Em 2025, o Paraná consolidou sua posição como um dos principais polos empresariais do país. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado reúne 2,03 milhões de empresas ativas. Para o presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap), Flávio Gotardo Furlan, o momento é de expansão, mas também de novos desafios para o setor produtivo.

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Em entrevista à Tribuna do Paraná, Furlan detalhou como a Faciap atua na articulação entre as 296 associações comerciais filiadas, buscando fortalecer o ambiente de negócios sem perder de vista as particularidades econômicas de cada região do estado. O dirigente também analisou temas que vêm mobilizando o empresariado em todo o país, como o debate sobre o fim da escala 6×1, as mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e os desafios para manter a competitividade das empresas.

Natural de Toledo, empresário do setor têxtil e advogado especializado em Direito e Processo do Trabalho, Furlan reúne a experiência de quem acompanha o empreendedorismo tanto na prática quanto na área jurídica. Ao comentar os debates que envolvem as relações de trabalho, ele defende que soluções nacionais precisam considerar as diferenças entre os segmentos da economia. “Não podemos tratar a economia como se todos os setores fossem iguais. Cada um tem uma realidade diferente”, afirma. 

Confira, a seguir, a entrevista completa com o presidente da Faciap:

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Tribuna do Paraná: Na última reunião das coordenadorias em Curitiba, o foco foi a necessidade de o Sistema Faciap atuar de forma mais integrada e coordenada. Na prática, como fazer com que mais de 290 associações comerciais falem a mesma língua e pensem nas prioridades de cada uma?

Flavio Furlan: “O nosso sistema federativo é composto pela Confederação, que fica em Brasília e reúne os 27 estados da Federação; pela FACIAP, aqui no Paraná; e pelas 12 coordenadorias regionais, que abrangem todas as regiões do estado. Eu, particularmente, sou de Toledo. A coordenadoria da nossa região representa 46 associações comerciais do Oeste do Paraná. Essas representações partem da base, nas associações comerciais, passam pelas coordenadorias, que discutem e interagem com os nossos representantes políticos em relação às questões macrorregionais.

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As pautas regionais são debatidas pelas coordenadorias, enquanto as pautas estaduais são representadas pela nossa federação. Realizamos reuniões mensais, em Curitiba, na sede, com representantes de todas as regiões do estado, sempre defendendo os interesses do setor produtivo. Também temos uma cadeira de titular e outra de suplente no Sebrae Paraná, participamos de diversas instituições estaduais e integramos o G7, onde atuamos em conjunto com as demais federações que representam o setor produtivo empresarial paranaense.

Tribuna do Paraná: Os dados de maio de 2026 da FACIAP/SPC Brasil acenderam um alerta: a inadimplência no Paraná cresceu 8,51% em um ano, e o ritmo mensal de aumento superou a média nacional. Mais de 61% dessas dívidas estão concentradas nos bancos. Como chegamos a esse cenário?

Flavio Furlan: “O que está faltando é educação financeira. Hoje, o governo federal criou facilidades que, na verdade, são ilusórias. Temos os empréstimos consignados, que, embora a responsabilidade pelo pagamento seja do empregado, o repasse passou a ser responsabilidade do empregador. Eu sou industrial, tenho 950 empregados na fábrica e praticamente 50% destes têm algum empréstimo descontado em folha. Isso acaba se tornando uma bola de neve. Se você não tem educação financeira e recebe a oferta de um empréstimo para cobrir as contas, com juros de 2% ao mês, pode parecer barato em comparação ao cheque especial, que hoje chega a 8% ao mês. Mas não é, porque, em menos de um ano, uma parte significativa da sua renda já estará comprometida com essa dívida.”

Tribuna do Paraná: Esse impacto hoje extrapola a saúde financeira dos trabalhadores?

Flavio Furlan: “Temos outros problemas. Entrou em vigor a NR-1, que passou a incluir os riscos psicossociais. Na prática, ela determina que as empresas adotem medidas para promover um ambiente de trabalho saudável. E a inadimplência afeta diretamente o bem-estar das pessoas. Quem está endividado não passa bem. Isso traz impactos para a qualidade de vida, para a saúde mental, para o sono e para o desempenho no trabalho. Ou seja, cria-se um conjunto de problemas decorrentes da inadimplência, que muitas vezes é consequência da falta de educação financeira e do desconhecimento sobre o peso de assumir vários empréstimos ao mesmo tempo.” 

Tribuna do Paraná: Já que entramos no tema, passaram a vigorar as novas regras do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Qual é o maior receio do empresariado quanto à fiscalização dessa nova norma?

Flavio Furlan: “A NR-1 não é uma norma recente. Ela existe desde 1978. O que houve agora foi uma atualização para adequar os controles que as empresas precisam adotar no ambiente de trabalho em relação à segurança, tanto física quanto mental. No período pós-pandemia, tivemos uma transformação nas relações de trabalho. Muitas empresas passaram a adotar o home office, e o PGR ganhou uma abrangência maior. Não basta o empregador dizer que o funcionário vai trabalhar em casa. É preciso oferecer condições adequadas para isso. O ambiente onde esse trabalhador vai prestar serviço precisa atender a requisitos de ergonomia, iluminação e outros aspectos relacionados à saúde e à segurança. Isso também passou a ser uma responsabilidade do empregador.”

Tribuna do Paraná: E como atender a essas novas normas?

Flavio Furlan: “Temos 38 normas regulamentadoras, que disciplinam a forma de trabalho e estabelecem programas de prevenção voltados à saúde física e mental do trabalhador. Ainda há muitas discussões sobre a forma de fiscalização dessas regras. Por isso, temos trabalhado, tanto no sistema federativo quanto nas associações comerciais, orientando sobre a necessidade de criar mecanismos e de olhar com atenção para essas transformações no mundo do trabalho. Convivemos com automação, teletrabalho e questões relacionadas à ergonomia. Não basta apenas evitar um trabalho repetitivo. É preciso garantir um ambiente de trabalho saudável.”

Tribuna do Paraná: A aprovação do fim da jornada 6×1 pela Câmara é outra discussão que gerou forte reação do setor produtivo no Paraná, com entidades apontando o risco de demissões e um aumento de até 22% nos custos trabalhistas. Como os diferentes comerciantes vão sentir esse impacto?

Flavio Furlan: “Existem situações muito diferentes de impacto entre a indústria, o comércio, a prestação de serviços, variando conforme o porte das empresas. Essa é uma discussão política, não uma discussão sobre a jornada em si. A construção civil, por exemplo, trabalha há mais de duas décadas com a jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso, compensando a jornada de sábado. Então, é preciso entender as particularidades de cada setor, mas ainda não temos clareza sobre esse impacto.

No setor têxtil, por exemplo, estimamos um aumento de 22% nos custos de produção, considerando apenas a folha de pagamento. Hoje já convivemos com uma taxa de juros extremamente alta, que dificulta novos investimentos. Para absorver uma nova jornada, haverá aumento nos custos da cadeia produtiva, e isso, inevitavelmente, será repassado ao consumidor. Tudo isso reduz a competitividade da indústria brasileira em um mercado globalizado. O que nos preocupa é que não estamos preparados para assumir mais esse aumento de custos sem estudos específicos para cada setor.”

Tribuna do Paraná: Acredita que a forma como a discussão está sendo conduzida condiz com as demandas do trabalhador?

Flavio Furlan: “Historicamente, essa discussão sempre ocorreu entre sindicatos e empresas, respeitando as características de cada categoria. Hoje existem mais de 17 mil sindicatos no Brasil e, sinceramente, não sei qual será o papel deles se houver uma imposição legal sobre esse tema. Uma norma desse tipo engessa a negociação coletiva. Muitos sindicatos poderão perder espaço, porque restará apenas discutir a correção anual dos salários. E essa é uma discussão muito limitada. Se a empresa perde competitividade, a margem para conceder reajustes além da inflação também diminui. Além disso, há uma confusão entre escala de trabalho e limite de jornada. Muita gente que participa desse debate não conhece, de fato, o custo das horas extras, a forma como esse cálculo é feito e o impacto que isso gera no custo de produção. Na nossa avaliação, se houver a adoção da jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso da forma como vem sendo discutida, haverá um aumento significativo dos custos, com reflexos na inflação.”

Tribuna do Paraná: A FACIAP vê espaço para um meio-termo na discussão que tramita no Senado, como a flexibilização para 40 horas semanais por acordo coletivo, ou o modelo atual é considerado inviável?

Flavio Furlan: Os estudos demonstram que a produtividade do trabalhador brasileiro ainda é muito inferior à de trabalhadores de países desenvolvidos. Se nem com uma jornada de 44 horas conseguimos atingir o nível de produção de um trabalhador americano ou chinês, não vejo como a simples redução da jornada possa beneficiar o trabalhador. De nada adianta ter mais horas livres e menos poder aquisitivo. Qual é a vantagem de ter tempo para levar o filho ao cinema se não há dinheiro para comprar a pipoca? Na minha visão, a discussão deveria começar pela redução dos custos da folha de pagamento e da carga tributária incidente sobre ela. É claro que todo mundo sonha em trabalhar menos. Não é essa a questão. No cenário atual da nossa economia e diante dos elevados custos tributários sobre a produção, não vejo espaço para uma redução da jornada.”

Tribuna do Paraná: Desde o início do ano, o Brasil está em uma encruzilhada devido às guerras e ao tarifaço. A FACIAP já se pronunciou demonstrando preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos aumentarem as tarifas sobre produtos brasileiros. Quando falamos sobre o tema, a preocupação é como isso chega ao bolso do consumidor final, mas como isso tem chegado ao bolso dos empresários?

Flavio Furlan: “Esse aumento de tarifas para determinados setores, anunciado pelos Estados Unidos, também abriu oportunidades em outros mercados. Logo após as primeiras notícias sobre o chamado ‘tarifaço’, diversos países da África e do Oriente Médio, que não mantêm uma relação regular de importação e exportação conosco, procuraram a nossa federação por meio de suas embaixadas. O que mais nos preocupa, porém, não é essa taxação específica dos Estados Unidos, mas, por exemplo, as restrições à exportação de carnes para a Europa. Muitos dos produtos que mais exportamos para os EUA, como madeira, suco de laranja e café, ainda terão suas tarifas revistas ou até mesmo isentadas. A própria economia americana depende de diversas matérias-primas que o Brasil exporta, o que naturalmente levará esse tema ao debate interno.”

Tribuna do Paraná: O senhor avalia que a diplomacia brasileira atual tem sido técnica o suficiente para proteger os interesses de estados exportadores como o Paraná?

Flavio Furlan: Esse cenário é como uma adaptação do mercado internacional, na qual precisamos melhorar e nos profissionalizar cada vez mais. O que me preocupa é a falta de proatividade do governo federal em algumas questões estratégicas. A restrição da carne ao mercado europeu é um exemplo. Há anos a União Europeia alerta que é necessário implantar mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva, inclusive em relação aos agentes biológicos utilizados no combate a carrapatos e outros parasitas da produção animal. Se esse sistema de rastreamento estivesse plenamente implementado, provavelmente não enfrentaríamos esse tipo de barreira. O que temos observado é uma falta de atenção dos órgãos federais às novas exigências do mercado internacional.” 

Tribuna do Paraná: Pensando nas eleições deste ano, quais são as prioridades inegociáveis que a FACIAP vai colocar na mesa dos candidatos paranaenses neste ano?

Flavio Furlan: “Temos um mapeamento das necessidades e das prioridades para o desenvolvimento da nossa cadeia produtiva. O Paraná vive um crescimento exponencial, especialmente na indústria e na agroindústria, impulsionado pelas grandes cooperativas. No entanto, estamos chegando ao limite da nossa capacidade logística. Não adianta ampliar a produção se não houver meios adequados para escoá-la. Há cerca de 30 anos discutimos a implantação de uma ferrovia que ligue o Oeste do Paraná ao Porto de Paranaguá. Tivemos recentemente as concessões de pedágio, que preveem um grande volume de investimentos nos próximos sete anos, mas o setor produtivo precisava dessa infraestrutura para ontem. A necessidade de ampliar os corredores de escoamento já é uma realidade.

O Porto de Paranaguá vem batendo recordes de exportação, mas também opera próximo do seu limite. Enquanto isso, Santa Catarina avançou. No Paraná, ainda enfrentamos discussões ambientais que precisam ser resolvidas em um futuro muito próximo. Precisamos do apoio do Ministério Público, especialmente do Ministério Público Estadual, e de um diálogo mais aberto e objetivo com os órgãos de fiscalização ambiental para que essas obras possam avançar com segurança jurídica e responsabilidade ambiental.”

Tribuna do Paraná: A infraestrutura como demanda será uma das grandes bandeiras dos candidatos ao Governo do Paraná. A discussão já inicia reflete a realidade ou ainda está aquém das necessidades?

Flavio Furlan: “O que não pode acontecer é os órgãos responsáveis pela infraestrutura dizerem que, em comparação com outros estados, o Paraná está muito bem. Essa justificativa não se sustenta, porque cada estado tem uma realidade diferente e níveis distintos de desenvolvimento. No âmbito do G7, é importante destacar que essa não é apenas uma pauta da FACIAP. Nossos associados incluem produtores rurais, prestadores de serviços, indústrias e o comércio. Por isso, estamos alinhados com a Federação das Indústrias, a Federação do Comércio, a Federação da Agricultura e as demais entidades. Posso adiantar ainda que o G7 está desenvolvendo um estudo conjunto sobre políticas públicas, justamente para construir propostas integradas voltadas ao desenvolvimento do Paraná.”

Tribuna do Paraná: Além da infraestrutura, o que merece atenção no estado?

Flavio Furlan: Precisamos olhar para cada ciclo da economia, especialmente para a agricultura, as safras e os insumos da produção, de forma específica. Quando se fala em benefícios para determinados setores, muitas vezes parece que são privilégios, mas, na verdade, é preciso acompanhar a dinâmica da economia global e entender as necessidades de cada segmento. Não podemos tratar a economia como se todos os setores fossem iguais. Cada um tem uma realidade diferente.

Um exemplo é a questão do kit escolar. O Estado realizou uma licitação e a empresa vencedora é de São Paulo*.Temos cerca de 21 mil empresas entre livrarias e papelarias no Paraná que deixam de faturar e, consequentemente, deixam de gerar arrecadação para o Estado. Não podemos analisar uma situação como essa de forma simplista. É necessário considerar os efeitos sobre a economia paranaense sempre que uma decisão desse porte é tomada. Abrimos uma pesquisa interna para identificar quais são as prioridades de cada setor e, a partir desse diagnóstico, elaborar propostas de políticas públicas que consideramos necessárias para apresentar ao Governo do Estado e aos futuros governantes.”

Tribuna do Paraná: Com a proximidade das eleições, reascende o alerta de assédio eleitoral no ambiente corporativo. Onde está a linha tênue entre o debate político saudável e as práticas que configuram abuso do poder econômico dentro das organizações?

Flavio Furlan: “Trata-se de uma área bastante sensível, porque existem limites claros sobre o que pode e o que não pode ser feito durante o período eleitoral. O principal ponto é a liberdade de voto. Nas eleições passadas, vimos diversas ações civis públicas propostas pelo Ministério Público do Trabalho contra empregadores que entravam nas linhas de produção para manifestar apoio a determinados candidatos e, em alguns casos, faziam ameaças, dizendo que, se determinado candidato não fosse eleito, os trabalhadores perderiam o emprego. Esse tipo de imposição ou intimidação precisa ser evitado.

O que defendemos é a orientação e a conscientização. As regras já estão estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral, e elas deixam claro que qualquer pessoa pode expressar sua opinião pessoal. O que não pode ocorrer é que essa manifestação seja feita com caráter de ameaça, constrangimento ou qualquer forma de restrição à liberdade de pensamento e de voto dos trabalhadores.”

*A reportagem solicitou ao Governo do Paraná um explicação sobre a escolha da empresa vencedora do edital. Em nota, a Secretaria Estadual de Educação (Seed) informou que a contratação segue um processo licitatório garantindo ampla concorrência, isonomia entre os participantes e total transparência e, por isso, não pode escolhê-los com base em localização geográfica.

Os editais não podem estabelecer critérios que restrinjam a participação de empresas em razão de sua localização geográfica. Assim, vence a licitação a empresa que atende a todos os requisitos técnicos e legais previstos no edital e apresenta a proposta mais vantajosa para a Administração Pública. Cabe destacar que, no contrato referente ao período de 2024 para 2025, a empresa vencedora era sediada em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. Já para o período de 2025 para 2026, a empresa responsável pelo fornecimento dos kits destinados ao Ensino Fundamental I e ao Ensino Fundamental II também é sediada no Paraná“, diz a nota.