Custo de vida

O litoral do Paraná está ficando caro demais para seus moradores?

Orla de Matinhos: valor dos serviços e aluguéis em alta. Foto: Roberto Dziura Jr/AEN
Orla de Matinhos: valor dos serviços e aluguéis em alta. Foto: Roberto Dziura Jr/AEN

Qualidade de vida, trânsito reduzido, proximidade com a natureza e sensação de segurança continuam colocando o litoral do Paraná entre os destinos preferidos de quem busca uma rotina tranquila. Nos últimos anos, porém, morar em cidades como Matinhos e Guaratuba ficou mais caro, principalmente no supermercado, nos serviços e nos aluguéis.

O aumento é percebido sobretudo por moradores que vivem o ano inteiro na região. Com o crescimento do turismo, das obras de infraestrutura e da movimentação econômica, o custo de vida passou a acompanhar um novo ritmo nas cidades litorâneas.

Inflação, alimentação e inadimplência pressionam orçamento

O avanço da inflação dos alimentos já aparece nos indicadores econômicos do estado e é percebido no litoral paranaense. Segundo análise da Fecomércio PR, o grupo “Alimentação e bebidas” segue entre os principais focos de pressão inflacionária no Paraná, impulsionado pelo aumento dos custos logísticos e do transporte.

Dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica, divulgada pelo DIEESE, mostram que o custo da cesta básica aumentou em todas as capitais brasileiras em abril de 2026. No Paraná, a alta acumulada no ano chegou a 7,89%. Moradores e comerciantes afirmam que cidades do litoral sentem os efeitos de forma ainda mais intensa durante a temporada de verão, quando o aumento da população influencia diretamente os preços no comércio local.

Segundo dados da Associação Comercial do Paraná, o aumento do custo de vida também começa a refletir nos índices de inadimplência das principais cidades do litoral. Em Guaratuba, o número de inadimplentes passou de 12.496 para 12.645 pessoas entre os dias 1º e 15 de maio. Já em Matinhos, os registros subiram de 12.878 para 13.015 inadimplentes no mesmo período.

Moradores mudam hábitos para economizar

A autônoma Gabriele Henrique de Oliveira, 37 anos, mora no litoral há 28 anos e afirma que o aumento no custo de vida mudou os hábitos de consumo da família nos últimos anos. Segundo ela, a falta de grandes redes de supermercados na região faz com que muitos produtos tenham preços mais altos em comparação com cidades próximas.

Para reduzir os gastos, Gabriele passou a fazer compras frequentes em Paranaguá, principalmente para compras maiores e abastecimento do carro. “Ultimamente estou indo a cada 15 dias. Aproveito e abasteço o carro, que é outra coisa que em Paranaguá é muito mais barato. Aqui no litoral, no verão, aumenta sim o fluxo e os valores. O combustível também é um vilão. De Paranaguá para Matinhos a diferença chega a R$ 0,80 por litro.”

Mesmo com o aumento dos preços, ela acredita que a qualidade de vida ainda faz valer a pena morar no litoral. “Ainda vale a pena morar no litoral, criar filhos. É uma cidade tranquila, segura e sem horas em filas de trânsito. Em dez minutos você roda a cidade. É uma cidade ótima de se morar.”

Aluguéis acompanham valorização

O aumento dos preços também é percebido no mercado de locação. Segundo Nidomar Souza de Freitas, 58 anos, empresário, corretor e proprietário da Riviera Imóveis, o litoral passou por uma mudança importante após a pandemia, impulsionada pelo home office e pela busca por qualidade de vida.

“Muitas pessoas deixaram Curitiba e outras cidades para morar no litoral definitivamente”, afirma Freitas.

Segundo ele, o aumento da procura impulsionou a valorização dos imóveis e das locações em cidades como Matinhos e Guaratuba, principalmente em regiões próximas ao mar. “Hoje, em determinados casos, principalmente em imóveis mobiliados e próximos da praia, o valor da locação já se aproxima e até supera alguns bairros de Curitiba.”

Comércio vê cidade em transformação

A percepção do comércio local é de que o litoral vive um momento de transição econômica, impulsionado pelo aumento da movimentação na região e pelos investimentos em infraestrutura. Para Cleide Areco, presidente da Associação Comercial de Guaratuba, existe preocupação com o aumento do custo de vida, já que a renda das famílias nem sempre acompanha os reajustes registrados nos últimos anos.

“Existe uma preocupação natural com o custo de vida, principalmente porque a renda das famílias nem sempre acompanha todos os aumentos. Mas acreditamos que o desenvolvimento econômico, quando bem estruturado, pode trazer mais oportunidades e equilíbrio para a cidade.”

Segundo ela, Guaratuba começou a sentir reflexos positivos no turismo e no movimento econômico além da temporada de verão. Cleide afirma que o desafio agora é transformar esse crescimento em desenvolvimento sustentável, geração de empregos e oportunidades permanentes para a população local.

“Estamos em um momento de transição. A cidade começa a sentir reflexos positivos no turismo, na visibilidade e no movimento econômico. Agora o desafio é transformar essa expectativa em desenvolvimento sustentável, geração de empregos e oportunidades reais para a população local”, diz Cleide, que reforça: “É importante que esse avanço aconteça de forma organizada, beneficiando tanto quem investe quanto principalmente quem vive aqui.”

Apesar do aumento no custo de vida, moradores e representantes do comércio afirmam que o litoral do Paraná continua sendo uma opção atrativa para quem busca mais tranquilidade, segurança e qualidade de vida. Entre desafios econômicos, crescimento urbano e valorização imobiliária, cidades como Matinhos e Guaratuba vivem um momento de transformação, mas ainda preservam características que seguem atraindo novos moradores e investidores para a região.

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