Fazer uma pós-graduação, receber bolsa-auxílio de R$ 3 mil e ganhar experiência profissional na prática. Essa é a proposta do Restec, uma residência técnica voltada principalmente a recém-formados do Paraná e Mato Grosso. O programa criado pela Lei Estadual nº 20.086, de 2019, já formou mais de 2,1 mil profissionais, que reforçaram o quadro funcional de importantes órgãos públicos do estado durante sua duração.
Hoje, cerca de 1,5 mil residentes atuam simultaneamente na Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Científica, Corpo de Bombeiros, Polícia Penal, entre outros. O objetivo do projeto é aproximar o conhecimento produzido nas universidades da administração pública, facilitando a inserção de recém-formados no mercado de trabalho
No Paraná, a pós-graduação faz parte da própria residência. O Estado financia o curso, as universidades estaduais oferecem a especialização e o participante conclui o programa com dois certificados: um de residência técnica e outro de especialista.
Já no Mato Grosso, por outro lado, o candidato precisa ingressar por conta própria em uma especialização, mestrado ou doutorado ou ter concluído a graduação há, no máximo, cinco anos, enquanto o Estado oferece apenas o campo de prática profissional.
Porta de entrada
Um dos maiores programas do Restec é a Residência Técnica e Pós-Graduação em Gestão da Segurança Pública (Restec-Gesp), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) e a Secretaria de Segurança Pública (Sesp-PR).
“A proposta é aproximar o recém-formado da prática profissional dentro do serviço público. Enquanto atua nos órgãos estaduais, ele também desenvolve uma especialização voltada à área em que está inserido”, explica a coordenadora da residência, professora doutora Danyelle Stringari. Profissionais formados há até 36 meses recebem bolsa de R$ 3.040 mais R$ 264 de auxílio-transporte para atuar por dois anos. O programa está presente em 23 cidades paranaenses.
Para quem entra, a residência costuma revelar uma área que a faculdade não apresentou. Romina Romero, assistente social residente no Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA), descobriu uma nova aplicação de sua formação ao ter contato com as investigadoras da Polícia Civil.
Já para a química Lilian Gissela Guillén Almeida, que atua no laboratório de Química Forense da Polícia Científica em Foz do Iguaçu, a mesma percepção veio ao conhecer o trabalho da perícia. Hoje, Lilian acompanha procedimentos relacionados à cadeia de custódia e à análise de substâncias apreendidas, além de operar equipamentos que estão sendo incorporados à unidade.
Embora soubesse que teria contato com cadáveres, a enfermeira Mancebo Furtado, residente no Instituto Médico-Legal (IML) descobriu que o trabalho envolve uma série de procedimentos técnicos e o uso de equipamentos específicos. “Aprendi uma nova área e novos equipamentos. No futuro, vai agregar muito na minha carreira”, destaca.
Já a biomédica Gleiciane Querino, residente da Polícia Científica de Cascavel, resume a mudança de percepção ao conhecer o cotidiano da instituição. “É muito mais do que lidar com provas”, afirma.
Ciência em prol da segurança
Parte da formação dos residentes, a nível acadêmico, envolve pesquisas científicas. Na turma atual, 314 artigos foram apresentados durante o II Seminário de Gestão Pública do Paraná, realizado durante o III Fórum Internacional de Ciências Policiais nesta quinta-feira (23) e sexta-feira (24).
Segundo a coordenadora Danyelle, os resultados da formação técnica chegam aos dados de efetividade da atuação dos órgãos. Segundo dados do levantamento do Instituto Sou da Paz, cerca de 72% dos crimes no Paraná foram solucionados. Na avaliação da doutora, a estatística positiva é a soma de investimentos em melhorias e em qualificação de novos profissionais.
“Esse programa de formação continuada é fundamental para formar profissionais mais qualificados. Não temos apenas um profissional graduado, agora temos um especialista em segurança pública, capaz de contribuir e devolver esse conhecimento para a sociedade”, afirma a coordenadora.
No último convênio firmado para a segunda turma da residência, o investimento do Governo foi de R$ 28 milhões. “O retorno é muito maior do que o valor investido em equipamentos, capacitação, produção de conhecimento e qualificação dos recursos humanos”, completa Danyelle.
Plano de carreira
Para os residentes, o investimento indica o início de uma carreira dentro das corporações. Mesmo com o ingresso ao Executivo somente por concursos públicos, Danyelle destaca que muitos concluintes da residência conseguem permanecer nos órgãos por meio da disponibilidade de cargos comissionados ou pela continuidade às pesquisas de segurança pública em outras pós-graduações stricto sensu.
A residente Jessyca afirma que pretende permanecer na área e aguarda a abertura de um concurso para técnico de necrópsia. “Quero me especializar e seguir carreira nessa área”, diz. Lilian também vê oportunidades de crescimento. Segundo ela, o setor tem ampliado sua atuação, especialmente na análise de drogas como cocaína e crack na região de fronteira. “Precisam de técnicos na área da química. É uma área nova, que tende a ampliar a demanda”, avalia.
O interesse em seguir na segurança pública também aparece nos planos de Romina e Gleiciane. A assistente social avalia disputar concursos da Polícia Civil, tanto para investigadora quanto para assistente social.
Já Gleiciane conta que já tentava ingressar em concursos públicos antes da residência, mas a vivência prática reforçou sua identificação com a perícia. “Depois que entrei na residência, percebi que realmente gosto da área. Vou seguir a carreira médica e, futuramente, quero voltar como perita”, projeta.
