Há um fenômeno silencioso e contínuo que cria o mapa econômico do Brasil a partir do Sul. No Paraná, quase 40 dos seus 399 municípios carregam um título que vai além da geografia: são “capitais”, não de estados ou países, mas de setores produtivos que movimentam, segundo o IBGE, R$ 765 bilhões por ano e posicionam o estado como a quarta maior economia do país, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

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Mais do que títulos simbólicos, essas denominações representam arranjos produtivos locais altamente especializados, responsáveis por empregos, exportações, inovação e competitividade de escala global. São mais de 25 mil parques fabris, 562 mil trabalhadores com carteira assinada e uma cadeia que alcança 3,3 milhões de pessoas quando somados os empregos indiretos.

A indústria responde por 25% do PIB paranaense, ou seja, R$ 130 bilhões, e o estado ocupa a terceira posição nacional em Valor de Transformação Industrial, superado apenas por São Paulo e Minas Gerais. Em 2024, a produção industrial do Paraná cresceu acima da média nacional, e o ritmo não dá sinais de desaceleração.

O Paraná cresce muito acima da média nacional e temos regiões onde o avanço é extraordinário, próximo dos dois dígitos ao ano”, afirma o presidente licenciado do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos. Ele deve disputar as eleições deste ano como candidato a vice-governador na chapa do senador Sergio Moro.

Foco em segmentos industriais impulsiona a economia do estado

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A meta do setor industrial é transformar o estado na terceira economia brasileira em menos de uma década. Para entender por que essa projeção não é apenas otimismo, a reportagem da Gazeta do Povo colocou o pé na estrada para conhecer algumas dessas “capitais” que constroem e moldam o projeto econômico.

“O Paraná cresce muito acima da média nacional e temos regiões onde o avanço é extraordinário, próximo dos dois dígitos ao ano.”

Edson Vasconcelos, presidente da Fiep

Capitais produtivas e industriais que a Gazeta do Povo visitou

  • Cianorte (região noroeste do estado) – Capital Nacional do Vestuário
  • Apucarana (norte) – Capital Nacional do Boné
  • Arapongas (norte) – Capital Moveleira Nacional
  • Ponta Grossa (Campos Gerais) – Capital Paranaense da Cerveja
  • União da Vitória (sul) – Capital da Madeira
  • Nova Aurora (oeste) – Capital Nacional da Tilápia
  • Dois Vizinhos (sudoeste) – Capital da Avicultura
  • Foz do Iguaçu (oeste) – Capital do Turismo do Paraná
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Além da denominação específica de “capital” para um destaque específico, o estado do Paraná é líder nacional na produção de tilápias, com destaque em viveiros e indústrias no oeste do estado.

A moda que veste o Brasil

O título de “Capital Nacional do Vestuário” de Cianorte foi conquistado à base de linha, agulha e escala industrial. O município localizado no noroeste paranaense integra o segundo maior polo de confecções do Brasil, atrás de Santa Catarina, em um eixo regional que inclui Maringá e cidades vizinhas.

Fábricas, lavanderias industriais e uma cadeia produtiva completa formam um sistema que impulsionou o PIB per capita local a R$ 50 mil. A ExpoVest, principal evento do setor na cidade, atrai compradores e lojistas de todo o país, fazendo de Cianorte endereço obrigatório da moda nacional.

Da pequena fábrica de Altair Andrade saem 5 mil peças de jeans por mês, todas com destino a uma grife de alcance nacional. “Estamos em todo o país”, diz ele, sem exagero.

“Cianorte não fabrica apenas roupa, fabrica riqueza com escala industrial”, destaca o presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Cianorte, Alberto Nabhan. São 60 milhões de peças por ano, volume que responde por 20% de todo o jeans comercializado no Brasil e que concentra mais de 450 confecções, 600 grifes e 300 lojas de pronta-entrega em uma estrutura que representa 44,3% do PIB municipal.

“O setor emprega diretamente 15 mil pessoas e sua capilaridade é tão profunda que três em cada cinco moradores da cidade têm a renda ligada à indústria da moda, um índice que transforma o vestuário de setor econômico em identidade coletiva”, reforça a historiadora e pesquisadora em arranjos produtivos Aline Martins.

O circuito de abastecimento atrai lojistas de todo o país e do Mercosul. “Nenhuma vitrine conta essa história melhor do que os caminhões que partem de Cianorte levando moda paranaense para as araras de todo o Brasil”, completa a historiadora.

O boné que cobre o país

A 200 quilômetros de Cianorte está Apucarana, considerada a “Capital Nacional do Boné”: oito em cada dez bonés produzidos no Brasil saem de lá. A produção mensal oscila entre 4 e 5 milhões de peças, com picos de até 8 milhões em períodos de alta demanda.

Mais de 2 mil empresas e indústrias de confecção operam integradas em um Arranjo Produtivo Local, segundo o Sebrae, que cobre todo o ciclo, do corte ao bordado, da costura à personalização. O setor sustenta aproximadamente 20 mil empregos diretos e indiretos.

A especialização começou nos anos 1970 e não parou mais. “Apucarana é um dos casos mais representativos de concentração industrial do país”, celebra o prefeito Rodolfo Mota (União Brasil).

A cadeia de bonés de Apucarana movimenta aproximadamente R$ 300 milhões por ano e sustenta 7 mil empregos diretos e 9 mil indiretos, números que, segundo o governo municipal e o Sebrae Paraná, representam cerca de 30% de todo o PIB do município, estimado em R$ 4,8 bilhões e distribuído entre serviços (48,9%), indústria (24,2%), administração pública (18,8%) e agropecuária (8,2%).

“O próximo passo é transformar a força produtiva em patrimônio reconhecido internacionalmente”, reforça o escritório Regional do Sebrae. A cidade iniciou, ao lado do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o processo de obtenção do selo de Indicação Geográfica para o boné apucaranense, movimento que protege a marca “Apucarana” da concorrência desleal e abre caminho para a exportação com identidade de origem.

“É a Capital Nacional do Boné deixando de ser apenas um título popular para se tornar uma marca registrada com valor no mercado global”, defende o consultor do Sebrae-PR Tiago Cunha.

Os móveis para os lares dos brasileiros

A trilha da diversificação e produtividade da indústria segue para Arapongas, que recebeu por lei federal (nº 14.728/2023) o reconhecimento de “Capital Moveleira Nacional”: o município abriga quase 330 indústrias moveleiras e, considerando o polo regional de 42 municípios, o número ultrapassa mil unidades produtivas, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria e da Fiep.

“Aproximadamente 10% de todos os móveis fabricados no Brasil saem de Arapongas”, conta o presidente do Arranjo Produtivo Local, Jayme Leonel. Em 2024, conforme dado mais recente disponível, o setor faturou cerca de R$ 5 bilhões, crescimento de 12% em relação ao ano anterior, e responde por quase 10% do PIB nacional do segmento moveleiro.

“No comércio exterior, o município é responsável por cerca de 10% das exportações brasileiras de móveis. A base produtiva se apoia em MDP, painéis de madeira processada, material utilizado em 80% das peças, o que revela um perfil industrial moderno, eficiente e competitivo”, destaca o secretário de Estado da Fazenda do Paraná, Norberto Ortigara.

A cerveja que começa a ser produzida nos Campos Gerais

Ponta Grossa acaba de ganhar o título de “Capital Paranaense da Cerveja”: a cidade abriga plantas industriais da Heineken e da Ambev e ocupa a segunda posição entre as maiores produtoras de cerveja do Brasil. A unidade da Heineken, após expansão concluída em 2024, atingiu capacidade superior a 8 milhões de hectolitros ao ano, o equivalente a 2,26 bilhões de copos de cerveja em 365 dias. O complexo ocupa 1 milhão de metros quadrados e emprega diretamente cerca de mil trabalhadores.

O diferencial competitivo está na integração vertical da cadeia: da produção de cevada e malte nas propriedades rurais do entorno, passando pela fabricação de latas e garrafas, até o envase da bebida, tudo regionalizado. Hildo Gomes da Silva, que cultivava tabaco em Guamiranga, fez a transição para a cevada e resume o impacto com orgulho.

“A cevada que vai para as maltarias me dá qualidade de vida”, resume ele. A cadeia movimenta um faturamento superior a R$ 6,4 bilhões no setor cervejeiro do Paraná, com forte concentração na região dos Campos Gerais.

Ponta Grossa registrou o maior crescimento do PIB entre as grandes cidades do interior paranaense, com valor adicionado de R$ 21,4 bilhões, alta de 12,5%. “Isso ocorre graças a um movimento integrado, regional, de estímulo ao crescimento e avanço produtivo de uma região integrada”, descreve o gerente da Maltaria Campos Gerais, Vilmar Schüssler.

Madeira, peixe e o turismo das cataratas

A diversidade paranaense inclui o polo de União da Vitória, no sul do estado, que é a “Capital da Madeira”, polo especializado em produtos de alto valor agregado, como portas decorativas, esquadrias e painéis. Em Bituruna, município vizinho, a madeira responde por 87% das vagas industriais.

A produção tem mercado internacional, com exportações que chegam aos Estados Unidos, apesar do mercado afetado pelas tarifas impostas pelo governo norte-americano ao setor.

E tem mais: no oeste paranaense, Nova Aurora é a “Capital Nacional da Tilápia” desde 2019. Com 13,7 mil habitantes, o município responde por 3,6% da produção nacional de tilápia.

O frigorífico da Copacol instalado na cidade processa cerca de 200 mil peixes por dia e gera 800 empregos diretos. Mais de 200 famílias substituíram áreas de soja por viveiros de piscicultura, uma reconversão produtiva que alterou o perfil econômico do município. “É mais que uma oportunidade de emprego e renda, é apoio ao pequeno produtor e um avanço industrial em um mercado que o Paraná já é referência nacional”, celebra o presidente da Copacol, Valter Pitol.

Em Dois Vizinhos, no sudoeste do estado, o motor está na avicultura: o município figura entre os maiores produtores de frango do país, em um estado que em 2025 respondeu por 35,5% da produção nacional, fatia que o coloca como maior produtor e exportador brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura.

E em Foz do Iguaçu, as Cataratas do Iguaçu, eleitas uma das sete maravilhas naturais do mundo, sustentam a “Capital do Turismo” paranaense, título formalizado pela lei estadual nº 18.641/2015. Em 2025, o município registrou mais de 5,8 milhões de visitas aos seus atrativos, com 2 milhões delas apenas no Parque Nacional.

Segundo a Associação Comercial e Industrial, cerca de 50% da economia local depende diretamente do turismo, setor que movimenta uma cadeia produtiva completa, da hotelaria à gastronomia. “O Paraná é uma planta industrial diversificada. Estamos menos suscetíveis às quebradeiras econômicas quando um segmento não vai bem com diversificação, escala, avanço de produtividade, tecnologia e visão de futuro”, elenca o presidente do Programa Oeste em Desenvolvimento, Alci Rotta Junior.

A engrenagem industrial que não para

O que une todas essas capitais é uma lógica comum: especialização produtiva, integração em cadeia e aumento constante de produtividade. “Onde há indústria, existe emprego, renda e crescimento integrado”, define o presidente da Fiep. O economista Rui São Pedro calcula que cada emprego industrial formal gera outros seis colaterais, um multiplicador que explica por que municípios com poucos milhares de habitantes estão entre os maiores VBPs do estado.

O Paraná contribui com aproximadamente 7,1% de toda a produção industrial nacional, segundo o IBGE. “É um estado que lidera em alimentos, têxtil, papel, madeira e celulose, que tem no cooperativismo um modelo de escala difícil de replicar, que avança em tecnologia, logística e inovação. Como pode dar errado?”, aponta o economista.

Esses requisitos formam, segundo o consultor em desenvolvimento regional Danilo Vendrusculo, “uma locomotiva de crescimento que mantém o estado como protagonista no cenário industrial brasileiro”. Ele lembra que as “capitais paranaenses” não são apenas marcas institucionais adotadas por prefeituras e entidades.

“São reflexo de décadas de trabalho, especialização e reinvenção produtiva. São cidades que entenderam o que fazem bem, e passaram a fazer cada vez melhor”, afirma ele.