Uma crise estrutural de falta de professores, provocada pelo envelhecimento da categoria, pela evasão e pelo esvaziamento histórico dos cursos de licenciatura pressiona a educação no Paraná. Chamado de “apagão dos professores”, a crise não só atinge o Estado, mas também todo o país e outros lugares do mundo, como Alemanha e França.
Enquanto a rede pública estadual ainda garante o atendimento regular na educação básica e aposta em salários iniciais competitivos, a escassez de docentes em disciplinas como Matemática, Física e Química acende um sinal de alerta direto para o futuro: sem a formação de novos profissionais em ritmo suficiente, faltarão professores para as crianças que hoje estão no ensino básico.
O risco de desabastecimento de professores no Paraná é reforçado pelos dados da pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, realizada pelo Instituto Casagrande Social: 51,6% dos docentes no Estado já cogitaram abandonar a carreira, tensionados por um cenário em que 69,1% relatam esgotamento emocional frequente, 78,1% trabalham frequentemente fora da jornada, 87,6% avaliam que a profissão se tornou mais complexa e 74,8% consideram a remuneração inadequada. O cenário mobiliza entidades educacionais em estratégias para tentar atrair e reter novos talentos antes que o desfalque prejudique a educação dos pequenos paranaenses.
Escassez de professores preocupa secretário da Educação
Em entrevista sobre a realidade da rede pública estadual do Paraná, o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda, afirmou que o avanço da escassez de docentes ainda não levou a medidas extremas, como o fechamento de turmas na educação básica regular ou o cancelamento de disciplinas por falta de pessoal. Segundo o gestor, para cumprir a obrigatoriedade de oferta do ensino fundamental e médio, a pasta tem recorrido a remanejamentos e busca ativa de profissionais entre bairros e municípios.
“A gente nunca teve uma situação de ‘não vamos abrir uma turma porque não tem professor’. Quando não tem professor, a gente dá um jeito. A gente busca profissionais em outros bairros ou em outras cidades, mas não pode deixar faltar, porque o direito à educação é garantido na Constituição” , declarou o secretário.
Miranda ponderou, no entanto, que a carência é maior em quatro disciplinas específicas do Ensino Fundamental II e Médio: Matemática, Física, Química e Língua Inglesa. Ao avaliar as razões que afastam os profissionais da sala de aula, o secretário citou a indisciplina e o aumento da violência urbana como desafios centrais enfrentados no cotidiano escolar.
“Hoje, a disciplina é um dos desafios que nós enfrentamos em sala de aula, principalmente a violência. A escola é o reflexo da sociedade: sendo uma sociedade mais violenta, nós teremos uma sala de aula mais violenta também” , disse.
Como estratégia de enfrentamento e atração de novos talentos, o secretário apontou a remuneração competitiva e o fortalecimento do curso técnico em Formação Docente, o antigo Magistério, dentro do próprio ensino médio estadual. Segundo Miranda, o salário inicial para um professor ingressante com jornada de 40 horas semanais é de R$ 6.990,00.
“Quando assumi como secretário, tínhamos 6 mil alunos fazendo Formação Docente e agora entrego a rede estadual com 12 mil estudantes. A gente dobrou o número de alunos no curso técnico” , afirmou, citando ainda o chamamento de 6 mil professores concursados nos últimos anos e a realização de seleções via Processo Seletivo Simplificado (PSS) para contratar mais de 30 mil docentes temporários.
Projeto busca incentivar jovens para a carreira de professor
Criado há dois anos pelo educador Ademar Batista Pereira, o Instituto Destino Brasil atua no incentivo à carreira docente por meio do projeto Geração Professor, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Em entrevista, Pereira explicou que a iniciativa busca conectar estudantes do ensino técnico em Formação Docente da rede estadual ao ambiente universitário, atuando com conversas em 29 colégios da Região Metropolitana de Curitiba e da região de Maringá.
“Nós identificamos que existem nove estados no Brasil que têm formação docente, o antigo magistério, nas escolas estaduais do ensino técnico, e o Paraná é um deles. A gente perguntou para o secretário: onde vai essa gurizada? Eles ficam na cidade deles. Aí nós falamos com a PUCPR e fizemos uma parceria para trazê-los para conhecer a universidade” , contou o fundador do instituto.
A mobilização dessas iniciativas teve como marco simbólico as celebrações do Dia do Professor, quando mais de 600 estudantes do curso técnico em Formação Docente da rede estadual se reuniram no ginásio do câmpus da PUCPR, em Curitiba, para a segunda edição do evento do projeto. No encontro, os alunos do ensino médio acompanharam atividades de incentivo e conheceram as condições de ingresso no ensino superior, viabilizadas por uma bolsa institucional de 50% de desconto oferecida pela universidade.
Ao analisar a atratividade da carreira no estado, Pereira argumentou que o desinteresse dos jovens é alimentado por uma percepção cultural negativa que muitas vezes não condiz com as oportunidades reais do setor.
“Na minha opinião, o salário não é ruim. Se você vai trabalhar em um shopping, um gerente não ganha o que o Estado paga para um professor no início de carreira. Não é uma profissão de final de linha e dá muitas perspectivas: a pessoa pode ser palestrante, escritor, entrar em grandes empresas na área de recursos humanos ou ser diretor de escola” , afirmou.
Para o idealizador do movimento, a escassez de profissionais é um problema geracional que atinge diversas categorias profissionais, mas com um impacto específico na educação básica devido à dependência da presença humana no aprendizado.
“Tem falta em todas as profissões: não tem médicos bons em quantidade, não tem engenheiro, pedreiro ou agricultor. Isso é um problema geracional. A educação é um [problema] pouco maior porque está faltando professor para as crianças, o que eu chamo de ‘pequenos humanos’. E as crianças não aprendem com o computador. Os seres humanos precisam de seres humanos, de relacionamento” , pontuou.
Ao abordar a permanência dos novos profissionais nas escolas, Pereira declarou que a retenção depende da valorização do ambiente de trabalho e do respaldo da gestão escolar. “Você só fica no emprego se for respeitado e reconhecido pelo que faz. A escola pode dar mais ambiente de trabalho para a professora, não pode deixar ela sozinha na sala com 30 jovens, o que é complexo. Mas o que a gente vê é que o professor ainda é a autoridade dentro da escola. A gente não perdeu a escola e não vai perder” , disse.
Apagão de professores qualificados pode acontecer em menos de 10 anos
Na visão do ensino superior, diagnósticos recentes sobre a educação brasileira apontam para um cenário crítico de médio e longo prazo. Em entrevista para a Tribuna do Paraná, o decano da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR, Cesar Candiotto, ressaltou que pesquisas do setor educacional e dados de projeção indicam a possibilidade de uma escassez severa de docentes qualificados no país até o final das próximas décadas, o que motivou a criação de ações conjuntas de incentivo no estado.
“O Brasil teve um momento de ressignificação da profissão do professor, porque diagnósticos identificaram que em 2030, 2040 nós teremos um apagão de professores qualificados, o que comprometerá o futuro das nossas gerações vindouras” , afirmou Candiotto.
Ao analisar o comportamento da procura pelos cursos superiores, o decano confirmou que os dados do Censo do Ensino Superior e os índices educacionais refletem uma baixa histórica de alunos nas áreas de ciências exatas, como Física, Química e Matemática, enquanto cursos como Pedagogia, História e Letras mantêm demanda expressiva.
Como estratégia para reverter o esvaziamento das exatas e ampliar o leque de atuação profissional dos estudantes, o decano revelou que a universidade reestruturou a matriz curricular desses cursos para os próximos anos, permitindo dupla formação.
“Nós acabamos de criar na PUC, para 2027, uma conjunção entre a licenciatura e o bacharelado em Física, Química e Matemática, para que as pessoas escolham a docência, mas também tenham uma abertura para outras possibilidades além da sala de aula” , explicou.
Candiotto acrescentou ainda que a elevação da escolaridade no setor educacional gera um impacto direto na mobilidade social do profissional. “Comprovadamente no Brasil, aquele estudante que consegue realizar o ensino superior tem um acréscimo de 148% no seu salário. Quando ele se forma uma pedagoga, um historiador com a licenciatura, além de entregar mais qualidade para seus estudantes, ele também tem uma condição de vida melhor para si e para sua família” , concluiu o decano.
