Tribuna entrevista

Presidente da ACP defende modernização do comércio de rua no Paraná

Em um papo com a Tribuna, Paulo Sérgio Mercer Mourão, analisa os desafios urgentes do comércio de rua e avalia o impacto de debates nacionais como o fim da escala 6x1, entre outros temas. Foto: Higor Tchaika/ACP.

A Associação Comercial do Paraná (ACP) consolida-se como um dos principais pilares de apoio ao setor produtivo do estado. Por meio de sua rede de soluções e parcerias, a entidade estende sua capilaridade a cerca de 70 entidades parceiras no Paraná, alcançando um faturamento direto com quase 19 mil empresas. Indiretamente, essa engrenagem de serviços e convênios beneficia cerca de 40 mil associados e negócios integrados, que acessam o portfólio de soluções da ACP sem a obrigatoriedade de dupla filiação — um modelo que fortalece o comércio local e as associações do interior.

Nesta entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, o presidente da ACP, Paulo Sérgio Mercer Mourão, analisa os desafios urgentes do comércio de rua, avalia o impacto de debates nacionais como o fim da escala 6×1 e detalha os projetos de inovação e modernização tecnológica desenhados para garantir a competitividade das pequenas e médias empresas paranaenses. Confira:

Tribuna do Paraná: O prefeito Eduardo Pimentel propôs a revitalização do Centro de Curitiba, com mais segurança – uma pauta urgente, principalmente para o comércio. Como o senhor avalia o atual momento do comércio de rua na região central, em termos de fluxo de consumidores e de volume de vendas? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: O projeto do prefeito Eduardo começou com medidas simples, como a melhoria da iluminação, o aumento do policiamento ostensivo e a ampliação da cobertura da Muralha Digital. Inclusive, em uma próxima fase, deveremos integrar as câmeras comerciais a esse sistema. Houve uma redução sistemática da violência no Centro, embora ela não tenha acabado. Continuam a ocorrer arrombamentos de imóveis e furtos, mas em menor escala do que no passado. Agora, inicia-se a etapa de ocupação da região por meio de projetos de retrofit, atração de empresas e subsídio aos juros de financiamentos para a remodelação da atividade comercial.

O Brasil enfrenta hoje um problema crônico em relação à população em situação de rua. A ACP realizou uma reunião com diversas entidades, como a Polícia Civil, a Polícia Militar, a OAB e o Ministério Público, e agora discutiremos como atuar de forma adequada no atendimento a essas pessoas. Temos de entender que são cidadãos que necessitam de apoio social, financeiro e humanitário. Por outro lado, compreende-se o desgaste do empresário, que arca com os ônus de manter o comércio numa região com essa vulnerabilidade social. Trata-se de um problema de toda a sociedade.

Tribuna do Paraná: O senhor acredita que o avanço das tecnologias de monitoramento e da inteligência artificial tem trazido algum impacto prático? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Sim. Lembro-me de que, até pouco tempo atrás, a “gangue do Rolex” atuava na Avenida Visconde de Guarapuava. As vítimas iam à Delegacia de Furtos, os policiais sabiam quem eram os suspeitos, mas não havia como monitorá-los. Hoje, a tecnologia permite essa identificação com precisão. São Paulo implementou sistemas semelhantes com muita eficácia. Tanto é assim que, após as saídas temporárias, as autoridades conseguem reconduzir uma quantidade expressiva de detentos de volta ao sistema prisional. Curitiba também se prepara nessa direção e está na fase de integração das câmeras do comércio com a Muralha Digital.

Tribuna do Paraná: Como o senhor vê o comércio de rua, que enfrenta a concorrência estrutural dos shoppings, do e-commerce e de aplicativos de produtos vindos da China, como a Shopee e a Shein? Qual é o maior gargalo de infraestrutura urbana da região? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A maior dificuldade do comerciante de rua é, primeiramente, vender. Em segundo lugar, encontrar mão de obra qualificada. Em terceiro, a gestão do negócio e, em quarto, a questão da população em situação de rua. Note como esses fatores estão integrados. Como não há pessoas em situação de rua no shopping, o ambiente torna-se mais agradável para o consumidor do que a rua. Em contrapartida, ir ao shopping demanda mais tempo, pois exige estacionar o veículo, enquanto no comércio de rua há maior dinamicidade: o cliente estaciona com facilidade ou desembarca rapidamente para efetuar a compra.

A pandemia alterou profundamente os hábitos de consumo. Além disso, devemos compreender que o Brasil envelheceu devido aos avanços da medicina. Esse cenário gerou diferentes públicos e perfis de consumo. O jovem realiza quase todas as compras pelo celular. O cidadão de meia-idade, que está no mercado de trabalho, consome na rua. Para atender a esse público, é preciso oferecer qualidade na região: é combater a violência, dar tratamento humanizado à população de rua e zelar pela limpeza. É um conjunto de fatores que o município deve propiciar, e a cidade tem se esforçado. Tais esforços são suficientes? Não, é necessário muito mais.

O público mais velho mantém o hábito de consumir nos mesmos locais, mas muitas pequenas e médias empresas não se modernizaram. Com isso, o comércio envelhece, perde relevância e reduz seu fluxo de clientes. Costumamos debater muito a sucessão empresarial. Uma empresa que opera da mesma forma há 30 anos sentirá o peso do tempo em seus resultados. A inovação tecnológica hoje é muito rápida e dinâmica. Na ACP, buscamos trazer soluções que auxiliem o comerciante a se renovar; recentemente, trouxemos a Faculdade do Comércio e estamos criando o Hub de Tecnologia. Precisamos que o poder público, que dispõe de verbas para essa finalidade, incentive e ajude o pequeno comerciante a se modernizar, pois o meio digital já está totalmente integrado ao atendimento e ao processo comercial das empresas.

Tribuna do Paraná: Qual é a posição da ACP sobre a fiscalização do comércio ambulante? Como garantir uma concorrência justa também com o comércio formal?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A ACP defende o cumprimento das leis. O comércio formal submete-se a várias regulamentações que ordenam sua operação. O comércio ambulante também possui legislação e normas próprias que devem ser cumpridas. Toda fiscalização, principalmente junto aos pequenos empreendedores — e este deve ser o caso dos ambulantes —, deve ter caráter orientativo. Se o trabalhador possui licença, deve atuar estritamente conforme o que ela regula. Quem opera sem licença, infelizmente, prejudica aquele que paga taxas para manter o seu ponto comercial.

Tribuna do Paraná: A ACP defende a manutenção de um perfil comercial na área central ou apoia o incentivo a novos projetos para criar consumidores locais em outras áreas residenciais? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Atualmente, a estrutura das grandes cidades propicia o desenvolvimento de diversos centros comerciais descentralizados. Cada bairro possui o seu polo, o que permitiu a expansão de várias marcas. Esse fenômeno ocorre da mesma forma nos Estados Unidos e na Europa. Na realidade, o centro das cidades foi perdendo protagonismo na atividade comercial porque a população evitou o deslocamento em razão do tempo gasto no trânsito, já que a vida se tornou mais dinâmica.

Precisamos identificar a vocação atual do Centro de Curitiba. Sabemos que uma delas é o turismo. Os prédios históricos da cidade estão localizados aqui; são imóveis bem preservados e outros passarão por processos de retrofit. Com o aumento do turismo na cidade nos últimos anos — com taxas superiores a 30% ao ano —, é fundamental garantir que esses prédios ofereçam novos atrativos, como restaurantes e lojas, para atender à demanda turística. Além disso, o Centro deve ser ocupado por empresas de serviços, universidades e eventos.

Nos últimos anos, Curitiba perdeu postos de trabalho que chamo de empregos qualificados. Grandes corporações deixaram a região central durante a pandemia e não retornaram. Outras saíram antes, como o HSBC, deixando um vazio expressivo. O Centro sofreu um declínio e hoje necessita de incentivos para uma reocupação organizada. Há uma escassez crônica de mão de obra. Devemos incentivar as empresas de serviços a se instalarem no Centro para gerar empregos qualificados. Com isso, atrairemos profissionais qualificados para residir na região, melhorando a qualidade do comércio local. É uma engrenagem.

Tribuna do Paraná: Se houver projetos municipais para alterar o tráfego ou reduzir vagas de estacionamento para priorizar calçadões e mobilidade, como a ACP pretende mediar esse interesse dos lojistas que dependem desse acesso aos veículos? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Sempre que se instala uma ciclovia em uma via comercial, gera-se um impacto negativo no comércio local. Por outro lado, não se pode impedir o desenvolvimento urbano. O deslocamento deve ser facilitado de forma organizada, sem criar regras que beneficiem alguns em detrimento de outros. Toda intervenção em uma cidade grande exige a compreensão de seus impactos. Atualmente, qualquer ação bem planejada deve ser precedida de estudos de impacto comercial, social e de segurança viária. Dispomos de tecnologia para isso. Curitiba sempre se destacou pela inovação, mas o fator mais importante hoje é o diálogo do prefeito Eduardo Pimentel com as entidades produtivas, como a ACP, a Fecomércio, o Sinduscon, o CRECI e os sindicatos. Todas as entidades conseguem encaminhar suas demandas ao Executivo municipal. A decisão final de acatá-las ou não cabe, evidentemente, ao poder público.

Tribuna do Paraná: Mudando para um assunto em evidência: o impacto das relações de trabalho com o fim da escala 6×1. De que forma a ACP projeta o reflexo de uma eventual mudança na jornada sobre a operação das lojas de varejo?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A ACP vê com muita preocupação a ausência de um debate aprofundado nessa regulamentação. Se o projeto fosse conduzido com a devida seriedade, teria sido discutido no início do período legislativo, e não de forma intempestiva. O pequeno e médio empresário não recebeu a preparação tecnológica necessária nem para superar os impactos do pós-pandemia. A única maneira de reduzir a jornada de trabalho mantendo a viabilidade do negócio é substituir processos manuais por tecnologia. Os supermercados, por exemplo, já expandem suas áreas de autoatendimento. Toda ação realizada sem estudos de impacto prejudica a população em geral. Duvido que as grandes redes fiquem dependentes da jornada 6×1, mas a medida poderá causar uma redução expressiva nos postos de trabalho.

O setor bancário passou por isso: no passado, contava com dezenas de caixas operacionais; hoje, dispõe de dois ou três, pois investiu massivamente em tecnologia e autoatendimento. O pequeno comerciante, contudo, não tem essa facilidade. Muitas medidas adotadas têm gerado insegurança para o pequeno empresário, que representa a grande maioria do setor produtivo e o principal empregador do país. O regime do Simples Nacional foi criado para desonerar e descomplicar a contabilidade e incentivar a geração de empregos, mas hoje já perdeu parte dessa simplicidade. É preciso agir com prudência.

Na ACP, adotamos a escala 5×2, portanto a mudança não nos afeta diretamente. Contudo, para o comércio varejista tradicional, que opera de segunda a sábado até as 14 horas cumprindo a jornada de 44 horas semanais, a redução da escala obrigará o lojista a optar por fechar as portas no sábado ou na segunda-feira pela manhã, pois inviabiliza-se a contratação de um funcionário para cobrir apenas as quatro horas remanescentes na semana.

Uma alternativa viável seria o contrato por hora trabalhada, modalidade já prevista na CLT, mas o Brasil ainda se baliza pelo salário mínimo mensal. Seria recomendável discutir o conceito de hora mínima com todos os direitos proporcionais garantidos. Precisamos modernizar a legislação trabalhista. Quando o governo regulamentou o emprego doméstico com o intuito de ordenar o mercado, houve uma redução superior a 18% no registro em carteira desses profissionais. Decisões focadas no apelo midiático, sem diálogo com o setor produtivo, costumam gerar distorções. Essa discussão deveria ocorrer por meio de acordos diretos entre empregadores e empregados. O governo deve regulamentar para evitar excessos e garantir um ambiente de trabalho salubre e seguro. Os direitos sociais consolidados — como férias de 30 dias e repouso semanal remunerado — devem ser preservados em lei, mas intervir na jornada geral sem ouvir os setores envolvidos gera desequilíbrios na economia.

Tribuna do Paraná: Há argumentos de que a redução da jornada pode elevar a produtividade das equipes, enquanto entidades apontam o aumento dos custos. Qual que é o cenário real projetado para para as margens de lucro do comércio paranaense?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Não há estudos conclusivos que comprovem o aumento automático da produtividade com a mera redução da jornada. A proposta não traz dispositivos que obriguem o trabalhador ao descanso. Diante da realidade econômica brasileira, na qual os salários muitas vezes são insuficientes para cobrir o custo de vida, o funcionário que tiver o sábado livre poderá buscar uma segunda ocupação, como o serviço de transporte por aplicativo, resultando em maior desgaste físico. Temos operários de fábrica que residem distantes do trabalho e complementam a renda trabalhando como motoristas de aplicativo nos períodos de folga. Portanto, o argumento da produtividade carece de fundamentação empírica.

Em atividades estritamente criativas, o descanso de fato potencializa a produção, mas cada setor possui uma dinâmica própria. Se o problema central é a remuneração, discutamos a renda; se é trabalhar menos, criemos condições macroeconômicas que elevem a produtividade global do país. O Brasil possui uma produtividade baixa, carga tributária elevada e gastos públicos excessivos; o governo precisa realizar reformas estruturais antes de impor encargos dessa natureza ao setor privado.

Tribuna do Paraná: O comércio varejista do estado tem condições para absorver essa mudança de jornada de trabalho?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Eu não conheço nenhuma atividade que consiga absorver custos hoje no Brasil. A gente vem de uma crise prolongada desde o governo Dilma. O Brasil vem sofrendo, sistematicamente, crises que são escondidas através do resultado do agronegócio. Como o agronegócio cresce mais de 30% ao ano, os números macro do Brasil são muito bons, do Estado também são muito bons. Quando você vai ver a indústria de comércio, os do Paraná são muito melhores que os do Brasil, mas estão muito aquém do que deveria ser num país equilibrado. Isso está muito relacionado à queda de produtividade do brasileiro. Então, a gente precisa atacar um problema estrutural. Como é que eu melhoro a produtividade do Brasil? Isso se faz de várias formas: melhorando a capacitação do funcionário, dando ferramentas mais atualizadas para ele trabalhar, tendo um tempo melhor de deslocamento.

Se você analisar, será que eu preciso reduzir quatro horas de trabalho? E se eu reduzisse meia hora do trânsito por dia para o funcionário que gasta uma hora e meia para vir, uma hora e meia para voltar? Eu já teria essas quatro horas de descanso. Por que a gente não cria, então, formas do funcionário chegar mais rápido no trabalho? A vida dele vai ser melhor. 

Tribuna do Paraná: O setor comercial tem relatado dificuldades na contratação. O senhor avalia que a mudança de jornada pode interferir nessa atratividade do comércio, para atrair novos trabalhadores? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A criação de um benefício pode funcionar como um atrativo inicial. No entanto, o desenvolvimento profissional depende do esforço individual. Na ACP, mantemos um programa que subsidia 70% da graduação e 50% da pós-graduação de nossos colaboradores. O profissional não deve esperar que a empresa custeie integralmente sua formação sem contrapartida de esforço pessoal. As empresas capacitam o funcionário para a sua operação interna, mas a qualificação para o mercado exige proatividade. A atratividade ou a escassez de mão de obra dependem mais da postura dos profissionais do que da alteração da jornada.

Tribuna do Paraná: Com a possibilidade do fim da jornada de 6 x 1, a tendência do comércio aqui no Paraná será buscar novas contratações para cobrir turnos, esses buracos dentro da jornada, ou acelerar investimentos de automação?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: As empresas acelerarão os investimentos em automação; esse movimento já é visível. Haverá um rearranjo cujos efeitos exatos dependerão de cada segmento, mas não prevejo uma onda de contratações, até porque há escassez de candidatos no mercado. Atualmente, a formatação de programas sociais, embora necessária, gera distorções que dificultam o preenchimento de vagas operacionais. Há vagas abertas nas agências de emprego que permanecem ociosas, ou identificamos uma alta rotatividade de profissionais que deixam o emprego após poucos meses. Diante disso, a ACP desenvolve um programa voltado à qualificação do público “60+”, visando atualizar esses profissionais para as ferramentas digitais e reintroduzi-los no mercado de trabalho.

Tribuna do Paraná: Esse é um problema bem atual. A partir do ano que vem, o Paraná, pela projeção, terá mais idosos que jovens. 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Exatamente. Completei 60 anos recentemente. Embora a legislação me classifique como idoso, sinto-me pleno em termos de capacidade laboral; acredito, inclusive, que o marco legal dessa transição deveria ser revisto para os 70 anos. O profissional maduro está apto ao trabalho e, muitas vezes, necessita dele não apenas sob o aspecto financeiro, mas também pelo bem-estar mental. A inatividade prolongada pode desencadear problemas de saúde psicológica e psiquiátrica. O trabalho funciona como um ambiente de convivência, aprendizado e socialização. É fundamental manter o indivíduo integrado ao setor produtivo e social ao longo do envelhecimento.

Tribuna do Paraná: Há espaço para que as adequações dos horários e as jornadas ocorram por meio de convenções coletivas, por sindicato do comércio, das empresas, sem uma legislação federal rígida? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Historicamente, a atuação de parte das entidades sindicais no Brasil sofreu distorções, assumindo um viés político-partidário em detrimento da pauta econômica e trabalhista. Quando se sobrepõe a ideologia à lógica econômica, os resultados costumam ser prejudiciais ao setor produtivo. Por essa razão, não considero o ambiente sindical atual o espaço mais equilibrado para mediar de forma técnica as relações entre trabalhadores e empregadores.

Tribuna do Paraná: O senhor assumiu a ACP com foco em inovação. Como o pequeno comerciante de bairro, que foca na operação diária, ele pode aplicar uma inovação tecnológica para aumentar suas vendas? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A principal inovação é o sistema de gestão. Antigamente era uma coisa muito temida para o pequeno empresário, porque ele achava que você ia usar um sistema de gestão, o fiscal ia entrar na loja dele e apertar o botão. A informalidade terminou em grande parte dos negócios. Você tem que ter um sistema de gestão, auxílio na venda digital. O WhatsApp virou a maior ferramenta de vendas do Brasil na pandemia. O e-commerce é mais difícil, mas você vender por WhatsApp, montar grupos de pessoas na mídia social, é razoável. De alguma forma você tem que se modernizar e a Associação Comercial pode ser um bom parceiro para os comerciantes que queiram se atualizar. Eu falo que o comércio precisa se renovar senão envelhece. O negócio que envelhece, normalmente fica em declínio e entra em crise. A pessoa está insistindo ali, porque talvez ela ache feio fechar. Às vezes é melhor pensar e ver uma forma de sair do negócio, porque ela vai ter problemas sérios.

Tribuna do Paraná: Com o mercado cada vez mais agressivo, como a ACP avalia as políticas de incentivo e o apoio a negócios comerciais oferecidos pela atual gestão?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Com o Pimentel, a gente tem uma discussão contínua. O comércio de rua descobriu que eventos podem alavancar suas vendas. Nas cidades menores que a gente visita, as entidades têm gerado eventos semanais, mensais, que possam trazer público diferenciado para consumir. Esses incentivos podem ser uma boa. Curitiba melhorou muito nessa questão. Começou com os shows. Antes a gente tinha que ir para Porto Alegre, São Paulo. hoje Curitiba recebe todos os grandes shows que tem no Brasil. Esse ano é interessante porque o Athlético e o Coritiba estão na na primeira divisão do Campeonato Paranaense. O próprio futebol traz público de fora.

O comércio de rua precisa ser reconhecido. Quando você passa numa cidade, você olha alguma coisa na vitrine. Para as grandes redes, a vitrine é o celular. Você entra ali no Mercado Livre, Shopee, ou mesmo no site dessa grande empresa, fica procurando produto, vê preço. Então, é tirar a pessoa de casa e ir para a rua.

Tribuna do Paraná: O PIB do Paraná tem demonstrado um crescimento relativamente considerável. Esse avanço macroeconômico tem se traduzido em aumento real na compra, no faturamento do varejo? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Não. Essa é uma discussão que a gente tem que ter bastante cuidado, porque o agro movimenta um enorme capital e está concentrado em poucas pessoas. Ninguém questiona a importância do agro. A importância dele é vital. Temos que migrar para a agroindústria. Isso o Governo do Estado tem feito um movimento muito interessante, muito forte em indústria. Mas a gente não vê essa economia retornar para a cidade. Curitiba, nos últimos 10 anos, cresceu menos de 1%, enquanto a grande Curitiba cresceu 46%.

O agro comprou imóveis aqui na cidade de Curitiba. Se conversar com as principais construtoras, muitos imóveis foram vendidos para o agro. Na capital de São Paulo é a mesma coisa. Todo grande empresário do agronegócio tem uma segunda moradia na capital, provavelmente foi usado durante a semana, ou em algum momento que ele tenha interesse, mas ele não se refletiu no comércio de varejo básico da cidade. Comércio de luxo, sim. Se você perguntar nas grandes grifes, muitos compradores são do agro. 

Tribuna do Paraná: Quem movimenta o varejo? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Quem movimenta o varejo no dia a dia são os funcionários das empresas assalariados, que compõem as classes B e C, que trabalha todo dia e que precisa morar e consumir naquela cidade. Temos que ter uma atenção muito grande, por isso que tem que gerar emprego qualificado. Gerando emprego qualificado, você melhora o salário das pessoas e melhora a capacidade de compra das pessoas. É isso que vai gerar essa transformação do comércio de rua. 

Tribuna do Paraná: Com a regulamentação da reforma tributária que está em andamento, o senhor avalia que a bancada do Paraná, em Brasília, conseguiu de alguma forma blindar o comércio e os serviços contra esse aumento na carga líquida de impostos? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Não. O Congresso Nacional possui frentes parlamentares muito organizadas e eficientes, como a bancada do agronegócio, a frente evangélica e a bancada ambientalista. Embora existam comissões voltadas ao empreendedorismo, sua atuação política carece de coesão e força de articulação similar. O setor de comércio e serviços muitas vezes é o último a ser ouvido nas decisões macroeconômicas. O agronegócio e a cesta básica possuem desonerações justificadas pelo impacto social, mas é fundamental que haja maior equilíbrio regulatório para que a carga tributária do setor de serviços não inviabilize a atividade empresarial urbana.

Tribuna do Paraná: Quais são os principais entraves burocráticos que o investidor ainda enfrenta com o Governo do Estado na hora de abrir ou expandir uma filial comercial no Paraná?

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A Junta Comercial do Paraná se modernizou muito. Não vejo essa rapidez que se comenta, que abre e fecha uma empresa em quatro horas. Se você quiser empreender no Paraná, estamos num Estado que é privilegiado em relação aos demais. Eu acho que o maior problema de se empreender no Brasil é financiamento para começar as suas atividades.

A reforma tributária, embora seja uma coisa que o pequeno empresário não esteja preparado para ela, vai auxiliar muito nisso. Ela deve ter um reflexo importante na composição da carga tributária. Espero que ela possa reduzir no futuro. Às vezes, quando gera um superávit, a lei até prevê uma redução, deve retornar para o contribuinte. Eu vejo o Paraná como um local de excelência para isso. Das dez melhores cidades para se morar no Brasil, três são paranaenses. Então, alguma coisa está acontecendo de bom.

Tribuna do Paraná: O governo Ratinho Júnior encerra o mandato no fim do ano. Foram 2 governos consecutivos. Como a ACP avalia a gestão do Ratinho Júnior nesses últimos 8 anos? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Foi uma gestão muito boa. Isso se reflete nos números macro do Estado. Acho que quem pode melhorar a economia é o Governo Federal, com as grandes políticas tributárias – embora tenha tido aumento de carga tributária no Estado. Tivemos redução de do IPVA, várias outras coisas. Mas ao longo dos últimos anos, nosso ICMS subiu. Várias taxas subiram, não só no governo estadual como municipal. Teve aumento do IPTU, que atua diretamente na atividade comercial. Houve um incremento muito grande, mas houve uma contrapartida do governo, tanto em infraestrutura como em diálogo junto ao setor produtivo.

Tribuna do Paraná: Diante desse cenário de polarização na política do nosso país, como a sua gestão atua para manter a ACP focada nas pautas de interesse comercial e econômico e não pautadas nessa forte polarização? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: A ACP, desde a gestão do presidente Camilo durante a pandemia, entendeu que a associação deveria estar mais próximo do empresário. Foi quando o presidente Camilo defendeu a abertura do comércio de uma forma organizada. Na gestão do presidente Jerônimo, que eu participei como vice-presidente da área comercial, nós desenvolvemos várias soluções para estar junto do associado. O que eu vejo é que a gente tem que evitar a polarização, tem que trabalhar. Ficar discutindo se A é melhor que B, o Brasil é isso aí. A gente vive nessa gangorra há anos. O empresário brasileiro é o empresário mais resiliente do mundo.

Se a gente ficar reclamando, dizendo que aqui não presta, isso é para gente desocupada. Eu estou radicalizando um pouco porque a gente perde dinheiro nesses movimentos. Faz muito tempo que o empresário brasileiro não se remunera da forma adequada. Não podemos olhar por esse lado do país, ele tem que cobrar do governo, quer seja de direita ou de esquerda, que cumpra a Constituição. Esse é o maior problema, o cumprimento da Constituição Brasileira, Acho que esse é o momento mais grave que a gente passa na República Brasileira, não sabemos mais o que é certo e o que é errado. Ficar perdendo tempo com polarização não vai fazer o nosso negócio vender mais ou menos. 

Tribuna do Paraná: O seu mandato à frente da associação, qual é o indicador de desempenho social ou institucional que o senhor vai usar para medir o sucesso da sua gestão no comércio do Estado? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Eu estruturei essa gestão, que são 3 anos, com várias atividades e sempre amparado por algum tipo de estudo. A questão de inovação, estamos criando um hub de tecnologia que deve ficar pronto ainda este ano. Já está em reformas no mezanino da ACP e deve ser lançado ainda em julho o projeto. A gente criou um projeto da ACP nos bairros. Falamos muito do Centro de Curitiba, mas eu gosto de falar dos centros comerciais. Estamos fazendo eventos em parceria com entidades comerciais dos bairros, com o governo, com a prefeitura, com a saúde, educação, com o time de inovação, para levar soluções para os comerciantes dos bairros.

Nós estamos transformando o Instituto Barão do Cerro Azul em entidade e interesse social, para dar um retorno à sociedade. Toda a associação tem uma coisa que é muito importante, que é a isenção de impostos, de alguns impostos. Nada mais justo que você retribua para a sociedade, somente pela importância que a ACP tem, tamanho, tradição, projetos de cunho social, educacionais, culturais, de saúde.

Nós temos hoje cerca de 640 conselheiros na Casa. A ACP participa de mais de 50 conselhos no estado, município e de entidades produtivas. Cada conselho tem que ter um objetivo. A gente veio estruturando a ACP de uma forma que ela possa ter uma medição muito clara, e é a sociedade que vai definir. Eu tenho uma expectativa muito grande em poder ter uma influência positiva sobre mais empresários oferecendo soluções, dialogando melhor com a sociedade. A associação é um bom caminho de pessoas ou empresários poderem fazer uma demanda estruturada por um órgão público. O policiamento está muito mal feito aqui, a cidade está toda esburacada. Não vamos atender o problema de uma pessoa, mas foi um problema de uma comunidade ou de uma região, que isso está afetando a atividade empresarial.

Tribuna do Paraná: A ACP tem um papel muito importante nessa conversa dos empresários com entidades, com o setor político, com o setor econômico. O senhor pretende com essa experiência entrar na política para fortalecer o setor? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Você nunca pode dizer que você não vai exercer qualquer tipo de atividade. Na minha idade, sou sênior para a política. A política é uma coisa que, da forma que ela é feita no Brasil, tem que começar mais cedo. O empresário entra na política, com essa confusão que tem de quantidade de partidos políticos, de interesses, de polarização. Existem outras formas que o empresário pode auxiliar o poder público. Hoje, ser político no Brasil também não é fácil. A pessoa tem que estar engajada naquilo. Não pretendo seguir esse caminho diretamente. Existem outras formas de se participar de governo através de entidades.

Tribuna do Paraná: Vocês fizeram uma relação e tem se aproximado muito do Paraguai. Como a ACP tem se aproximado comercialmente de outros países? 

Paulo Sérgio Mercer Mourão: Sim, nós temos, esse é um fato importante. Nós temos um conselho, o Coninter [Conselho de Negócios e Relações Internacionais], que no passado chamava-se Concex [Conselho de Comércio Exterior], que se relaciona com diversas câmaras setoriais, diversos consulados de todas as regiões do mundo, da Europa, da Ásia, da América do Sul. Eu estou colocando um foco muito grande nos mercados que eu entendo que possa fazer mais sentido. Sou presidente da Associação Moveleira no Brasil, a Abimad, e a gente foca alguns mercados. Eu sou muito pragmático nisso. O país, vamos dizer assim, que mais compra do Brasil é a Flórida, não é os Estados Unidos. A gente tem que ter uma relação e entender o que é isso. Curitiba é uma cidade irmã de Orlando, se eu não me engano. São Paulo é de Miami e vice-versa. Curitiba é cidade irmã de Assunção, no Paraguai. Quais são os benefícios que tem nessas nesses locais?

O que a gente não tem aqui é a questão de tarifas. Há uma discussão muito complexa de liberar o imposto de importação, a taxa das blusinhas, que na realidade parece ser boa. Só que hoje, quando eu compro alguma coisa pelo modelo tradicional no Brasil, de US$ 50 no exterior, chega aqui a R$ 500. E quando a empresa for vender, se colocar todos os custos, vai vender por R$ 800. O ticket médio no comércio hoje é de R$ 305. Se eu libero uma coisa de R$ 500 sem imposto, mas o cara para vender R$ 305 tem uma carga tributária absurda. O Paraguai facilidade de importar pagando 1% de imposto. Então, pode ser que as empresas possam arranjar parceiros ou criar modelos integrados que reduzam o custo de importação. Talvez seja uma forma de alertar o governo.

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