A inauguração da Ponte de Guaratuba, prevista para a próxima quarta-feira (29 de abril), deve alterar o fluxo de veículos no Litoral do Paraná sem que os municípios vizinhos tenham concluído as obras de infraestrutura necessárias para o novo tráfego. O secretário de Obras de Matinhos, Claudio Amaranto, afirmou que a cidade não se preparou adequadamente devido a dívidas de gestões anteriores.
“Assumimos a gestão agora e nós, município de Matinhos, não tínhamos condição de fazer. Pegamos o município com dívidas. Demorou um ano para melhorar e encerrar as dívidas da gestão passada. Esse foi o nosso impasse”, declarou.
Ele teme que a nova ponte possa travar o trânsito. “O fluxo da ponte vai passar por dentro da cidade, parte pela rodovia estadual e parte pelas ruas municipais. Essa é a preocupação do município”, reflete.
Para garantir mais fluidez na região, trechos da Avenida Juscelino Kubitschek foram duplicados, mas não há acostamento e nenhuma via exclusiva para ciclistas — meio de transporte muito comum em Matinhos.
Na tentativa de retirar o trânsito do centro da cidade, Amaranto comenta que o Governo do Estado cogitou criar um desvio passando pela Mata Atlântica. “Vimos esse projeto, mas só ficou na fala. Nada saiu do papel”.
Do lado de Guaratuba, o secretário de Urbanismo foi procurado desde a última semana para se manifestar sobre o tema. Vilmar Faria Silva não concedeu entrevista. A assessoria da prefeitura informou que o secretário retornaria a ligação na manhã desta sexta-feira (24/04), o que não ocorreu até o fechamento desta reportagem.
Moradores aguardam a ponte de Guaratuba há anos
Para quem vive no Litoral, a Ponte de Guaratuba representa muito mais que logística, é turismo, comércio, mas também saúde pública. A moradora da região de Caieiras, em Guaratuba, Rosane Maria Aguiar, acompanhou a obra de perto.
Aos 56 anos de idade, ela revela que esperou a vida toda pela ponte. A inauguração da obra coincide com seu aniversário, dia 29 de abril. E recentemente, após enfrentar um grave problema de saúde que a levou para a UTI em Curitiba, ela reforçou sua conexão com a obra.
“Na UTI eu só ficava falando da ponte. Nasci esperando por isso e meu pai, que era pescador, faleceu há três anos sem ver esse sonho realizado”, conta Rosane. Para ela, a estrutura é a promessa de uma travessia eficaz. “Dependemos de hospital em Curitiba ou Paranaguá. Atravessar a balsa leva horas, e na cerração ela nem passa. Com a ponte, em 40 minutos estarei na entrada de Paranaguá”.
Ponte de Guaratuba pode provocar o temido “efeito funil”
É de se esperar um impacto na circulação dos municípios, analisa Tiago Bastos, professor do programa de pós-graduação de planejamento urbano da UFPR. Ele avalia que a nova ponte vai possibilitar que uma quantidade maior de veículos circule na região, podendo resultar em problemas no tráfego.
Quanto a restrições de peso, tonelagem máxima, e dimensões de veículos de carga, a nova ponte deve seguir as restrições similares do ferry boat. Apesar das limitações, a ponte pode atrair um novo fluxo — principalmente de quem vem de Joinville com destino a Paranaguá, por exemplo — que antes evitava a região justamente pela demora da balsa.
Atualmente, a travessia não permite a passagem de veículos com mais de três eixos (com mais de três pares de rodas no comprimento) e/ou comprimento superior a 14 metros. Além disso, o Peso Bruto Total (do veículo e da carga) máximo permitido da travessia é de 26 toneladas. A velocidade máxima na ponte será de 60 km/h, com redução da velocidade na rotatória e entornos — o que pode suavizar a transição entre rodovia-cidade.
“O cenário é a economia de tempo com a nova ponte, sem a espera do ferry boat. Com a ponte, parte desse ganho no tempo pode ser perdido por problemas de circulação. Não tratar dessa questão com os municípios vai contra a viabilidade do projeto”, defende Bastos.
O secretário de Urbanismo de Matinhos, Pedro Tavares, explica que o Conselho da Cidade tem atuado para buscar orientações e respostas junto ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER/PR), para construir estratégias para diminuir possíveis impactos na região.
No entanto, o secretário diz que obras que poderiam garantir melhorias na região ainda não saíram do papel. “Projetos de pavimentação e requalificação asfáltica de diversas vias do município estão em fase de elaboração e captação de recursos junto à SECID [Secretaria das Cidades do Governo do Estado]”.
Governo garante que acessos serão modernizados
Do lado de Guaratuba, o Governo do Estado pretende estruturar os acessos e vias do município para absorver o tráfego da nova ponte. Um projeto do Binário de Guaratuba foi apresentado no início de fevereiro e prevê um sistema com duas vias paralelas em cada sentido. Ao todo, o eixo terá a extensão de oito quilômetros, desde a saída da ponte até a PR-412, sentido Garuva. A rodovia estadual também está sendo duplicada.
A construção da ponte iniciou em 2023, será inaugurada no fim deste mês, mas o projeto do binário ainda está em fase que antecede a licitação. Ou seja, não tem ainda uma data prevista para acontecer. A ideia do governo é que a obra seja iniciada até a próxima temporada.
Para a margem do lado de Matinhos, o DER/PR só passou a analisar o impacto do fluxo na região recentemente. O órgão informou que está elaborando um termo de referência para embasar a contratação de um Estudo de Viabilidade Técnica e Ambiental (EVTEA) para apontar as melhores soluções para o trecho.



