Energia limpa

Pioneira em energia eólica, cidade paranaense tenta destravar expansão projetada há 27 anos

Parque eólico de Palmas, no Sudoeste do Paraná
Parque eólico de Palmas, no Sudoeste do Paraná. Foto: Daniel Castellano / arquivo Gazeta do Povo.

Primeiro município do Sul do Brasil a abrigar uma usina de energia eólica e referência histórica na geração limpa na região, Palmas, no Sudoeste do Paraná, tenta encontrar investidores para destravar a expansão do seu parque eólico após quase três décadas de estagnação. Inaugurado em 1999 com apenas cinco aerogeradores, o complexo da “Rota dos Ventos” passou por uma readequação técnica e ambiental para finalmente sair do papel e atrair investimentos estrangeiros e funcionar em sua total capacidade. O potencial eólico pode render até R$ 100 milhões por ano em receita de ICMS para a cidade.

A usina de Palmas foi instalada no último ano do governo Jaime Lerner, a partir de um projeto privado que previa, originalmente, a implantação de 200 turbinas. Com a mudança de gestão estadual e o desinteresse de órgãos de fomento e da própria Copel em investir no estado, a expansão ficou só no papel.

A estagnação paranaense contrastou com o avanço do estado vizinho. Do outro lado da divisa, Santa Catarina aproveitou o mesmo potencial eólico e consolidou o parque de Água Doce por volta de 2002, hoje com mais de 100 aerogeradores em operação.

“Palmas foi a pioneira devido à geração de ventos contínuos. O projeto inicial previa 200 aerogeradores, mas não se consolidou. O governo catarinense foi mais inteligente na oportunidade: quando trocou o governo no Paraná, não deram continuidade aos parques, enquanto Santa Catarina abraçou o mesmo potencial de vento. Nós perdemos. A Copel, na oportunidade, acabou investindo no Nordeste e não no seu próprio estado”, afirma o vereador de Palmas, Marquinhos Gomes, que acompanha os debates e audiências públicas sobre o tema há 27 anos.

Parque eólico de Palmas foi discutido em Brasília

O parque eólico de Palmas virou debate nacional em 2023, quando a estagnação do complexo chegou até a Câmara dos Deputados, em Brasília. A pedido do deputado federal Paulo Litro (PSD-PR), a Comissão de Minas e Energia aprovou a realização de uma audiência pública dedicada exclusivamente para discutir o plano de expansão da usina no município. O encontro, realizado em outubro daquele ano, reuniu lideranças políticas, representantes do Ministério de Minas e Energia e especialistas do setor elétrico para avaliar os impactos regionais e desenhar caminhos que viabilizassem o retorno dos investimentos privados na região.

Na época, o debate em Brasília destacou o contraste entre o potencial técnico da “Rota dos Ventos” do Paraná e a falta de avanço estrutural ao longo de quase três décadas.

A reunião serviu para alinhar o planejamento energético federal com as demandas locais do estado, reforçando que o destravamento das licenças ambientais e a instalação dos novos aerogeradores não representavam apenas uma pauta municipal, mas uma oportunidade para reintegrar o estado ao mapa das grandes geradoras de energia limpa no país.

Entraves ambientais e o destravamento atual

Ao longo dos anos, tentativas de ampliação do parque esbarraram em rigorosas exigências ambientais devido à proximidade com áreas de conservação, como o Refúgio da Vida Silvestre. O cenário começou a mudar recentemente com a readequação dos estudos e o apoio direto do atual Governo do Estado. O projeto do parque eólico, que foi desenhado no governo de Jaime Lerner, foi aprimorado para se adequar as exigências ambientais.

“O projeto que não foi consolidado anteriormente exigia muitos estudos do ICMBio. Agora, o novo investimento foi desenhado para ficar fora do perímetro do Refúgio da Vida Silvestre [unidade de conservação federal de proteção entre Palmas e General Carneiro]. A liberação dessas licenças ambientais foi complicada por parte dos técnicos ao longo dos anos, mas o governo estadual abraçou a causa e fez a pauta andar”, explica Marquinhos Gomes.

Salto tecnológico ao longo dos anos

A modernização da tecnologia eólica nos últimos 25 anos transformou a viabilidade do projeto em Palmas. Enquanto as estruturas instaladas em 1999 possuem torres de 44 metros e geram 500 kW cada, os equipamentos de nova geração chegam a 150 metros de altura — o que exige inclusive autorização do tráfego aéreo.

“As torres antigas do Paraná têm 44 metros. As novas tecnologias têm 150 metros e, acima dessa altura, é necessária a anuência da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) pelo uso do espaço aéreo. Com essa evolução, um parque que antes precisava de 200 torres hoje atinge a mesma produção com apenas 80”, destaca o vereador.

Atualmente, grupos internacionais de países como Alemanha, Indonésia e China avaliam a compra e execução do projeto de Palmas. Diferente do Nordeste, onde a maresia desgasta os equipamentos com mais rapidez e as terras são arrendadas exclusivamente para os parques, a região de Palmas leva vantagem por permitir a convivência da geração eólica com o agronegócio ativo, como a produção de soja, maçã, madeira, erva-mate e pecuária.

Para o município, a consolidação dos novos parques representa uma transformação estrutural nas contas públicas e no mercado de trabalho.

“Se os parques forem consolidados, teríamos vantagens diretas na geração de empregos e no próprio ISS. O município teria uma estimativa de R$ 100 milhões por ano só de receita de ICMS. Seria um dos maiores ganhos da história da cidade. Temos empresas do exterior analisando o projeto, e muitos investidores aguardam a estabilização do cenário político e econômico para avançar nas negociações”, conclui Marquinhos Gomes.

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