Enquanto o setor florestal comemora os 120 anos do pinus no Brasil, a indústria madeireira do Paraná enfrenta o momento mais difícil de sua história recente. Tarifas dos Estados Unidos somam hoje 37,5% sobre produtos florestais brasileiros, e o estado já contabiliza 10 mil empregos perdidos.
A informação foi confirmada pelo presidente da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas), Fabio Brun, durante o lançamento da campanha institucional “120 anos do Pinus no Brasil”, em Curitiba.
O evento reuniu a APRE Florestas, a Associação Catarinense de Empresas Florestais (ACR), a Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor) – que juntas formam a Associação Sulbrasileira de Empresas Florestais (ASBR) – e a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci). A proposta era celebrar a versatilidade e a sustentabilidade da espécie. Mas, nos bastidores, o tarifaço também veio à tona.
Paraná: coração do pinus brasileiro
Segundo dados do Estudo Setorial 2024 da APRE Florestas, apresentados durante o evento, o Paraná concentra 710 mil hectares de pinus. Isso é mais da metade de todo o volume produzido no país e responde por 20% de toda a madeira produzida no Brasil.
No total, as florestas de pinus sustentam cerca de 2,6 milhões de empregos diretos e indiretos no país, e o Paraná concentra 15,6% desses postos: são 109 mil empregos diretos e 400 mil indiretos, espalhados por toda a cadeia produtiva, do plantio às indústrias de papel, celulose, móveis, construção civil e energia.
A força do Paraná aparece também na produção e nas exportações. O estado é o segundo maior exportador de papel do país, líder nacional na exportação de compensados de pinus e molduras, e tem o segundo maior valor bruto de produção da silvicultura entre os estados brasileiros.
Do total exportado pelo Brasil, saem do Paraná 69,49% das molduras, 67,90% do compensado de pinus, 30,6% das portas de madeira e mais de um quarto do serrado de pinus e do papel. Ou seja: quando o mercado internacional trava, é o Paraná quem mais sente o impacto.
Essa dependência de poucos mercados, especialmente o americano, é hoje o principal ponto de fragilidade do setor.
Duas tarifas, um só golpe
Segundo Fabio Brun, o Brasil enfrenta atualmente uma combinação de duas tarifas americanas sobre produtos florestais. A primeira, de 25%, resultou de uma investigação da Seção 301 do governo dos Estados Unidos, que classificou práticas comerciais brasileiras como prejudiciais à indústria americana.
A segunda, de 12,5%, foi aplicada depois que o governo americano concluiu que o Brasil, entre outros 59 países, permitia a entrada de produtos ligados a trabalho análogo ao escravo, mesmo sem o Brasil cometer essa prática diretamente.
A soma das duas chegou a 37,5% sobre boa parte dos produtos florestais brasileiros.
Antes disso, o setor já havia enfrentado uma tarifa de 40% ao longo de 2025, derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro de 2026. O alívio, porém, durou pouco: a nova tarifa entrou em vigor logo em seguida, e o setor começou 2026 sem nenhuma trégua.
O resultado já apareceu nos números do comércio exterior. Os Estados Unidos, que ocupavam a segunda posição entre os compradores de produtos florestais brasileiros, caíram para o terceiro lugar em apenas um ano. Para Brun, o impacto no Paraná foi ainda mais grave, porque grande parte da indústria florestal do estado fabrica produtos destinados exclusivamente ao mercado americano. E não é possível redirecionar essa produção rapidamente para outros compradores.
“O Brasil passou a ser o país mais tarifado do ponto de vista do produto florestal”, afirmou o presidente da APRE Florestas.
A dimensão do problema aparece nos números do setor. Segundo a Abimci, o Brasil exportou cerca de US$ 1,2 bilhão em madeira processada aos Estados Unidos em 2025 — mercado que absorve perto de 40% de tudo que o setor produz no país. Com a tarifa vigente em boa parte daquele ano, a perda estimada já chegava a US$ 500 milhões, levando fábricas a decretar férias coletivas.
No primeiro semestre de 2026, mesmo antes da tarifa mais recente entrar em vigor, os dez principais produtos florestais monitorados pela consultoria WoodFlow já caíam 6% em volume e 8% em valor exportado. A madeira serrada de pinus recuou 37% em volume e 41% em valor. No Paraná, o estrago aparece produto a produto: as exportações de molduras caíram 61%, as de portas de madeira, 55%. Uma perda estimada em US$ 226 milhões e cerca de 10 mil empregos afetados.
Troca de mercado
Uma dúvida comum é por que o setor não substitui os Estados Unidos por Europa, Ásia ou Oriente Médio. Segundo o vice-presidente da Abimci, Armando José Giacomet, a resposta tem dois lados.
Primeiro, a Europa é ela mesma uma grande produtora e exportadora de madeira, e por isso funciona mais como concorrente do que como cliente. Segundo, o mercado americano tem uma característica única: três quartos da população dos Estados Unidos moram em casas de madeira, o que tornou o mercado americano o principal destino da madeira processada de maior valor agregado fabricada no Brasil.
O Brasil ainda exporta madeira serrada para outros destinos, como Oriente Médio, Europa, Oceania e Ásia, mas nenhum desses mercados tem o mesmo peso do americano. Giacomet chama atenção para outro efeito colateral da crise: quando o produto de maior valor agregado perde competitividade, o Brasil corre o risco de voltar a exportar apenas madeira bruta, deixando a etapa de processamento (e os empregos que ela gera) para os países compradores.
À pressão americana soma-se ainda uma investigação antidumping da União Europeia sobre o compensado de pinus brasileiro, que pode resultar em nova barreira comercial para o setor. Diante das acusações que sustentam parte das tarifas, o setor reforça que sua produção vem de florestas plantadas e certificadas, e não de desmatamento ilegal.

Sofrimento sem representação política
O momento é ainda mais sensível por coincidir com a campanha eleitoral. Questionado sobre a posição dos candidatos à Presidência da República em relação ao setor florestal, Fabio Brun foi direto: nenhum deles tem se posicionado especificamente sobre o tema.
Segundo ele, o negócio florestal ainda representa uma fatia pequena do conjunto da economia brasileira, o que reduz sua força na disputa por espaço nas propostas de campanha.
Para Brun, sem uma atuação diplomática forte do governo federal, dificilmente o impasse com os Estados Unidos será resolvido. O setor tem se movimentado por conta própria. Brun esteve pessoalmente em Washington em julho, participando de audiências públicas no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) na tentativa de barrar a tarifa da Seção 301 antes de ela ser confirmada. Mas ele reforça que os EUA vão querer negociar com o governo brasileiro, e não com representantes do setor.
A urgência tem explicação: o ciclo do pinus é de cerca de dez anos até o primeiro desbaste, o que faz qualquer atraso na resposta diplomática, inclusive os meses de transição entre a eleição e a posse do próximo governo, se somar a um planejamento que já é de longuíssimo prazo.
Setor resiliente
Ao final da entrevista, ao ser questionado se havia algo que gostaria de acrescentar, Brun fez questão de deixar um recado. “Apesar da crise momentânea, o setor florestal é forte. Já sofreu crise, já passou por situações ruins no passado, mas é um setor resiliente. Não existe o risco de que o setor vá à ruína por causa disso”, garantiu ele.
Segundo ele, a reversão do quadro pode levar meses, ano, “mas o fato é que nós vamos dar a volta por cima, isso vai se resolver”. Para Brun, tarifas não costumam ser instrumentos permanentes. “Isso se reverte eventualmente”, disse ele, mostrando que o próprio histórico centenário do setor sustenta essa confiança. “Tudo que é relacionado com floresta são histórias de longo prazo”, disse, lembrando que o pinus plantado hoje só será colhido daqui a dez, 12 anos. “Existem novos vales e montanhas pela frente. Mas o fato é que são profissionais gabaritados, é uma indústria forte, uma indústria de gente competente. Não é essa dificuldade de momento que vai derrubar o setor.”
Pinus: 120 anos no Brasil
A campanha lançada nesta semana marca a data em que a espécie completa 120 anos de cultivo no Brasil. Segundo o Estudo Setorial da APRE Florestas, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram 1,7 milhão de hectares, ou seja, 89% de toda a área nacional plantada com pinus, que soma 1,9 milhão de hectares.
Ao longo desse período, a espécie deixou de ser vista como madeira de menor valor, em razão de sua densidade mais baixa, para se tornar matéria-prima de uma cadeia industrial diversificada, que vai da construção civil e móveis a papel, celulose e produtos de maior sofisticação tecnológica, como a nanocelulose usada em próteses ósseas e curativos biológicos.
“O que começou com uma introdução de novas espécies evoluiu para a construção de um setor altamente tecnológico, sustentável e competitivo”, resume Brun no material da campanha.
