Acidente em Vinhedo

“Tragédia anunciada”: caixa-preta e laudo de 200 páginas revelam bastidores da queda da Voepass

Avião da Voepass caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024; 62 pessoas morreram.
Avião da Voepass caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024; 62 pessoas morreram. Foto: Secretaria de Segurança de São Paulo / divulgação.

Em reunião realizada nesta terça-feira (30) em Campinas (SP), a Polícia Federal informou a advogados e familiares das vítimas do voo 2283 da Voepass que o relatório final das investigações foi concluído. O documento, que ultrapassa 200 páginas, aponta de forma contundente que a aeronave que saiu de Cascavel, Oeste do estado, e caiu em Vinhedo (SP) não apresentava condições operacionais seguras para o voo e confirma que haverá indiciamentos criminais.

O desastre ocorreu em agosto de 2024, quando o avião modelo turboélice caiu em um condomínio residencial em Vinhedo. A aeronave havia decolado de Cascavel com destino ao Aeroporto de Guarulhos transportando 62 pessoas — 58 passageiros e 4 tripulantes. Não houve sobreviventes.

A principal linha de investigação girou em torno do acúmulo de gelo nas asas e de possíveis falhas nos sistemas de degelo do avião, fatores que teriam feito a aeronave entrar em uma queda em parafuso, sem chances de recuperação pela tripulação.

“Tragédia anunciada e normalização do risco”

A diretoria da Associação das Vítimas do Voo 2283 teve acesso aos laudos técnicos e às transcrições extraídas da caixa-preta, que revelaram a rotina na cabine nos momentos que antecederam a queda. Para Fátima Albuquerque, presidente da associação e mãe de uma das vítimas, os dados técnicos confirmam que o desfecho não foi um acidente casual, mas o resultado de falhas na gestão da empresa.

“Não foi um acidente, foi uma tragédia anunciada, uma construção de negligência”, afirmou Fátima. “É uma questão de ganância. Você não fazer uma manutenção adequada, não reportar um erro e submeter uma tripulação a uma situação de risco onde acabaram normalizando uma conduta que os levou à morte.”

A presidente da associação também fez um alerta sobre as pressões operacionais sofridas pelos profissionais da aviação, sinalizando que a conduta da empresa envolvia assédio e riscos à segurança do trabalho. “A nossa luta é para que nenhuma tripulação no Brasil coloque sua vida e a dos passageiros em risco para agradar patrão ou por medo de perder o emprego após ser ameaçada.”

Segundo o G1 Campinas e região, a Voepass participou da reunião com os familiares nesta terça, mas não quis falar com a imprensa. A reportagem da Tribuna do Paraná entrou em contato com a empresa por e-mail, mas não recebeu um retorno até a publicação da reportagem.

Próximos passos e responsabilização criminal

Com a conclusão do relatório pela Polícia Federal, o Ministério Público Federal receberá o relatório para formalizar a denúncia contra os executivos e técnicos responsáveis pela operação da aeronave.

O advogado Luciano Katarinhuk, que atua na assistência de acusação e representa a associação, destaca que as próximas quatro semanas serão cruciais para o desdobramento jurídico do caso.

“O que nós sabemos de definitivo é que haverá indiciamentos no caso da Voepass. O voo 2283 não ficará em vão”, garantiu Katarinhuk. “Ainda faltam alguns procedimentos formais a serem concluídos, mas sabemos que nos próximos 30 dias muitas coisas vão acontecer. A assistência de acusação espera a denúncia do Ministério Público e vamos trabalhar para que essas pessoas sejam responsabilizadas criminalmente.”

O relatório aponta para o indiciamento do comando da equipe que operava o que a defesa e as vítimas chamam de modus operandi negligente na manutenção e liberação de aeronaves da companhia.

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