O florir das azáleas, dos ipês amarelos e das cerejeiras nas ruas da Grande Curitiba traz um aviso claro: os dias estão ficando mais longos, o calor começa a dar as caras e a natureza desperta para uma nova estação. É exatamente nesse período de transição, que o trabalho na terra garante um jardim viçoso e uma horta produtiva durante a primavera e o verão.
Para Ademar da Silva Brasileiro, conhecido como o Mago Jardineiro, o próprio ambiente dá os sinais de que é hora de começar o manejo. Com mais de 30 anos de experiência em paisagismo e agricultura sustentável, ele destaca que o aumento gradual da umidade e da luz predispõe a vida vegetal ao crescimento rápido.
“Tudo começa a favorecer naturalmente o desenvolvimento das plantas. Os pássaros retomam a cantoria e os insetos voltam à lida. É uma corrida contra o tempo para deixar tudo pronto e desfrutar do ambiente natural nos meses quentes”, explica.
Um dos erros mais comuns de quem cuida de quintal nesta época é varrer e jogar fora todas as folhas secas e galhos. Segundo o Mago Jardineiro, esse material é o melhor adubo que existe e não custa nada. Trancá-los em sacos de lixo é desperdiçar fertilidade.
A orientação é organizar esses resíduos no próprio solo, picando ou triturando o material para usar como forração. Essa camada protege a terra, conserva a umidade e se transforma em nutriente aos poucos. Essa técnica de manejo natural é reforçada nas ações públicas da capital. Gabriel Olle Dalmazo, engenheiro agrônomo e gerente do programa Fazenda Urbana de Curitiba, explica que todas as folhagens, podas e restos de canteiros do espaço são transformados em composto orgânico.
“Conscientizamos a população a aproveitar tudo em casa, desde a varrição até os restos da cozinha. Ver um resíduo se transformar em adubo é um caminho sem volta. Depois que a pessoa aprende o valor daquilo, ela não quer mais mandar matéria orgânica para o lixo comum”, afirma Dalmazo.
Para quem deseja um quintal cheio de passarinhos, borboletas e abelhas na primavera, o segredo é a variedade de plantas, e não a intervenção artificial. O Mago Jardineiro faz um alerta rigoroso sobre o hábito de colocar garrafinhas de água com açúcar para beija-flores.
“O açúcar não tem a mesma composição do néctar das flores. Ele vicia e mata as aves por cirrose, além de provocar fungos no bico dos bichinhos. Aumento artificial de comida desequilibra a população de animais”, alerta Ademar. O ideal é plantar espécies que forneçam alimento natural o ano todo.
Dalmazo acrescenta que a presença de polinizadores na cidade depende diretamente das plantas nativas. “As abelhas sem ferrão consomem flores de árvores nativas e ajudam na troca genética da vegetação urbana. Para ter passarinhos e insetos benéficos em abundância, o morador deve apostar na biodiversidade, misturando jardim, horta e pomar.”
Regar com inteligência e usar o “molhômetro”
Com o aumento das temperaturas, surge a dúvida sobre a frequência das regas. A regra de ouro é manter o solo sempre levemente úmido, sem esperar a terra secar totalmente para molhar.
Para não errar, o Mago Jardineiro ensina a usar o “molhômetro”: o próprio visual do solo e o comportamento das plantas. Terra úmida é mais escura e brilhante, enquanto a terra seca fica clara e fosca. Além disso, plantas de folhas largas são as primeiras a murchar quando falta água, servindo de aviso. Afofar a terra entre 20 e 30 centímetros de profundidade e misturar areia ou adubo ajuda a criar uma textura de esponja, que segura a umidade na medida certa.
Da cozinha para a terra: como começar sem gastar
Não é preciso investir alto para ter um espaço verde florido. Sementes de alimentos consumidos no dia a dia — como feijão, girassol, abóbora, gergelim, pimentão e tomate — podem ir direto para o solo ou para vasos. Elas germinam rápido, dão flores bonitas e atraem a vida silvestre.
Para esta época do ano, a Fazenda Urbana recomenda o início do plantio de hortaliças de primavera e verão, como tomates, pimentões, abóboras, pepinos, alfaces e temperos como salsinha e cebolinha. A dica é sempre conferir no verso das embalagens de sementes se a variedade é indicada para o clima do Sul do Brasil nesta estação.
Técnicas que transformam profissionais no mercado
A visão de manejo sustentável ensinada pelo Mago Jardineiro tem inspirado profissionais a mudarem a forma como trabalham o paisagismo em Curitiba e região.
A arquiteta e paisagista Vanessa Cardoso Molino buscou a mentoria do Mago para criar projetos mais autônomos e integrados à natureza. “Saímos da faculdade com muitas ideias teóricas de agricultura urbana, mas a prática no campo ensina como a terra funciona de verdade. Aprendi a montar sistemas equilibrados onde o jardim não exige manutenção exaustiva. Usar plantas nativas e compostagem em vasos reduz a necessidade de rega e mantém o ambiente sadio sem o uso de adubos químicos pesados”, conta Vanessa.
Já o jardineiro paisagista Hugo Alberto Magnecio aplica os ensinamentos do Mago há duas décadas. Aos 70 anos e com 20 de profissão autônoma, o argentino radicado no Brasil afirma que a maior lição foi aprender a respeitar o ciclo da terra.
“A natureza se cuida sozinha se a gente não atrapalhar. Tudo o que sai do jardim ou da cozinha volta para o solo. Aprendi a manter a grama cortada na altura certa, sem raspar a terra, o que conserva os nutrientes e a umidade. Tratar o solo com respeito traz um retorno fantástico. Meus clientes ficam satisfeitos porque o jardim não estraga, fica sempre verde e bonito em qualquer época do ano”, conclui Hugo.
