O comércio varejista no Paraná sofre com a queda nas vendas. O ano começou com recuo no setor, principalmente nas áreas de material de construção, com queda de 17,57%, seguido por móveis, decoração e utilidades domésticas (-9,72%) na comparação de janeiro deste ano com o de 2025. Os dados, que vieram da Pesquisa Conjuntural da Fecomércio PR, refletem o desempenho fraco no segmento há meses, provocado por uma série de fatores, mas principalmente pela mudança de comportamento do consumidor.
Os aplicativos de compras vêm ganhando a preferência de quem quer fazer pequenas reformas em casa, mas que busca economizar. Na contrapartida do preço baixo, apps como Temu, Shopee, Mercado Livre, Amazon, ou outros e-commerce internacionais, vendem produtos que nem sempre passam por fiscalização de qualidade e segurança.
“Dentro das lojas físicas, o Inmetro fiscaliza os produtos, todos precisam estar dentro das normas. Agora na internet, fica difícil fiscalizar. O consumidor leigo leva um produto sem saber dos riscos”, alerta o presidente do Sindicato Intermunicipal do Comércio Varejista (Simaco-PR), Ademilson Milani.
O alerta é reforçado pela diretora do Procon-PR, Claudia Silvano. Segundo ela, a orientação é sempre comprar em locais confiáveis. “O preço é importante, mas a procedência é mais. O problema são as compras pela internet, o consumidor acaba levando produtos falsificados, sem procedência”, defende. A orientação é que o consumidor avalie sempre se o item possui certificações nacionais antes de finalizar a compra.
Na competição pela preferência do consumidor, Milani acredita que o varejo tradicional está perdendo uma disputa, que vem sendo travada de forma desigual. “Eu quero comprar barato e você também, mas nós [lojistas] temos que pagar mais impostos e os funcionários. Nessa desigualdade, nossos empregados acabam pagando o pato. Enquanto sociedade, temos que discutir se isso tudo é válido”, defende.
Guerra fiscal
A queda gradual nas vendas do varejo do setor é puxada por vários fatores. Um deles, segundo Milani, está no aumento da substituição tributária no Paraná – regime fiscal que antecipa a cobrança do ICMS. O imposto é recolhido na fonte (pela indústria ou distribuidor), o que acaba elevando o custo final para o lojista.
Sem enxergar uma tendência de melhora no cenário, o presidente do Simaco-PR conta que, por conta do ICMS maior no Paraná (19,5%), os paranaenses que moram na região Sul do estado preferem fazer compras em Santa Catarina, que tem ICMS de 17%. O varejista local luta com o imposto estadual e também contra o “imposto zero” (ou bem menor) que vem dos produtos que chegam de outros países.
Para uma disputa menos desigual, Milani defende melhores condições fiscais para competir com as mercadorias que vem de fora. “O cliente final é o que mais nos interessa, mas ele tem escolhido o mercado online. Nosso comércio dá emprego, garante CLT, para aluguel da loja, sustenta famílias, o marketplace não”, revela.
Governo do Paraná justifica alíquota do ICMS
O varejo reclama da perda de consumidores para o estado e Santa Catarina, onde alíquota de ICMS é mais baixa: 17% contra os 19,5% praticado no Paraná. Em resposta à Tribuna do Paraná, a Secretaria Estadual da Fazenda (Sefa) explica que o valor do ICMS se aplica para uma grande quantidade e produtos vendidos ao consumidor final, e não apenas a materiais de construção.
“Um dos motivos pelos quais a alíquota modal paranaense é maior que a média nacional é que nós reduzimos significativamente a carga tributária do Simples Nacional, ao contrário de outros Estados”, defende a secretaria.
O Paraná fechou 2025 com uma alíquota efetiva média do ICMS de 2,39% para contribuintes optantes pelo Simples Nacional – valor abaixo da média nacional, que é de 2,81%. Entre as medidas que puxam esse número para baixo estão a isenção integral do ICMS para negócios com faturamento de até R$ 360 mil ao ano, um incentivo que alcança mais de 190 mil empresas. Para quem fatura acima desse valor, a tributação do ICMS acontece apenas no valor excedente.
O setor também se queixa da atualização das tabelas de substituição tributária, que acabam agravando a crise para o lojista. A secretaria explica que trata-se de uma adequação aos preços efetivamente praticados pelos lojistas, com base em estudos técnicos realizados na Sefa e por empresas que são referências nacionais em análises econômicas.
“Eventuais diferenças entre o preço praticado e o presumido podem ser objeto de restituição por parte dos contribuintes substituidos, na forma regulamentar”, salienta o governo.
Disputa com a indústria
O varejo paranaense de construção enfrenta uma situação desafiadora. De um lado, a concorrência massiva dos apps; do outro, um movimento que ganhou força na última Feira Internacional da Construção Civil (Feicon): a desintermediação. Grandes marcas nacionais e polos industriais, como uma de metais sanitários no noroeste do estado, estão estreitando a distância com o consumidor final, vendendo diretamente de suas plataformas e deixando o lojista tradicional de lado.
A indústria no Paraná tenta se proteger da invasão dos produtos que vem de fora do país — que chegam ao mercado interno com valores agressivos via atacados online — o varejo local perde sua função de vitrine. Quando o consumidor percebe que o preço no site da fabricante ou em um grande marketplace é menor do que na prateleira da loja, o varejo entra em crise.
“A indústria passou a vender um valor para nós, mas no atacado da empresa está mais barato. É claro que o consumidor vai comprar direto da indústria e o varejo fica de fora da experiência”, explica Milani.
