O Paraná tem áreas com concentrações expressivas de elementos de terras raras sendo estudados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). A empresa pública federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia identificou teores superiores a 8 mil partes por milhão (ppm) em amostras coletadas no Cinturão do Ribeira, em municípios como Cerro Azul, Tunas do Paraná, Castro, Carambeí e Tijucas do Sul. Isso equivale a mais de 8 gramas desses elementos por quilo de material analisado, considerando a mesma base de medição.

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Entre os elementos identificados no estado estão o neodímio e o térbio, dois dos 17 elementos com propriedades magnéticas, elétricas, luminescentes e ópticas que formam as chamadas terras raras. Eles podem ser usados em tecnologias como superímãs, motores de carros elétricos, turbinas eólicas, drones, smartphones e equipamentos médicos.

Embora esses elementos existam em vários locais da crosta terrestre que não são considerados raros, é difícil encontrá-los em quantidades comerciais que viabilizem a extração, separação e beneficiamento. “Elas estão entre os recursos mais estratégicos do planeta, devido à transição energética e à corrida tecnológica global”, afirma o engenheiro geólogo Abdel Hach, professor do UniCuritiba.

Os dados no Paraná são promissores, mas, para saber se o Estado vai entrar de fato no radar global de exploração de terras raras, é preciso aguardar mais resultados. Isso porque a simples presença dos minerais em amostras não significa, necessariamente, a existência de uma quantidade economicamente viável.

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“Esses valores indicam um enriquecimento mineral relevante que justifica um estudo mais detalhado. Ainda serão necessárias campanhas de sondagem, avaliações metalúrgicas, estudos ambientais e análise de viabilidade econômica antes de confirmar se pode haver exploração”, explica Hach.

Empresas já fazem sondagens na região

A Agência Nacional de Mineração (ANM) informou à Tribuna do Paraná que há duas empresas australianas realizando atividades de sondagem inicial e reconhecimento em áreas do Cinturão do Ribeira.

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A holding Union Star Metals, por meio da subsidiária Scanty Mineração, detém os projetos Cerro Azul (no município de mesmo nome) e Granito Carambeí (nos municípios de Carambeí e Ponta Grossa). Segundo informações de relatório da empresa, foram realizadas atividades de sondagem inicial e de reconhecimento nos três locais, incluindo perfurações do solo.

A Union Star Metals mantinha no Brasil um portfólio de projetos de terras raras com foco em argilas de adsorção iônica (IAC), um tipo de depósito em que esses elementos ficam retidos na superfície das partículas de argila e podem ser extraídos por meio de soluções químicas. No mês passado, a companhia vendeu 100% das ações da Scanty Mineração para a Harvest Minerals Limited.

Outra empresa, a Core Energy Minerals, por meio da subsidiária Mineração Remo, detém o projeto Tunas, nos municípios de Cerro Azul e Tunas do Paraná, também focado em argilas iônicas. O projeto compreende uma área de 18,32 quilômetros quadrados.

A companhia já realizou duas fases de perfurações de até 15 metros de profundidade, além de procedimentos de mapeamento e amostragem de superfície. Em testes com amostras mais profundas, para avaliar quanto dos minerais poderia ser recuperado por um processo químico de extração, a recuperação média foi de 38% para os óxidos totais de terras raras e de 63% para os óxidos de terras raras magnéticas.

A próxima etapa prevista é realizar sondagens para investigar se a mineralização continua em maiores profundidades e se estende por outras partes da área. A Core Energy Minerals também detém um projeto em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), em fase mais inicial de exploração. Até o momento, essa área passou por estudos preliminares de mapeamento regional e amostragem de rocha na superfície.

Potencial vai além da extração

Para o professor Abdel Hach, como o beneficiamento desses minerais é complexo e altamente tecnológico, o maior potencial econômico para o Paraná está na possibilidade de desenvolver atividades de processamento, refino e industrialização, e não apenas a mera extração.

“O estado pode se posicionar como elo de uma cadeia produtiva de alto valor agregado. O futuro econômico das terras raras não está apenas no subsolo, mas na industrialização regional que pode nascer acima dele”, pontua. Essa industrialização, afirma, poderia trazer impacto positivo à população por meio da atração de investimentos, geração de empregos qualificados, aumento da arrecadação e fortalecimento da economia regional.

O especialista cita ainda a infraestrutura logística e a presença de parques industriais, universidades e centros de pesquisa no Paraná como fatores decisivos que poderiam favorecer o desenvolvimento de uma cadeia produtiva caso os recursos sejam confirmados.

O desafio em relação às terras raras, contudo, não é exclusivo do estado, mas de todo o país: transformar potencial geológico em desenvolvimento sustentável, conhecimento tecnológico e competitividade industrial. “A líder mundial no processamento de terras raras é a China, mas existe um movimento global para a diversificação de fornecedores. Nesse contexto, o Brasil e agora o estado do Paraná podem ocupar um espaço relevante, especialmente se conseguirem agregar tecnologia ao processo produtivo”, conclui o professor.