir muito trabalho político. Talvez seja o momento do governo estadual, das entidades representativas e da Secretaria da Agricultura irem diretamente à União Europeia mostrar tudo o que o Paraná faz, entrega e tem de diferente, comprovando que o estado pode estabelecer uma relação comercial direta. Estou sendo bastante ‘bairrista’ ao dizer isso, mas acredito que o Paraná reúne todas as condições para demonstrar sua capacidade. A carne produzida aqui tem um padrão diferenciado.

É claro que o acordo entre Mercosul e União Europeia também vai trazer desafios para alguns dos nossos produtos. Um exemplo são os lácteos. Para acessar o mercado europeu, será necessário comprovar que a produção é livre de brucelose e tuberculose. Esse é um trabalho que já começamos há cerca de dois anos, em parceria com o Governo do Estado. Existe um planejamento para que o Paraná seja reconhecido como área livre dessas doenças. Sabemos que não é um processo simples, mas estamos trabalhando para alcançar esse objetivo o mais rapidamente possível.

Quando falamos da carne bovina para a China, exportamos, no último ano, quase 24 mil toneladas, movimentando cerca de US$ 126 milhões. Já para a União Europeia, exportamos aproximadamente 4,2 mil toneladas, com receita superior a US$ 2 bilhões. Isso mostra o tamanho e a importância do mercado europeu, assim como do mercado chinês.”

Tribuna do Paraná: Isso pode acontecer no momento atual do Brasil?

Ágide Eduardo Meneguette: “Eu não vejo isso como um processo simples. Abrir mercados leva anos de negociação. Basta olhar para o acordo entre Mercosul e União Europeia. Há quanto tempo esse tema vem sendo discutido? A abertura de mercados exige diplomacia, comprovação técnica e muito diálogo. E eu vejo que o nosso país, neste momento, não está seguindo muito essa linha. Está mais restritivo, mais combativo e deixando algumas oportunidades passarem. Como citei, a questão do dumping do leite e a falta de envio das documentações exigidas pela União Europeia demonstram que o Brasil poderia atuar de forma mais efetiva na defesa dos seus produtores e daquilo que se costuma chamar de soberania nacional.”

Tribuna do Paraná: Se buscarmos uma solução para a proteção do nosso “bairro”, o Paraná tem condições para chegar nesses novos mercados?

Ágide Eduardo Meneguette: “Esse é um sonho meu. É um sonho que cada estado possa defender o seu ‘bairrismo’ mostrando as suas qualidades, as suas potencialidades e tendo acesso aos mercados com base nisso. Infelizmente, o mercado internacional não funciona assim. Eles olham o país como um todo. Então, nós temos que trabalhar nessa pauta e criar uma regionalização do Brasil, seja por regiões Sul, Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, ou de outra forma que permita dividir o país em blocos. A partir daí, esses blocos poderiam ser analisados de maneira diferente, o que ainda não acontece. Estamos trabalhando para que isso seja possível.

Mas, quando a gente fala em mercado internacional, a abertura de mercados não acontece por estado. Ela precisa acontecer por meio da nossa federação, do nosso país. Então, a diplomacia tem que vir do Brasil, sem dúvida nenhuma. É preciso muito diálogo, muita estratégia, saber ceder quando necessário e entender as diferentes realidades. Porque, querendo ou não, no fim das contas, existe uma disputa comercial. Quando as cortinas se fecham, tudo gira em torno de questões financeiras entre os países: soberania, importação, exportação, geração de riqueza e defesa de posicionamentos.”

Tribuna do Paraná: Quais são as discussões que travam esse avanço?

Ágide Eduardo Meneguette: “Quando a gente olha para o Brasil, vê que hoje somos o celeiro do mundo. Produzimos utilizando apenas cerca de 20% do território como área agricultável. Todo o restante é composto por florestas, áreas de preservação permanente e reservas legais, porque o nosso Código Florestal é um dos mais restritivos do mundo. Nenhum país preserva o que o Brasil preserva. E, mesmo assim, muitos dizem que nós não preservamos.

Imagine se o Brasil pudesse ampliar em 10% a área agricultável. E vou dar um exemplo do Paraná: sem aumentar um único hectare de área plantada, o estado multiplicou por quatro a produtividade dentro da porteira nos últimos 20 ou 30 anos. Esse avanço aconteceu graças à tecnologia embarcada no campo, à capacitação, ao treinamento e ao desenvolvimento dos produtores. 

Obviamente, também contamos com o trabalho das grandes empresas de pesquisa. E, para mim, há uma instituição que é referência mundial e que hoje está um pouco esquecida: a Embrapa. A Embrapa é uma das maiores instituições de pesquisa em genômica e desenvolvimento da agricultura tropical do mundo. Se ela não existisse, o Brasil não estaria onde está hoje. Grande parte das tecnologias e pesquisas que utilizamos e que impulsionam a agricultura brasileira nasceu dentro da Embrapa e continua contribuindo para o desenvolvimento das nossas regiões.”

Tribuna do Paraná: Mudando para a infraestrutura, a readequação da Malha Sul é um tema de grande relevância para o escoamento da produção. Como essa discussão pode beneficiar o setor no Paraná?

Ágide Eduardo Meneguette: “Nós tivemos uma audiência pública com o ministro dos Transportes e com a ANTT. Apresentamos uma proposta construída em conjunto pelo G7, grupo que atualmente coordeno. Somos favoráveis à divisão da Malha Sul por estados. Entendemos que não há como tratar toda a malha ferroviária como um único bloco logístico. Ela precisa ser dividida. E aqui, mais uma vez, vou fazer uma defesa bastante ‘bairrista’, ainda que isso possa desagradar alguns dos nossos vizinhos.

Hoje, cerca de 78% da carga transportada pela Malha Sul é do Paraná. Por isso, entendemos que o modelo proposto, que prevê uma única concessão, acaba tornando a operação inviável. Além disso, há a possibilidade de que os recursos arrecadados com essa malha sejam destinados para investimentos em outros estados. Isso não faz sentido para nós.

Se o Paraná é um estado superavitário e, por outro lado, outro estado não consegue sustentar sua malha, não é justo que os recursos gerados aqui deixem de ser investidos no próprio Paraná. Caso contrário, obras importantes para o estado, como melhorias na malha ferroviária, novos trechos, o contorno ferroviário de Curitiba e outras intervenções, podem deixar de acontecer.”

Tribuna do Paraná: Como equilibrar essa discussão?

Ágide Eduardo Meneguette: “Concordamos que a nova concessão deve incluir a Ferroeste, para integrar a produção daquela região. Também defendemos as melhorias na ferrovia da Serra da Esperança, o contorno ferroviário de Curitiba, para retirar a circulação de trens pesados da área urbana e reduzir o número de acidentes, e melhorias na descida da Serra até o Porto de Paranaguá. Todas essas propostas foram apresentadas ao ministro durante a audiência pública. Mostramos qual é, na visão dos setores produtivos paranaenses e da Federação, o modelo mais adequado para atender às necessidades do estado.

Cada estado possui características próprias quando se fala em logística ferroviária. Cada um tem uma configuração diferente de produção e de escoamento. No caso do Paraná, o Porto de Paranaguá é um dos principais portos do Brasil. Grande parte da produção agropecuária do estado chega até ele por rodovia ou por ferrovia. Sem dúvida, o transporte ferroviário é mais competitivo do que o rodoviário. Também apresentamos essa proposta ao governador, para que, quando necessário, ele possa defendê-la junto ao governo federal em favor dos produtores e empresários paranaenses.”

Tribuna do Paraná: Tem como pensar nessa mudança pensando também em redução de custos logísticos?

Ágide Eduardo Meneguette: “Sem dúvida nenhuma. Uma vez que você tem a ferrovia, ou consegue criar um sistema multimodal, que seria a excelência, há uma redução significativa dos custos. Você tira parte do transporte das rodovias, diminui o fluxo de caminhões, melhora a mobilidade para a população em geral e transfere o transporte pesado de cargas para as ferrovias. O Brasil poderia potencializar muito mais essa área. Nós temos toda a questão da cabotagem, poderíamos utilizar mais os rios e a costa brasileira para o transporte de cargas. Porém, existem diversos entraves legais e ambientais que impedem esse avanço.

Esse é um tema preocupante. Se olharmos para o passado, quem construiu as ferrovias brasileiras foram os militares. Desde aquela época, praticamente não houve investimentos pesados e efetivos em ferrovias, a não ser agora, com algumas privatizações e concessões, como a Ferrogrão e a Ferrovia Norte-Sul.

No Paraná, a situação está praticamente parada. A malha continua transportando cargas, mas sem grandes investimentos que permitam ampliar sua capacidade. O tempo é curto, porque a renovação da Malha Sul está próxima. Por isso, estamos trabalhando para construir um consenso que atenda aos anseios dos produtores e dos empresários paranaenses.”

Tribuna do Paraná: O reajuste de 20,51% na tarifa da Copel, que entrou em vigor em junho, gerou reação do setor. A FAEP acionou o Ministério Público do Paraná e o TCU. Como avaliam o momento do reajuste?

Ágide Eduardo Meneguette: “A Copel está prestando um desserviço para a sociedade, especialmente para os produtores rurais. A Copel anuncia investimentos milionários e justifica o reajuste da tarifa dizendo que esses investimentos atenderam às exigências da Aneel. Primeiro, falaram em um aumento de 19%. Depois disseram que havia um erro na tabela e o reajuste passou para 20,5% para toda a sociedade paranaense.

Basta sair um pouco da cidade e ir para o interior, onde realmente se produz frango, suínos, peixes e leite. As quedas constantes de energia e as oscilações de tensão estão causando prejuízos milionários aos produtores. Hoje, a energia elétrica deixou de ser apenas um serviço. Ela é essencial para a produção rural. Sem energia, não há produção, não há armazenamento, não há refrigeração e não há como manter a atividade. A energia é um insumo essencial da produção. Se o custo da energia aumenta, o custo de produzir também aumenta. E esse custo acaba sendo repassado ao longo da cadeia até chegar ao consumidor.”

Tribuna do Paraná: A FAEP já recebeu relatos de casos em que houve prejuízo?

Ágide Eduardo Meneguette: Nós divulgamos um caso na região de Tupãssi, em que um produtor perdeu cerca de 900 mil quilos de peixe. Isso representa aproximadamente R$ 9 milhões em prejuízo. Quem vai arcar com essa perda? A Copel vai indenizar? O produtor tem seguro? Nesse caso, ficou comprovado que as oscilações de energia queimaram as placas dos aeradores responsáveis pela oxigenação dos tanques. Os equipamentos deixaram de funcionar, os peixes morreram e toda a produção precisou ser descartada. O prejuízo ficou integralmente com o produtor.

No Oeste do Paraná também houve casos em aviários. Se um aviário fica sem energia por cinco ou dez minutos, a mortalidade das aves pode ser enorme. Tivemos um produtor que perdeu praticamente toda a produção e acumulou um prejuízo de cerca de R$ 150 mil.

Até brincamos que existe um setor na Federação praticamente dedicado à Copel, porque, o tempo todo, chegam reclamações de quedas e oscilações de energia. São produtores perdendo milhões de litros de leite, milhões de peixes, aves e outras produções justamente por problemas no fornecimento de energia.”

Tribuna do Paraná: Na avaliação da Federação, a responsabilidade pelos problemas da rede elétrica no campo tem sido atribuída de forma equivocada aos produtores? 

Ágide Eduardo Meneguette: “Havia um projeto de lei no Paraná que obrigava os produtores rurais a fazerem a manutenção das redes elétricas. Como um produtor vai cortar uma árvore que está próxima de uma rede de alta tensão? Todo mundo sabe que existe o risco de formação de arco elétrico, que pode provocar acidentes fatais. O produtor não tem capacitação, equipamentos ou treinamento para isso. Além disso, existe toda a legislação ambiental. Ninguém pode simplesmente cortar uma árvore sem autorização do órgão ambiental competente.

Trabalhamos com os deputados estaduais e conseguimos alterar essa proposta. A própria legislação das concessões deixa claro que a manutenção da rede é responsabilidade da concessionária. Essa obrigação não poderia ser transferida ao produtor rural. Isso trouxe mais tranquilidade aos produtores. Porém, os investimentos anunciados pela concessionária ainda não chegam na ponta.

A justificativa agora é de que os problemas estariam relacionados às ligações trifásicas. Mas o produtor não liga a energia trifásica. Pelos estudos que realizamos, identificamos subestações obsoletas, postes novos instalados de forma inadequada, postes inclinados e redes passando por áreas de mata, onde os galhos encostam na fiação. São diversas situações que encontramos com frequência.”

Tribuna do Paraná: Qual seria o caminho para solucionar esses problemas?

Ágide Eduardo Meneguette: “Essa solução não cabe à Federação. Cabe à própria Copel cumprir o papel que lhe compete. A empresa precisa tomar as medidas necessárias para melhorar a qualidade do fornecimento de energia. E eu costumo dizer que não é apenas o campo que sofre. Em Curitiba também faltam energia e estabilidade no fornecimento. Há bairros que ficam um ou até dois dias sem luz. Há pouco tempo, por exemplo, vimos o caso do Batel, que ficou mais de nove horas sem energia. Ou seja, não é um problema exclusivo do meio rural. Precisamos cobrar mais eficiência e melhorias.

Ingressamos com uma ação civil no Ministério Público do Paraná solicitando uma análise da qualidade do serviço prestado pela Copel. Também protocolamos pedidos junto ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas da União para que seja feita uma avaliação detalhada do reajuste tarifário. Queremos saber se esse reajuste realmente se justifica. A concessionária afirma que ele decorre dos investimentos realizados. Mas, se esses investimentos foram feitos para melhorar a qualidade do serviço, por que essa qualidade não chega ao consumidor? Onde esses recursos foram aplicados? Ao mesmo tempo, vemos a Copel distribuindo lucros bilionários aos seus acionistas enquanto produtores rurais perdem toda a produção, sem serem ouvidos ou ressarcidos pelos prejuízos. Isso é uma injustiça muito grande.”

Tribuna do Paraná: Ainda existe a percepção de que o agronegócio é um vilão da sustentabilidade. Esse estereótipo ainda faz sentido?

Ágide Eduardo Meneguette: “Eu não consigo dizer que exista alguma atividade econômica mais sustentável do que a agricultura no país. Se você pegar um livro de Biologia ou Ciências, vai ver que a fotossíntese é feita pelas plantas. É o campo que faz a retenção de carbono e é o solo, por meio das plantas, que absorve o carbono. Quando eu escuto isso, fico até um pouco indignado, porque a sustentabilidade no campo é gigantesca. Hoje, o produtor rural preserva mais de 20% da sua propriedade em vegetação nativa, áreas de preservação permanente, reservas legais, nascentes e margens de rios. Qual empresário constrói um barracão e deixa 20% dele sem uso para preservar o meio ambiente? O produtor rural faz isso todos os dias. Se acontecer qualquer problema nessas áreas de preservação, a responsabilidade é integralmente dele.”

Tribuna do Paraná: A tecnologia tem participação nessa mudança?

Ágide Eduardo Meneguette: “Com o avanço da tecnologia, a agricultura mudou muito, inclusive na questão da sustentabilidade. O Paraná foi precursor, no mundo, do sistema de plantio direto. Essa é uma das maiores formas de conservação do solo que existem. Antigamente, a terra era arada e gradeada a cada safra. Hoje, o produtor colhe uma cultura e, praticamente na sequência, já implanta a próxima sobre a palhada, que protege o solo, contribui para a retenção de carbono e favorece toda a atividade dos microrganismos.

Também avançamos com os bioinsumos e com a agricultura de precisão. Hoje, os produtores sabem exatamente a quantidade de nutrientes que precisam aplicar e a dosagem correta de defensivos agrícolas. Com o auxílio da inteligência artificial, conseguimos identificar onde há incidência de pragas e fazer aplicações localizadas. Não é mais como acontecia nas décadas de 1930 ou 1940, quando os produtos eram aplicados de forma generalizada.

A sustentabilidade dentro do campo evoluiu de forma gigantesca. Tanto que, no Sistema FAEP/Senar, todos os cursos estão alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Quando o produtor conclui uma capacitação, o certificado identifica quais ODS aquela formação contempla e como ela contribui para as práticas de sustentabilidade e ESG. Essa é uma pauta muito forte dentro dos nossos programas. Por isso, eu não vejo uma cadeia produtiva mais sustentável do que o agro.”

Tribuna do Paraná: O senhor acredita que a sociedade conhece, de fato, o trabalho de preservação ambiental realizado pelos produtores rurais?

Ágide Eduardo Meneguette: “Quando dizem que o produtor rural destrói, queima ou não preserva o meio ambiente, eu sinceramente não consigo enxergar isso. E não sou só eu que digo. Basta olhar os dados dos órgãos ambientais e a realidade do Paraná. A quantidade de florestas e áreas preservadas é enorme. Se você sobrevoar o estado, vai perceber que praticamente toda floresta que aparece está dentro de uma propriedade rural. Eu vejo que muitas pessoas são contra o agro, mas não conhecem o que ele faz. Não entendem o tamanho da preservação ambiental realizada pelos produtores nem a importância do setor para o meio ambiente. 

Também acredito que existe uma disputa comercial por trás de parte dessas narrativas. Se o Brasil tivesse menos barreiras e menos questionamentos desse tipo, seria uma potência agrícola ainda maior. Veja a China, por exemplo. É um dos países que mais emitem gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, está investindo fortemente para ampliar sua produção agrícola e garantir segurança alimentar. Cada país defende os seus próprios interesses.

Precisamos comunicar melhor o que o produtor rural faz e mostrar, com mais clareza, como funciona a agricultura brasileira. Esse é um trabalho permanente que desenvolvemos no Sistema FAEP, mostrando para a sociedade a importância do agro e tudo o que ele entrega. Porque, no fim das contas, se o agro não existisse, quem cuidaria dessas áreas preservadas? Nós vemos muitos incêndios acontecendo em outras regiões do país e até nas fronteiras com países vizinhos, mas, no Paraná, o produtor rural continua preservando, produzindo e cumprindo o seu papel.”

Tribuna do Paraná: O Paraná concentra um número significativo de novos cursos voltados à formação para a atuação no campo. Existe uma característica do produtor local que pode ser exportada para outros estados?

Ágide Eduardo Meneguette: “Se você olhar para outros estados do país, vai perceber que muitos dos grandes empresários, produtores e agricultores que estão produzindo nessas regiões são paranaenses. São pessoas que saíram do Paraná e foram para Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, Bahia e para a região do Matopiba, levando a experiência e as tecnologias que desenvolveram aqui.

Quando falamos de tecnologia em si, ela é universal. O conhecimento também é universal e está disponível para todos. Eu acredito que quem trabalha no agro busca cada vez mais inovação e novas tecnologias. Todo mundo quer crescer, produzir mais e produzir melhor. Mas, se eu tiver que destacar uma tecnologia que nasceu aqui e foi levada para todo o Brasil, sem dúvida nenhuma é o plantio direto.”

Tribuna do Paraná: Com as eleições de 2026 se aproximando, quais as principais pautas e demandas que a FAEP pretende apresentar aos governantes do Paraná? 

Ágide Eduardo Meneguette: “A FAEP tem, por prerrogativa, elaborar um plano de governo para o Paraná e entregá-lo a todos os candidatos ao governo estadual com as pautas que consideramos prioritárias para a agropecuária paranaense. Na quarta-feira (15), por exemplo, recebemos aqui o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado. Entregamos a ele um material com propostas que entendemos serem importantes para a agropecuária nacional. Estamos estruturando esse material internamente. 

No documento destinado aos candidatos ao Governo constam temas como energia elétrica, infraestrutura, logística, programas estaduais de subvenção ao seguro rural, entre outros. É um trabalho bastante robusto. Isso porque temos um programa chamado FAEP no Trecho, em que percorremos o estado ouvindo os produtores. Recentemente, realizamos um encontro de lideranças regionais, conversando com mais de 2.400 pessoas. Entre os temas que mais apareceram estão os problemas relacionados aos órgãos ambientais, a infraestrutura, a demora nos processos de licenciamento, além do aumento dos custos, especialmente os ligados à logística. Essa é uma área em que precisamos avançar.

Para os candidatos à Presidência, elaboramos um documento específico com pautas de competência federal, como renegociação das dívidas rurais, segurança jurídica, questões tributárias, direito fundiário, marco regulatório, seguro rural, Plano Safra e infraestrutura. O mais importante é que exista disposição para começar esse trabalho e destravar temas essenciais para que o Paraná e o Brasil continuem avançando.”

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