Agricultura

Para cortar gastos, produtores do Paraná reduzem fertilizantes e efeito pode chegar ao consumidor

Fotografia em enquadramento médio com contra-luz de um operador conduzindo um trator agrícola em uma área rural. Visto de costas, o veículo está posicionado ao centro da composição, sob contraluz, projetando uma silhueta contra o horizonte. O maquinário espalha adubo ou terra escura para trás, lançando diversos fragmentos no ar em movimento contínuo. No primeiro plano, o solo de terra arada exibe textura escura e irregular. Ao fundo, uma vasta extensão de campo verde suavemente ondulado estende-se sob a iluminação difusa de um céu nublado ao fim da tarde.
Menor adubação impacta na produtividade. Foto: Arquivo/Rodolfo Buhrer/Gazeta do Povo.

Projeções para as próximas safras indicam que as indústrias devem reduzir entre 10% e 20% a entrega de fertilizantes aos produtores rurais do Paraná. A crise do setor não está relacionada à indisponibilidade do produto, mas à tentativa dos agricultores de reduzir os custos no campo.

No Paraná, cerca de 80% dos fertilizantes utilizados na produção agrícola são provenientes do mercado externo. Maior importador nacional e com acesso estratégico aos insumos pela proximidade com o Porto de Paranaguá, o estado enfrenta um cenário de alerta nos custos desses produtos desde o início do ano, quando os primeiros efeitos dos conflitos no Oriente Médio e das guerras começaram a ser sentidos.

De janeiro a agosto de 2026, o Brasil importou 25 milhões de toneladas de fertilizantes do exterior. Somente no Paraná, o valor das importações soma mais de US$ 211 milhões, segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Em comparação com o mesmo período do ano anterior, o percentual é 35,6% menor.

Segundo o Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas no Estado do Paraná (SindiAdubos-PR), a redução não indica uma menor necessidade do produtor, mas uma tentativa de cortar custos na ponta da produção. Para compensar gastos em outras etapas, como perdas climáticas ou custos de frete, o produtor opta por “subadubar” o solo, ou seja, utilizar menos fertilizante do que o recomendado por hectare.

De acordo com o presidente do sindicato, Aluisio Schwartz Teixeira, os efeitos estão na capacidade do agricultor de comprar os insumos de que precisa. “Dependendo da cultura, da região e das condições financeiras, essa redução pode significar menor adubação, menor investimento em tecnologia e impactos sobre a produtividade das próximas safras”, considera.

Na avaliação do presidente, essa estratégia pode afetar principalmente as produções de soja e milho no estado. Mantida a subadubação, os impactos podem ser sentidos na produtividade das culturas. A estimativa, segundo o presidente, indica uma redução que pode chegar a 30% por hectare nas próximas safras.

Impactos no campo

Desde a pandemia, os produtores rurais do Paraná enfrentam a alta nos preços dos insumos e uma queda desproporcional nos preços do milho e da soja. No campo, os custos de produção dispararam, mas os resultados não acompanharam a alta, dificultando o equilíbrio das contas.

Diante dos efeitos do mercado internacional, uma das alternativas encontradas é reduzir custos na base da produção, principalmente com fertilizantes. Segundo o agrônomo João Sampaio, conselheiro técnico da Sociedade Rural do Paraná (SRP), no caso desses insumos, uma das estratégias mais adotadas no campo é postergar a compra para um momento de preços mais competitivos.

“O produtor está com o custo dele esmagado, a margem está apertada e ele tem tentado melhorar ou reduzir um pouco o custo. O fertilizante representa de 30% a 40% do custo de produção. Esse é o primeiro ponto que ele pensa em diminuir um pouco a dose”, afirma.

Além das altas no mercado, outro custo que pesa para o produtor é o frete. O transporte do Porto de Paranaguá para o Norte do Paraná subiu de R$ 130–150 por tonelada para cerca de R$ 200 por tonelada, um incremento de 20% a 25% no último ano.

Na tentativa de “acertar a hora certa” para comprar mais barato, o produtor adia o pedido. Isso pode gerar acúmulo de demanda na última hora, estrangulamento da logística, alta repentina do dólar e preços piores do que no início do ciclo, conforme análise do conselheiro. 

No caso dos fertilizantes à base de nitrogênio, por exemplo, estão em um mercado com mais players e alta volatilidade. Por isso, os preços podem subir e cair rapidamente em ciclos curtos. Já nos adubos de fósforo e potássio, o mercado é altamente concentrado no mundo. Por isso, os preços sobem rapidamente, mas reagem mais devagar para cair. Especialmente no caso do fósforo, a produção nacional vem em queda devido ao esgotamento das minas, reforçando a participação do mercado internacional.

Redução pode afetar qualidade e preço ao consumidor

Ao apostar nessa estratégia, a redução da aplicação de fertilizantes impacta a concentração de nutrientes no solo e, por consequência, a produtividade. Ao mercado, então, podem chegar produtos em menor quantidade e com impactos na qualidade. O efeito é sentido direta e indiretamente no bolso do consumidor. “Subindo preços de soja, milho e café, o impacto é imediato nos preços de proteínas animais, alimentos e restaurantes”, completa Aluisio Teixeira.

Na avaliação de João Sampaio, o cenário atual do produtor já exige atenção devido aos efeitos do El Niño. “Estamos no momento de colheita de trigo e, quando está pronto para colher, o excesso de chuva atrapalha na qualidade. A qualidade está diretamente ligada ao preço. O produtor não vai ter trigo de boa qualidade e, consequentemente, não vai ter preço bom”, explica.

Mesmo quando o produto está mais barato, a qualidade pode não suprir as necessidades e os requisitos exigidos pela indústria, que recorre ao mercado internacional e, consequentemente, repassa custos maiores ao consumidor.

Soluções a longo prazo

Para João Sampaio, as estratégias para segurar os custos e manter a qualidade dos produtos demandam uma análise de solo rigorosa. Dessa forma, é possível aplicar exatamente a dosagem de que o solo necessita, reduzindo os gastos com adubo sem provocar quedas severas de produtividade.

Outra estratégia é investir na indústria nacional. Embora exija planejamento de 10 a 30 anos, envolvendo infraestrutura rodoviária, ferroviária e licenciamento, a produção nacional de fertilizantes poderia proteger o produtor contra as volatilidades do mercado internacional, as oscilações cambiais e as crises geopolíticas externas.

Já segundo o SindiAdubos, a defesa é pela redução dos impostos de importação de fertilizantes, além de mudanças no PIS/Cofins, que aumentaram a carga tributária incidente sobre operações realizadas pelo setor.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias do estado do Paraná!
Seguir no Google