Pesquisa

Óleo usado e cascas de frutas viram matéria-prima contra vírus em pesquisa no Paraná

Pesquisadora Lígia Faccin-Galhardi coordena estudo que usa elementos naturais para produção de antivirais. Foto: André Ridão | Comunicação UEL

Transformar o óleo de cozinha usado e as cascas de frutas descartadas em matérias-primas para o combate a vírus como herpes, gripe e covid-19. Essa é a base de uma pesquisa pioneira desenvolvida na Universidade Estadual de Londrina (UEL), sob a coordenação da professora e pesquisadora Lígia Carla Faccin-Galhardi, do Laboratório de Virologia Básica e Aplicada (LAVIR).

O projeto, focado no desenvolvimento de protótipos antivirais sustentáveis, foi recentemente reconhecido nacionalmente ao ser contemplado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ) e Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora (DT).

A iniciativa adota o conceito de saúde única, abordagem que reconhece a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e a preservação ambiental. “Essa interconexão na saúde única permite a busca de antivirais não apenas de forma terapêutica, ou seja, sobre o indivíduo doente, mas amplia a aplicação de forma integrada: proteger a saúde humana, reduzir a disseminação do vírus e preservar o ambiente”, comenta a pesquisadora.

“Fábricas biológicas” e economia circular

Lígia explica que o diferencial da pesquisa está no uso da economia circular para abastecer a ciência. Em vez de utilizar reagentes sintéticos caros e poluentes, os pesquisadores reaproveitam resíduos orgânicos ricos em gorduras, açúcares e minerais para nutrir microrganismos.

“O óleo usado e resíduos amazônicos, como cascas de frutas e sementes, funcionam como fonte de alimento para fungos ou bactérias. Ao se nutrirem, esses microrganismos atuam como ‘fábricas biológicas’, produzindo moléculas com potencial antiviral”, explica a professora. “Transformamos um problema ambiental em matéria-prima para gerar novos protótipos de medicamentos, sanitizantes ou defensivos.”

Ação contra herpes, covid-19 e pragas na agricultura

A plataforma em desenvolvimento no LAVIR avalia a eficácia dos compostos contra doenças que podem afetar a saúde pública ou o agronegócio. Nos ensaios laboratoriais, os bioativos são testados contra o vírus do herpes (HSV), o vírus da bronquiolite infantil (RSV), a gripe (Influenza A) e o coronavírus (SARS-CoV-2).

Recentemente, a equipe expandiu a investigação para patógenos que atacam lavouras, buscando alternativas ecológicas contra vírus vegetais.

De acordo com a coordenadora, os resultados preliminares mostram que algumas moléculas podem agir contra diferentes tipos de vírus e por mais de um mecanismo. Essa característica pode ser uma vantagem em relação aos antivirais sintéticos tradicionais.

“Geralmente, os remédios tradicionais atuam sobre um único alvo viral, o que facilita o aparecimento de mutações e resistência. Nossas moléculas de origem natural costumam inativar os vírus por múltiplos caminhos, reduzindo esse risco”, detalha Lígia. A nanotecnologia verde ajuda a tornar as substâncias mais estáveis e aumenta sua ação no organismo ou no ambiente.

O gargalo: faltam investimentos

Embora o LAVIR acumule 17 patentes registradas — um marco de inovação para a universidade pública paranaense —, o caminho entre a bancada do laboratório e a prateleira das farmácias ou do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda enfrenta barreiras estruturais do ecossistema de inovação brasileiro.

Segundo Lígia, o principal gargalo atual não é a capacidade de invenção, mas a escassez de investimentos para que os estudos avancem para a fase industrial e na validação regulatória.

“Conseguimos alcançar níveis intermediários de pesquisa, validar os protótipos e proteger as tecnologias por meio de patentes. O desafio agora é encontrar parceiros no setor industrial capazes de levar essas soluções para a etapa de produção em massa. Precisamos aproximar a ciência da indústria para que o conhecimento gerado na universidade não termine na patente, mas chegue efetivamente à sociedade”, diz.

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