O cenário mais emblemático de Paranaguá está prestes a iniciar uma nova fase. A emissão da Licença Prévia (LP) pelo Instituto Água e Terra (IAT) representa um passo decisivo para a revitalização da Orla Histórica e do Centro Histórico da cidade. A autorização atesta a viabilidade ambiental do projeto e abre caminho para as próximas etapas do licenciamento e da futura execução das obras.
O projeto será viabilizado por meio de parceria entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Paranaguá, com investimento estimado em R$ 50 milhões. A proposta integra um amplo plano de requalificação urbana e turística da região central da cidade, prevendo intervenções em mais de 55 mil metros quadrados, com melhorias em pavimentação, acessibilidade, iluminação pública, paisagismo, mobilidade urbana e valorização do patrimônio histórico e cultural.
De acordo com a secretária municipal de Planejamento e Gestão, Vânia Pessoa Rodrigues Foes, as obras devem começar no início de 2027, após a conclusão de estudos técnicos e do processo licitatório.
“A Licença Prévia foi emitida com uma série de condicionantes a serem cumpridas pela empresa vencedora da licitação. Essas exigências foram construídas em diálogo com órgãos como IPHAN, Marinha do Brasil, SPU e Secretaria Estadual da Cultura”, explica.
Entre os estudos previstos estão arqueologia subaquática, análises junto às comunidades ribeirinhas e projetos específicos para os trapiches. As obras deverão ocorrer em quatro etapas para minimizar impactos no fluxo da cidade.
Mais do que uma intervenção estética, a proposta busca requalificar a relação da população com a paisagem urbana e o patrimônio histórico.
“O importante é perceber que forma e função caminham juntas na arquitetura e no urbanismo. Muito além da estética, queremos incentivar o uso dos espaços e a valorização da paisagem urbana, do casario histórico do Rio Itiberê e das nossas comunidades tradicionais”, destaca Vânia.
A secretária afirma ainda que a revitalização integra um plano mais amplo para o Centro Histórico, incluindo modernização de praças, recuperação de calçadas e implantação de sinalização turística bilíngue.
Turismo, economia e autoestima
A expectativa do município é que a nova orla impulsione o turismo e fortaleça a economia local. Para o secretário municipal de Cultura e Turismo, José Reis de Freitas Neto, a revitalização terá impacto direto na autoestima da população.
“Uma orla reconstituída, bonita e organizada aumenta o orgulho do parnanguara. Isso mexe diretamente com o brilho das pessoas”, afirma.
Segundo o secretário, a revitalização deve ampliar o fluxo turístico e fortalecer setores ligados ao comércio, gastronomia, hotelaria e prestação de serviços.
Além das melhorias estruturais, o município aposta no fortalecimento do turismo náutico, ampliando a conexão entre Paranaguá, as comunidades da baía e os atrativos naturais e culturais da região.
“A gente está trabalhando as comunidades justamente para incrementar o turismo náutico. Temos lugares belíssimos, mas o visitante ainda não consegue chegar com facilidade”, explica.
Preservação ambiental e patrimônio
Por estar inserido em uma área sensível da Baía de Paranaguá, o projeto recebeu condicionantes ambientais específicas do IAT. Entre elas estão exigências relacionadas ao Plano de Controle Ambiental, gestão de resíduos da construção civil e programas de monitoramento ambiental.
“A revitalização poderá contribuir para a recuperação e estabilização de áreas suscetíveis à erosão, melhoria da drenagem urbana, ampliação de áreas permeáveis e organização do uso da faixa costeira”, afirma Altamir Hacke, chefe regional do IAT no Litoral.
A interface com o patrimônio histórico também exigiu atenção especial durante a elaboração do projeto. O município prevê a preservação do casario histórico, manutenção dos paralelepípedos e implantação de melhorias voltadas à acessibilidade e modernização urbana.
Olhar técnico e expectativa da população
Para quem vive Paranaguá diariamente, a revitalização representa uma oportunidade histórica de transformação urbana. O servidor público André Santos Cancella acredita que o projeto pode reposicionar a imagem da cidade sem perder sua identidade cultural.
“O Centro Histórico é o principal cartão-postal de Paranaguá. Modernizar a região sem descaracterizá-la é plenamente possível, principalmente em aspectos ligados à infraestrutura, iluminação, mobilidade e recuperação dos trapiches”, afirma.
Ele ressalta que o município convive há décadas com os impactos da atividade portuária e considera que Paranaguá merece investimentos proporcionais à sua importância econômica.
“O litoral vem recebendo uma série de investimentos em infraestrutura e Paranaguá não poderia ficar de fora. A cidade paga um preço alto pela atividade portuária e precisa de melhorias que reflitam essa importância”, diz.
Já o arquiteto e urbanista Rodrigo Sartori Jabur, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, avalia que a revitalização exige atenção especial por envolver uma das áreas históricas mais simbólicas do Paraná.
“A Rua da Praia e a orla do Itiberê representam a porta de entrada histórica de Paranaguá. Existe ali uma memória ligada à atividade portuária, à circulação das comunidades da baía e à própria formação urbana da cidade”, explica.
Segundo ele, projetos de requalificação em áreas históricas precisam considerar aspectos culturais, urbanísticos e sociais ligados ao cotidiano da população. “Paranaguá possui características únicas. É uma cidade histórica, simbólica para o Paraná, e esse cuidado precisa aparecer no projeto”, afirma.
Para André, no entanto, a transformação dependerá também de um esforço coletivo. “O cidadão parnanguara, o poder público e a iniciativa privada precisam agir juntos. É um esforço coletivo de valorização da nossa história e da cidade mãe do Paraná.”
