No Paraná, em 2025, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-PR) registrou um caso de violência contra crianças e adolescentes a cada 15 minutos e 23 segundos. Ao longo do ano, o estado contabilizou 34.221 ocorrências envolvendo menores de idade, número 63,12% maior do que o registrado em 2021.
Nos últimos três anos, o Paraná manteve mais de 30 mil registros anuais desse tipo de violência. Entre as cidades com maior volume de casos, Curitiba lidera com 3.831 ocorrências, o equivalente a 11,22% do total estadual. Na sequência aparecem Londrina, com 1.567 registros, e Ponta Grossa, com 1.537 casos.
Para a delegada Mariana Coelho Cantu, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA), o crescimento dos números não representa apenas aumento da violência, mas também casos que estavam invisíveis. Com a suspensão das aulas presenciais por um ano e cinco meses no Paraná, entre março de 2020 e meados de 2021, professores deixaram de ser a principal linha de identificação de sinais de abuso.
Quando as escolas reabriam, o efeito foi imediato. “A maioria das denúncias surge a partir das escolas, que conseguem identificar tanto sinais de violência física, como maus-tratos e lesões, quanto suspeitas de abuso sexual, quando a criança ou o adolescente apresenta alterações de comportamento”, explica.
Apesar da alta nos registros gerais de violência, os dados apontam uma redução específica nos casos de violência sexual contra menores de 18 anos em 2025. Em 2023 e 2024, o Paraná havia ultrapassado a marca de 8 mil ocorrências anuais desse tipo. No ano passado, o número caiu 8,41%, totalizando 7.434 registros.
Negligência é um dos principais motivos de denúncia
Apesar da redução registrada nos casos de violência sexual no último ano, o estupro ainda permanece como a principal forma de violência não letal contra crianças e adolescentes. Logo atrás do estupro, outra mudança vem se consolidando: desde 2022, os maus-tratos ultrapassaram a violência física no ranking, segundo o Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os maus-tratos abrangem diferentes formas de violência física, psicológica e emocional contra menores de idade. Entre elas está a negligência, caracterizada pela omissão ou incapacidade dos responsáveis em garantir condições básicas para o desenvolvimento saudável da criança ou do adolescente.
Segundo Michelle Taís Faria Feliciano, da Gerência da Criança, Adolescente e Migrantes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano de Curitiba (SMDH), a negligência atinge principalmente crianças na primeira infância, período considerado mais vulnerável para o desenvolvimento.
“Grande parte dos casos ocorre por descuido ou desestruturação familiar, como quando o pai ou a mãe são usuários de drogas. A criança fica à mercê, sem cuidados básicos. Por isso, na rede Mãe Curitibana, o acompanhamento das condições dessa criança começa ainda durante a gestação”, explica.
A negligência nem sempre deixa marcas físicas imediatas. Em muitos casos, os sinais aparecem no desenvolvimento infantil, na alimentação inadequada, na ausência de acompanhamento médico, no abandono escolar ou em alterações comportamentais. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 apontou que, nos casos de maus-tratos registrados no país, 93% dos autores eram familiares das vítimas.
Consequências fundamentam crenças da vida adulta
Esses impactos, no entanto, raramente ficam restritos à infância. Segundo a psicóloga Juliana de Melo, coordenadora da Bépo Reabilitação Neurológica, as consequências das violências podem acompanhar a vítima por toda a vida. “Desde que você nasce, você vai aprendendo a lidar com o mundo e com as pessoas ao seu redor e compreende quem você é a partir dessa interação. Essas impressões, por mais disfuncionais que sejam, vão refletir na vida adulta”, explica.
É durante a primeira infância que se consolidam crenças profundas sobre autoestima, pertencimento e segurança emocional. Segundo a psicóloga, as principais se relacionam a três conceitos: desamor, desvalor e desamparo.
“No desamor, por exemplo, a criança entende que, ao não atender suas necessidades básicas, é porque ela não é amada e, portanto, não é digna de amor. A criança precisa ser vista não apenas nas necessidades físicas, mas também na convivência familiar, na rotina e no sentimento de pertencimento”, explica.
Essas experiências também contribuem para a formação das chamadas crenças periféricas, que influenciam diretamente a maneira como a pessoa interpreta relações afetivas, vínculos familiares e situações sociais ao longo da vida. As consequências também podem se repetir entre gerações. “Nossa principal tendência é nos tornarmos os pais que tivemos”, afirma a psicóloga.
Primeira ruptura do ciclo: denúncia
Para tentar romper os impactos da violência ainda na infância, a psicóloga Juliana de Melo ressalta que a intensidade das consequências está diretamente ligada ao tempo de exposição da criança às agressões. Quanto mais prolongada a violência, maiores tendem a ser os danos.
Nesse processo, o primeiro passo, segundo a delegada Mariana Coelho Cantu, é a denúncia, seja à polícia, ao Conselho Tutelar ou à rede de proteção. “Para nós, a criança é o início da investigação, porque é a partir do relato dela que conseguimos reunir os demais elementos. Em regra, essa será a única vez que a criança ou adolescente será ouvido na delegacia”, explica a delegada.
A partir da identificação da violência, diferentes setores passam a atuar de forma integrada. “Há atendimento da assistência social, da saúde, acompanhamento psicológico e a escola também entra em estado de alerta”, afirma Michelle Feliciano. Segundo ela, o fortalecimento dessa rede de proteção tem sido ampliado gradualmente.
Em Curitiba, a Comissão do Programa Prefeito Amigo da Criança monitora mensalmente indicadores e investimentos voltados à infância nas áreas de saúde e assistência social, articulando ações entre diferentes setores para ampliar medidas de proteção e prevenção. “Quando se fala em proteção à criança, ninguém recua, ninguém questiona. Todo mundo entende que é necessário mais esforço e mais cuidado”, completa Michelle.
Com os esforços, os efeitos a longo prazo podem ser ressignificados. “Não existe apagar o trauma, porque ele faz parte da história da pessoa. Mas é possível mudar a maneira como ela se relaciona com essa experiência e reduzir os impactos que isso causa na vida adulta”, afirma a psicóloga Juliana de Melo.
Denuncie
As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100 (nacional) e pelos números 181 (Paraná) e 156 (Curitiba).
