Com sete mandatos na Câmara Federal e um histórico como ministro, líder de governos e relator-geral do orçamento, o deputado federal Ricardo Barros tenta nestas eleições garantir mais 4 anos no centro do poder político brasileiro. Em entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, ele reafirmou sua fama de articulador e falou sobre os bastidores da disputa pelo Governo do Paraná, que teve uma mudança considerável a partir de uma interferência sua.
Também falou sobre o poder do “centrão” na condução da política brasileira, de projetos inéditos, como o metrô de Maringá (o primeiro do Paraná), sobre sua família ser formada por políticos, sobre o quão decisivo será o voto dos eleitores de Curitiba para a escolha do substituto de Ratinho Júnior e sobre a principal polêmica de sua carreira, quando foi alvo de uma CPI durante a pandemia da Covid-19.
Falou também polarização e o perigo real que o Brasil vive sob influência do ativismo jurídico. Leia a entrevista completa a seguir:
Tribuna do Paraná: O senhor é conhecido por ser um articulador político que dialoga bem com direita, esquerda e o centrão. Como está a política brasileira, em especial a do Paraná, em termos de funcionamento?
Ricardo Barros: Sempre tive características de liderança. Fui prefeito (de Maringá) e já estou há 38 anos como deputado federal. Então tenho bastante experiência nisso tudo. São sete mandatos na Câmara Federal, fui ministro e, principalmente, relator-geral do orçamento. Considerando minha trajetória na Câmara, além do orçamento – que é minha especialidade –, a articulação é onde me sinto bem. Fui líder de todos os governos em que participei, à exceção deste atual, que a polarização não nos permitiu. Olhando para os motivos que me levaram para a política, meu objetivo é trazer resultados. É meu lema, inclusive. E, para que eu possa obtê-los, preciso ter um relacionamento amplo e respeitoso, e um diálogo pragmático com todas as forças envolvidas na resolução de um problema, seja ele qual for. Fui vice-presidente do Progressistas por oito anos e há dez sou tesoureiro, que é uma função que também me permite conversar com todos os estados. Além disso, como ministro da Saúde, pude também ampliar essa atuação. A articulação é algo que eu gosto de fazer para produzir resultados visíveis. As pessoas, tanto de direita, esquerda ou centro, me reconhecem, porque tudo que eu prometo eu cumpro.
Tribuna do Paraná: Entre sucessos e eventuais insucessos, qual é o balanço que você faz da sua carreira política?
Ricardo Barros: Sou um político bem-sucedido pelos objetivos que tracei para mim. Todos foram devidamente alcançados. Mas não sou eu sozinho. Temos um time, um grupo político. O time do Progressistas do Paraná é muito articulado, forte e coeso, sempre respeitando o conjunto, as particularidades de cada um. Não cerceamos ninguém só porque ele é diferente. Então, a cada eleição, as pessoas reconhecem nosso trabalho. Eu gosto de fazer política.
Tribuna do Paraná: A leitura do “poder” na política tem várias interpretações, dependendo do seu contexto, dos personagens. O senhor é deputado há muitos anos, já foi ministro e até tentou o Senado. Nunca pensou em seguir outro caminho na política?
Ricardo Barros: Quando fui candidato ao Senado, foi uma questão de oportunidade. Fiz quase 2,2 milhões de votos e não me elegi por pouco. Mas estar no Senado ou na Câmara, para fazer o que eu faço, não muda muita coisa. Minha capacidade de articulação, de trazer recursos e resultados para o Paraná, para as cidades que eu represento, seria praticamente a mesma. O senador tem sempre a possibilidade de disputar outro cargo no meio do mandato, mas eu nunca quis isso. Então, estou bem satisfeito com o meu trabalho. Sou um político de articulação, de bastidor, não na linha de frente. Por isso, ser deputado federal é muito confortável para mim, pois posso transitar em várias esferas da política e administração.

Tribuna do Paraná: Considerando a função “fim” de um deputado, ser mais articulador do que legislador não acaba lhe prejudicando no objetivo de deixar a sua marca? Conseguiu aprovar bons projetos de sua autoria?
Ricardo Barros: Minha função é ser articulador. Não sou um legislador, nem um debatedor. Não sou uma pessoa de usar a tribuna da Câmara e nem de ficar escrevendo. Sou uma pessoa de aprovar aquilo que é possível. A política é a arte do possível. Então, dentro do que me propus, estou satisfeito.
Tribuna do Paraná: O senhor acha que isso repercute bem para o eleitorado? Para o eleitor mais leigo, a função do deputado não seria exatamente a de criar leis e fiscalizar o governo?
Ricardo Barros: Isso é como a imprensa e os analistas políticos caracterizam os parlamentares, mas cada um tem um talento. Eu sou um articulador. E articulamos o quê? Por exemplo, trouxe recursos para o Contorno Norte de Maringá, uma obra de R$ 1 bilhão com financiamento a fundo perdido do Governo Federal. Fizemos o rebaixamento da linha férrea de Maringá, que é o metrô. Uma linha de 7 quilômetros e meio. Está pronto. Nossa cidade é a única do Paraná que já tem metrô. Só não utilizamos por causa da demanda, que não exige ainda o funcionamento. Mas vamos precisar quando construir um aeroporto rodoaeroferroviário integrado, e vamos usar a linha do trem para trazer as pessoas do aeroporto para o centro. O recurso do Contorno Sul-Metropolitano, que tem R$ 400 milhões agora, no fundo perdido, e mais R$ 500 milhões que estão na obrigação da pedageira (empresa concessionária que administra estradas e pedágios). O Aeroporto de Maringá, que já fizemos um investimento muito alto, é a maior pista do estado e é administrado pela prefeitura. Hoje tem o ILS (Sistema de Pouso por Instrumentos) e vamos ampliar ainda mais. É um aeroporto de carga. São investimentos milionários. O Hospital da Criança, uma referência muito forte, uma obra de R$ 200 milhões, funcionando bem.
Estamos articulando agora com o deputado Toninho Wandscheer o Fundo Constitucional do Sul e Sudeste, uma PEC, que iniciamos a articulação com o Borges da Silveira e já tem comissão especial e estamos esperando oportunidade para aprovar no Congresso. Quando fui ministro da Saúde, homologuei toda a rede de urgência e emergência do SAMU no Paraná, o que implica em pagamentos em dobro para todos os hospitais que estão na rede. Todo serviço de saúde recebe duas vezes a tabela SUS por cada procedimento. Então, ao longo desses anos desde que eu deixei o ministério, são bilhões reais que vieram a mais para a saúde do Paraná. Então sou um deputado de entrega, não de tribuna, de discurso, da lacração. Sou de resultados e isso se constrói respeitando a institucionalidade, o presidente da República, o governador e prefeitos eleitos pelo povo.
Tribuna do Paraná: O senhor levantou a bola, então me fale sobre esses deputados, vereadores, que hoje parecem usar seus cargos para conseguir likes e engajamento nas suas redes sociais. Como o senhor avalia essa nova geração de políticos? São reflexos da sociedade que os elegeu?
Ricardo Barros: Eles estão na cota do que eu chamo de voto de opinião (Nota da edição: candidatos que agradam a opinião pública ou um grupo específico). Existe sempre, em toda eleição, um eleitorado que vota por escolha própria em alguma causa que lhe atrai. Então nós tivemos, na eleição do Bolsonaro, muitos militares eleitos no Congresso Nacional, depois, por causa da pandemia, muitos médicos e secretários da Saúde. Agora a causa animal cresceu muito, muita gente se elegeu por isso. Autismo é uma pauta crescente, os representantes dessa área devem ser bem votados. Nessa, talvez na outra eleição, seja outra onda. 20% das cadeiras são votos de opinião, que se alternam a cada eleição. E 80% é política orgânica, de quem tem base. Prefeito, vereador, igreja, sindicato, que tem uma base, um grupo que os elege, garante votos. Os parlamentares do voto de opinião são cíclicos, não conseguem permanecer muito tempo no exercício da função, porque a onda muda, o assunto muda, e aí eles ficam fora do debate. Mas, como você disse, é um reflexo da sociedade. Temos todo tipo de representante e é por isso que o Congresso representa o povo brasileiro.
Tribuna do Paraná: Essa sua habilidade de articulador te colocou em algumas situações complicadas? Ao longo dos últimos anos, seu nome esteve envolvido em escândalos de corrupção, durante a pandemia, denúncias de recebimento de propinas. Dessas situações, acha que foi injustiçado, que culpa o senhor teve?
Ricardo Barros: Eu fui relator da Lei de Abuso de Autoridade. Ou seja, eu fui escolhido o relator de uma matéria para enfrentar o Judiciário. Aceitei a tarefa e, obviamente, me custou alguma retaliação. Respondi muitos processos por conta de meus adversários. Eu nunca tive problemas, porque ganhei todos esses processos. Teve o caso da Covid, você lembra…
Tribuna do Paraná: Esse foi o mais difícil? Teve mais projeção a nível nacional.
Ricardo Barros: Não foi difícil, pois eu não devia nada. Então, eu estava bem tranquilo, mas ficamos sob fogo cerrado. Era todo dia televisão batendo em mim. Mas eu tive a confiança do presidente Bolsonaro, que não me tirou do cargo de líder do governo; afinal, não era eu que estava sendo atacado, mas sim o próprio presidente. Quando querem atacar o presidente, atacam os líderes de governo. É o que está acontecendo com o Jaques Wagner agora, que é o líder do governo e está sendo alvo de uma operação. Se ele deve ou não deve, ele que vai provar. Eu provei sempre que não devia. Não tenho mágoa nenhuma, porque não devia. Acho que faz parte da política e não tenho problema nenhum em estabelecer a articulação. Em todos os meus escritórios tem uma mesa de xadrez, que é o que eu faço. É estratégia, é articulação. Não é minha índole atacar meus adversários. Nunca fiz isso e nem tenho tempo para isso. Mas é da política. Mas hoje você não vê nenhum promotor dando coletiva… isso é a Lei de Abuso de Autoridade. Não vê pessoas sendo filmadas presas às 6h. É a lei do abuso de autoridade. Isso porque pode ser que as pessoas não sejam culpadas, como aconteceu comigo em todos os processos em que fui acusado e não provaram nada.
Não tenho problema com as acusações, faz parte da política e toda eleição acontece. Tenho uma trajetória política que me permite superar qualquer tipo de ataque. Meu eleitor já se acostumou. A gente prova que não deve. Esse ativismo político do Judiciário, sim, é um problema muito grande no Brasil hoje e que precisa ser combatido. O Judiciário deve permanecer despachando em processos e não querendo ser protagonista de eleição, como estão sendo agora no Rio de Janeiro. Eles têm presidente da Assembleia eleito. Tem que assumir o governo, mas não deixam ele assumir. Há interferência política, como quando tiraram e colocaram o Lula numa eleição, e tiraram o Bolsonaro dessa. Tudo isso é ativismo político do Judiciário. Eles querem e estão interferindo e tendo sucesso na pretensão de quem o povo pode e deve escolher.
Tribuna do Paraná: A Lei de Abuso de Autoridade não deveria abranger também essa questão do ativismo jurídico que o senhor menciona?
Ricardo Barros: Sim, claro. Lá na legislação fala assim: “Acusar quem sabidamente é inocente”. É abuso de autoridade e isso já coíbe muitos ataques que eram feitos gratuitamente. Se você pensar, a Fernanda Richa foi presa e nunca foi acusada de nada. Imagina uma pessoa ser presa e nunca ser acusada de nada. O Robson Andrade, presidente da Federação Nacional da Indústria, foi preso e nunca foi acusado de nada. Isso é abuso de autoridade. Então, a lei está aí para poder permitir a quem quiser recorrer dos abusos que sofreram. Mas, no caso da nossa legislação, você não pode processar o juiz e nem o promotor que lhe causou uma acusação indevida, você tem que processar o Estado brasileiro, que se quiser, regressivamente, encontra quem cometeu o erro. Então, acaba ficando meio inócuo. A lei está aí para isso. Foi o que eu fiz na Covid. Eu notifiquei todos os senadores por abuso de autoridade, porque todos eles sabiam que eu não devia. Fui ouvido por 2 horas na CPI, enquanto outros ficaram 10, 11 horas. Por que tão pouco tempo no meu caso? Porque liquidei eles. Me dispensaram e nunca mais me chamaram. Enfrentei eles e mostrei que estavam fazendo um circo e que metade do que foi falado lá não era verdade, que eles se prevaleciam do interesse da mídia que dizia que todos eram bandidos. Provei que não, e todas as denúncias foram arquivadas. Tive muitos ataques, que hoje são capital político para mim. Eu mostro que fui atacado, mas que não devo nada. Para o eleitor o importante é o que eu trago para o município.
Tribuna do Paraná: Aqui no Paraná, o senhor e seu partido protagonizaram recentemente uma história que mudou a configuração das eleições para o Governo do Paraná. O senador Sergio Moro estava no seu partido, mas o senhor disse publicamente que ele não seria candidato, forçando-o a sair e buscar outra legenda. O que aconteceu para o senhor ter tomado essa posição?
Ricardo Barros: Um posicionamento nosso.
Tribuna do Paraná: Mas quando receberam ele, não tinha nenhuma promessa ou projeto político? O que aconteceu?
Ricardo Barros: Nada. O senador Sergio Moro estava no União Brasil, foi eleito por lá. Na verdade, ele estava antes no Podemos, saiu de última hora e foi para o União e se elegeu lá. Quando foi feita a federação do União Brasil com o Progressistas, a expectativa era de que ele se integrasse, fizesse articulação política em torno do seu projeto. Mas, por alguma razão, pelo estilo pessoal de fazer política, ele não se aproximou dos parlamentares. Então, anunciamos que, na federação, o Progressistas não homologaria a candidatura dele. Ficamos oito meses com a federação pronta e ele não nos procurou para se integrar ao time. Quando ele percebeu que isso era necessário, ele até tentou uma interação. Mas com a decisão do Ratinho em ser candidato a presidente, e cancelar a aliança com o PL que tinha construído no Paraná, o Moro foi convidado pelo PL e foi para lá. Era muito melhor para ele, tinha mais identidade. Fez uma mudança correta, que lhe favoreceu. E nós cumprimos o nosso objetivo, que era não tê-lo como nosso candidato e agora negociar com qualquer das candidaturas, que é o que está acontecendo. Inclusive com ele mesmo, que percebeu a necessidade da convivência com a classe política e tem procurado o apoio da União Progressistas, com um comportamento muito dentro da expectativa que tínhamos lá no início, mas que ele achou que não era o caso. Filipe Barros, presidente do PL, tem feito uma interlocução ampla para aumentar a aliança. Tínhamos um posicionamento e conseguimos o nosso objetivo, que era não ter o Moro como candidato. Na federação temos gente que é Moro, que é Ratinho Júnior, que é Greca e tem gente que é da candidatura própria também. Ou o Belinati, ou até a Cida Borghetti. Nós ainda precisamos maturar isso internamente e precisamos do tempo necessário para tomar uma decisão, que não será unânime, mas que dará conforto a todos os companheiros do partido. Todos merecem ser bem tratados pelo partido.
Tribuna do Paraná: Então o senador Sergio Moro sabia que não seria candidato pela federação e só percebeu isso oito meses depois? Faltou traquejo político para ele entender o cenário?
Ricardo Barros: Nós anunciamos publicamente uma reunião da nossa executiva dizendo que ele não seria homologado, com a presença do presidente nacional do partido, Ciro Nogueira. Então estava resolvido, mas por alguma razão ele tinha expectativa de que pudesse superar esse assunto e, enquanto tratava com outros partidos, tentava permanecer na União Progressistas. Então, o ambiente que hoje está criado de diálogo, se tivesse ocorrido antes, talvez o desfecho fosse diferente.
Tribuna do Paraná: Tem uma tendência de posição para a União Progressistas hoje, aqui na eleição local?
Ricardo Barros: A federação está aberta para o diálogo com todos os candidatos. Não foi estabelecida ainda no Paraná uma comissão da federação, então ninguém tem autoridade para dizer se vai para cá, vai para lá. Eu estou falando aqui como um participante da articulação, mas minha posição não é determinante. Quando fizemos a reunião da executiva, sim, era uma decisão da executiva do partido. A presidente Maria Vitória é que articulou a reunião e a maioria decidiu. Não era nem a posição dela, mas era o partido. Agora nós vamos ter paciência para aguardar que aqui seja nomeada a comissão estadual (Nota da edição: não tem um prazo definido) e quando isso acontecer vamos fazer um debate. Nós temos correntes que tendem para todos os candidatos e também para candidatura própria. Vamos chegar a uma decisão mais confortável para todos, sem ninguém ser tratorado ou atropelado. O mais democrático possível.

Tribuna do Paraná: Como é que o termo “centrão” soa para o senhor? Para muita gente, causa desconforto, pois parece sempre algo que fica em cima do muro e oscila muito.
Ricardo Barros: É o centrão quem governa o Brasil. Se ganha a direita, é centro-direita. Se ganha a esquerda, é centro-esquerda. É o centrão quem decide as coisas no Brasil. O Lula não elegerá mais de 100 deputados nessa eleição. O Flávio Bolsonaro não elegerá mais de 100 deputados na eleição. Para aprovar uma lei precisa de 257 votos e uma emenda constitucional, 308 votos. Então quem decide as matérias mais relevantes é o centrão, claro, em acordo com direita e esquerda. Mas o centro sabe que sua responsabilidade é dar governabilidade para quem venceu. Então, se uma pessoa venceu a eleição, venceu com a maioria e precisa implementar o que é melhor para a maioria. O vencedor tem as propostas, mas cabe ao centro lhe dar condições de implementar aquilo que ele prometeu durante a campanha. Nós somos a governabilidade do Brasil. Desde a Constituição, o centro é quem decide o que é ou não aprovado.
Tribuna do Paraná: O senhor falou de direita, esquerda, o poder do centrão, e citou a polarização numa das respostas. Por que o centro nunca teve um candidato forte o suficiente para vencer uma eleição para presidente?
Ricardo Barros: Eu diria que isso é circunstancial, porque como o centro está sempre dando governabilidade a um governo, ele tende a apoiar esse governo no seu projeto. Nessa eleição, por exemplo, temos o PSD, que lançou o seu candidato (Ronaldo Caiado). O Ratinho poderia ter sido, ou o Eduardo Leite. Mas outros partidos, o MDB podia, mas no Nordeste é muito governista e os líderes já têm o seu compromisso com o governo de plantão. As alianças são construídas em cima de projetos de viabilidade eleitoral. Por isso não se une em torno de um candidato, pois ainda não surgiu alguém com esse potencial de atrair diversos partidos.
Tribuna do Paraná: O Ratinho Júnior não poderia ser esse nome? O que o senhor acha que aconteceu para ele decidir não encampar essa luta?
Ricardo Barros: Sim, tinha potencial. Em função do bom governo que desenvolveu aqui, o Ratinho tinha capital político pessoal muito grande. E, eventualmente, pudesse ser uma opção para essa eleição de presidente da República, mas dificilmente ele superaria o (Flávio) Bolsonaro e o Lula para ir ao segundo turno. A polarização é que estabelece esse cenário. Quem é de direita ou esquerda, só vai votar, não se preocupa muito com os atores deste processo. Mas eu acho que a decisão dele foi de caráter pessoal. (A decisão) Influenciou, obviamente, muito a eleição do Paraná. Se ele tivesse decidido logo que não iria disputar, não perderia a aliança com o PL e o cenário do Paraná hoje seria totalmente diferente.
Tribuna do Paraná: E isso acabou dando mais trabalho para o senhor, como articulador?
Ricardo Barros: É, deu muito trabalho. Está dando. Mas também isso aconteceu porque o Ratinho começou o seu debate sobre sucessão estadual com quatro possibilidades: Piana, Curi, Greca e Guto. Ele tinha essas opções para escolher uma chapa que fosse vencedora. Não escolheu o Piana, depois não quis o Curi e nem o Greca, que eram os mais viáveis politicamente, e substituiu o Guto pelo Sandro Alex, que não estava nas suas projeções iniciais. Então, olhando esse quadro, o que nos dá trabalho não é ele ter desistido de ser presidente, mas de escolher um outsider, um candidato que não era nem cogitado e inicia com pouca intenção de voto. Isso dificulta as alianças, a decisão dos partidos. Então o Ratinho, sim, ele está tendo muito trabalho para poder tentar compor uma aliança em torno do candidato que ele escolheu. Nós estamos ouvindo propostas de todas as correntes políticas e debatendo internamente. Acho que o cenário que está proposto é um cenário que não é impossível como muitos veem. Eu mesmo, quando fui prefeito de Maringá, tinha 1% nas pesquisas iniciais e venci a eleição. O Greca se elegeu aqui em Curitiba no PMN, que era um partido muito pequeno. A Cristina Graeml foi para o segundo turno sem nada de tempo de televisão.
Tribuna do Paraná: O Bolsonaro também.
Ricardo Barros: Exato, o próprio Bolsonaro concorreu com pouquíssima estrutura. E nós, lá em Maringá, fizemos o sucessor por mais dois mandatos, depois o vice, o Pupin saiu de 5%, e venceu. É possível com esse desenho político, seja pelo Ratinho ou por talento pessoal do candidato ou pela estrutura. No caso do Greca decorreu do mau governo do (Gustavo) Fruet e o povo queria alguém mais experiente, que não fosse surpresa. Tudo tem uma razão de ser. A do Pupin fizemos uma frente ampla e conseguimos vencer o PT no auge deles no Brasil. É possível o Sandro vencer, mas depende de algumas coisas, como uma grande estrutura política, com uma grande aliança.
Tribuna do Paraná: É uma tendência de cenário a briga ficar entre o Sandro Alex e o Sergio Moro?
Ricardo Barros: Ah, sim. Se olhar do ponto de vista da lógica, do pragmatismo eleitoral, sim. Mas tem variáveis, por exemplo, que não estão se confirmando, né?
Tribuna do Paraná: O que, por exemplo?
Ricardo Barros: Uma ampla aliança política, mas ele preteriu peças que não estão se submetendo à escolha que ele fez, como é o caso do Rafael Greca. Então, se você pensar que nós temos uma campanha com três candidatos de Curitiba (Greca, Moro e Requião Filho), vão disputar com alguém de Ponta Grossa, considerando que o eleitor de Curitiba é muito conservador, então qual é a perspectiva de ele conseguir uma grande votação em Curitiba? Nenhuma. Com o que eles estão contando? Com o apoio do Eduardo Pimentel, contra o Greca? Acho difícil.
Tribuna do Paraná: E tem que contar obrigatoriamente com Curitiba…
Ricardo Barros: Sem Curitiba não se faz um governador. Todos os governadores eleitos desde o Álvaro Dias foram prefeitos de Curitiba ou, no caso do Ratinho, disputaram contra alguém do interior, que foi a Cida. Então Curitiba é o peso maior da eleição. A equação Sandro Alex apresenta dificuldades em Curitiba, a não ser que surjam fatos novos. Não é impossível, mas não é nossa missão, pois não fomos chamados a participar da decisão. Por isso, temos interesse em avaliar se nos interessa ou não.
Tribuna do Paraná: Muita gente não enxerga com bons olhos a figura das famílias políticas. O senhor tem a sua esposa, Cida Borghetti, que já foi governadora, sua filha é deputada e seu irmão prefeito. Como o senhor analisa essa aversão das pessoas pela perpetuação de famílias na política?
Ricardo Barros: É uma questão de gosto. Quando o filho de médico é médico, quando o filho de advogado é advogado, quando o empresário consegue que o seu filho o suceda na administração da sua empresa, tudo isso é visto como sucesso. Tudo isso é visto como pessoas que fazem por amor àquela atividade gratificante. O lado positivo. Quando a gente consegue despertar nas pessoas que estão próximas o interesse por aquilo que nós fazemos, é porque eles entendem o benefício que aquilo traz para a população. Fiz boa dupla com o Doutor Batista, que teve muitos mandatos, o Nishimori que foi lançado por nós, o Evandro Júnior foi lançado por nós, pelo nosso grupo político. Divanir Braz Palma também, que foi deputado. Nós temos uma série de outras lideranças que fazem parte do nosso espectro de atuação política.
As pessoas precisam ter sua luz própria na política. Temos Ricardo Barros, Cida Borghetti e Maria Vitória. Não é uma transmissão de sobrenome. É uma oportunidade que cada uma dessas pessoas tem de mostrar seu talento para servir e resolver o problema das pessoas. Nós não usamos o nome para facilitar a transmissão do legado político, senão teríamos o mesmo nome. Cada um tem sua marca e personalidade, inclusive o meu irmão que tem a personalidade totalmente diferente da minha. E fui parceiro de muitos prefeitos de Maringá, que não eram do mesmo pensamento. Trouxe obras que começaram num mandato, terminaram em outro. Nós não olhamos para isso, nós olhamos para a nossa missão. Se ganhamos ou perdemos a eleição, não muda o objetivo principal, que é melhorar a vida das pessoas. É isso que vale na política.
Agora, imagina a dificuldade de um empresário quando ele percebe que nenhum filho quer tocar a empresa dele ou de um médico que construiu consultório, clientela importante, mas que não tem um sucessor. Se o filho quer ser o que o pai foi, percebeu que ele estava realizado na profissão e criou afinidade. Se não quer, é justo, mas deve ter tido algum problema, que não despertou nele o desejo da sucessão.

